
UM GATO ENTRE OS POMBOS



 Acho que realmente existe algo errado aqui 
disse Eileen devagar.   como se houvesse
algum entre ns que no pertencesse a este lugar.
 um gato entre os pombos,  esta a espcie de
sensao que eu tenho. Ns somos os pombos,
todas, e o gato est entre ns. Mas no
conseguimos ver o gato...




AGATHA CHRISTIE




UM GATO
ENTRE OS POMBOS



Traduo de
ELIANE FONTENELLE


5.a edio



























Ttulo original em ingls:
CAT AMONG THE PIGEONS

 Agulha Christie Limited, 1959

Direitos exclusivos no Brasil para
EDITORA NOVA FRONTEIRA S.A.
Rua Maria Anglica, 168  Lagoa  CEP 22.461  Tel.: 286-7822 Endereo Telegrfico NEOFRONT  Rio de Janeiro, RJ

Proibida a exportao para Portugal
e pases africanos de lngua portuguesa

Capa
STUDIO MSBB

Reviso
SYLVIO CLEMENTE DA MOTTA

Diagramao
ANTONIO HERRANZ

FICHA CATALOGRFICA
(Preparada pelo Centro de Catalogao-na-fonte do
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ)

           Christie, Agatha, 1891-1976.
C479g        Um gato entre os pombos; traduo de Eliane Fontenelle.
           3.a ed. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 19S0.

           Do original em ingls: Cat among the pigeons.

           1. Fico policial e de mistrio (Literatura inglesa) I. Ttulo.

77-0498                                                                                        CDD  823.0872
                                                   CDU  820.312.4



http://groups.google.com/group/digitalsource

ORELHA DO LIVRO
UM GATO ENTRE OS POMBOS
      Um colgio s para moas na Inglaterra. Portanto, um colgio altamente sofisticado  o Colgio Meadowbank. E o misterioso ambiente do interior das ilhas Britnicas. 
Alm disso, Um Gato entre os Pombos. E duas professoras que so admitidas no colgio, uma de lngua francesa, outra de ginstica: quem so, de onde vm? A ao se 
origina muito longe: em Ramat, no Oriente Mdio. O regente desse pas  que fora como de costume educado na Inglaterra e cujo melhor amigo, como tambm de costume, 
 cidado britnico, piloto de carreira  entrega a este toda a riqueza da famlia em pedras preciosas a fim de que as leve para o estrangeiro, pois receia uma revoluo 
iminente.  a partir da que se desencadeia todo o mistrio e a aventura, em que o distinto Colgio Meadowbank, na ainda mais distinta Inglaterra, desempenha papel 
importante.
      No colgio h um pavilho de esportes onde, alm destes, tambm se pode praticar assassinatos... Como chegar ao desfecho? Como percorrer o longo caminho de 
espionagem e sangue que leva da sia  Europa? Isso  segredo do gnio criador de Agatha Christie, que mais uma vez, de braos dados com Hercule Poirot, mantm o 
seu pblico num suspense que depois dela ningum mais conseguiu atingir na literatura policial dos nossos dias.

SUMRIO

PRLOGO  Perodo de vero
CAP. 1  REVOLUO EM RAMAT
CAP. 2  A MULHER NA SACADA
CAP. 3  APRESENTANDO O SR. ROBINSON
CAP. 4  A VOLTA DE UMA VIAJANTE
CAP. 5  CARTAS DO COLGIO MEADOWBANK
CAP. 6  PRIMEIROS DIAS
CAP. 7  FOLHAS AO VENTO
CAP 8  ASSASSINATO
CAP. 9  UM GATO ENTRE OS POMBOS
CAP. 10  UMA HISTORIA FANTSTICA
CAP. 11  ENTREVISTA
CAP. 12  LMPADAS NOVAS POR VELHAS
CAP. 13  CATSTROFE
CAP. 14  A INSNIA DA SRTA. CHADWICK
CAP. 15  O CRIME SE REPETE
CAP. 16  O MISTRIO DO PAVILHO DE ESPORTES
CAP. 17  A CAVERNA DE ALADIM
CAP. 18  TROCA DE IDIAS
CAP. 19  A TROCA DE IDIAS CONTINUA
CAP. 20  CONVERSAO
CAP. 21  APERTANDO O PASSO
CAP. 22  INCIDENTE EM ANATLIA
CAP. 23  REVELAES
CAP. 24  POIROT EXPLICA
CAP. 25  LEGADO


PRLOGO
PERODO DE VERO
ERA O DIA DE ABERTURA do perodo escolar de vero no Colgio Meadowbank. O sol do final da tarde espalhava seu brilho sobre o ptio em frente  casa. A porta principal 
encontrava-se completamente aberta, de modo hospitaleiro, e, bem  sua entrada, combinando admiravelmente com as suas propores georgianas, via-se a Srta. Vansittart, 
sem um fio de cabelo fora do lugar, vestindo um casaco e uma saia de corte impecvel. 
      Alguns pais mal informados haviam-na tomado pela Srta. Bulstrode, no sabendo que era costume da Srta. Bulstrode retirar-se para uma espcie de santurio, 
onde poucos e seletos privilegiados eram admitidos.
      Ao lado da Srta. Vansittart, operando num plano ligeiramente diferente, estava a Srta. Chadwick, agradvel, inteligente e to integrada a Meadowbank, que seria 
impossvel imaginar aquele colgio sem a sua presena. Ela sempre estivera ali. A Srta. Bulstrode e a Srta. Chadwick, juntas, haviam fundado o Colgio Meadowbank. 
#A Srta. Chadwick usava pincen, vestia-se com deselegncia, era amvel, insegura na maneira de falar e, por acaso, uma brilhante matemtica.
      Inmeras palavras e frases de boas-vindas, proferidas graciosamente pela Srta. Vansittart, espalhavam-se pela casa.
 Como vai, Sra. Arnald? Bem, Lydia, voc gostou do cruzeiro helnico? Que oportunidade maravilhosa! Conseguiu tirar boas fotografias?
 Sim, Lady Garnett, a Srta. Bulstrode recebeu sua carta a respeito das aulas de Artes e tudo j foi providenciado.
 Como vai, Sra. Bird?... Bem? No creio que a Srta. Bulstrode ter tempo hoje para discutir esta questo. A Srta. Rowan estar  sua disposio, caso a senhora 
deseje falar com ela sobre o assunto.
 Mudamos voc de quarto, Pamela. Voc agora ficar na ala perto da macieira...
 Sim, tem razo, Lady Violet, o tempo tem andado horrvel esta primavera. Este  o seu filho mais novo? Qual o seu nome? Hector? Que avio bonito o seu, Hector!
 Trs heureuse de vous voir, Madame. Ah, je regrette, ce ne serait pas possible, cette aprs-midi. Mademoiselle Bulstrode est tellement occupe.
 Boa tarde, professor. O senhor tem feito mais descobertas interessantes?
      
II
      
      Numa pequena sala no primeiro andar, Ann Shapland, a secretria da Srta. Bulstrode, batia  mquina com rapidez e eficincia. Ann era uma bonita jovem de trinta 
e cinco anos, com cabelos pretos moldando sua cabea como um gorro de cetim. Sabia ser atraente quando queria, porm a vida lhe ensinara que a eficincia e a competncia 
muitas vezes traziam melhores resultados e evitavam penosas complicaes. No momento ela se concentrava em ser tudo aquilo que a secretria da diretora de um famoso 
colgio de moas deveria ser.
      De tempos em tempos, quando parava para colocar uma nova folha de papel na mquina, olhava pela janela demonstrando interesse nas pessoas que chegavam.
 Minha nossa!  disse Ann para si mesma, admirada.  No sabia que ainda existiam tantos motoristas particulares na Inglaterra!
      Ento sorriu, quase sem querer, quando um majestoso Rolls Royce se afastou e um Austin muito pequeno e antigo se aproximou. De dentro do carro saiu um pai 
de aparncia preocupada, acompanhado da filha que parecia muito mais calma.
      Enquanto ele parava incerto, a Srta. Vansittart saiu da casa para receb-lo.
 Major Hargreaves? E esta  Alison? Entrem, por favor. Gostaria que o senhor visse pessoalmente o quarto de Alison. Eu...
      Ann sorriu e voltou a bater  mquina.
 Grande Srta. Vansittart, a gloriosa atriz substituta. Ela consegue copiar todos os truques da Bulstrode. Na verdade,  perfeita!
      Um Cadillac enorme e exageradamente vistoso, pintado em duas cores, vermelho vivo e azul celeste, moveu-se (com dificuldade, devido ao seu tamanho) pela alameda 
e estacionou atrs do velho Austin.
      O motorista apressou-se em abrir a porta. Um homem escuro, com imensa barba, vestindo uma tnica, desceu seguido de algum parecendo sada de uma pgina de 
figurino e, por ltimo, uma garota morena e magra.
 Aquela provavelmente  a Princesa Qualoseunome  pensou Ann.  No consigo imagin-la de uniforme de colgio, mas suponho que amanh o milagre se tornar 
visvel.
      Desta vez, tanto a Srta. Vansittart quanto a Srta. Chadwick apareceram.
       Sero levados  Presena  concluiu Ann.
      Ento percebeu que, muito estranhamente, ningum gostava de fazer piadas a respeito da Srta. Bulstrode. A Srta. Bulstrode era Algum.
 Voc deve ficar atenta ao Ps e Qs, minha garota  disse para si mesma  e acabar estas cartas sem cometer nenhum erro.
      No que Ann costumasse errar. Ela poderia escolher  vontade onde trabalhar como secretria. Tinha trabalhado para o diretor executivo de uma companhia de 
petrleo, fora secretria particular de Sir Marvyn Todhunter, famoso tanto pela sua erudio, quanto por sua irritabilidade e ilegibilidade de sua caligrafia. Podia 
contar entre seus empregadores dois Ministros de Estado e um importante funcionrio do Governo. No todo, seu trabalho havia sido sempre entre homens. Ficava imaginando 
como iria sentir-se, como ela colocara para si mesma, afogada em mulheres. Bem... era mais uma experincia. E sempre havia o Dennis. O fiel Dennis chegando da Malaia, 
da Birmnia, de vrias partes do mundo, sempre o mesmo, devotado, pedindo mais uma vez para que ela se casasse com ele. Querido Dennis. Mas seria muito montono 
estar casada com Dennis.
      Logo ela iria sentir falta da companhia masculina. Todas aquelas professoras... nenhum homem por perto, exceto o jardineiro de quase oitenta anos.
      Entretanto, neste ponto, Ann teve uma surpresa. Olhando pela janela, viu, alm da passagem dos carros, um homem aparando a cerca viva... evidentemente um jardineiro, 
mas muito aqum dos oitenta anos. Jovem, moreno, bonito. Ann ficou pensando... houvera falatrios sobre conseguir-se trabalho extra... mas aquele ali no era nenhum 
campons. Oh, bem, hoje em dia as pessoas faziam lodo tipo de servio. Era apenas um jovem tentando arrumar algum dinheiro para um projeto ou outro, ou, ento, realmente 
para sobreviver. Entretanto, estava cortando a cerca de modo muito profissional.
       , provavelmente seja mesmo um jardineiro de verdade...
 Tenho a impresso  disse Ann para si mesma  de que ele talvez possa ser interessante...
      Apenas mais uma carta por fazer, ficou contente em observar, e em seguida poderia passear pelo jardim...
      
III
      
      No andar superior, a Srta. Johnson, a Superintendente, estava ocupada designando os quartos, cumprimentando os recm-chegados e recebendo as alunas antigas.
      Estava contente que as aulas tivessem recomeado. Nunca soubera direito o que fazer consigo mesma durante as frias. Tinha duas irms casadas que naturalmente 
estavam mais interessadas em seus prprios afazeres e famlia do que em Meadowbank. A Srta. Johnson, apesar de gostar imensamente de suas irms, estava somente interessada 
em Meadowbank.
      Sim, era bom que o perodo escolar tivesse recomeado.
       Srta. Johnson?
       Sim, Pamela?
 Acho que quebrou alguma coisa na minha valise. Melou tudo! Acho que foi o leo de cabelo.
       Ora, ora  disse a Srta. Johnson, apressando-se para ajudar.
      
      
      
IV
      
      No gramado adiante do caminho coberto de cascalho, Mademoiselle Blanche, a nova professora de Francs, passeava. Lanou um olhar de aprovao para o homem 
jovem e forte que cortava a cerca viva.
 Assez bien.  pensou Mademoiselle Blanche. Mademoiselle era magra e tmida e passava despercebida; entretanto ela prpria notava tudo.
      Seus olhos se voltaram para a procisso de carros que se dirigia  porta principal. Avaliava-os em termos de dinheiro. Meadowbank era certamente formidable! 
Calculou mentalmente o lucro que a Srta. Bulstrode deveria estar tendo.
       Sim, realmente formidable!
      
V
      
      A Srta. Rich, que ensinava Ingls e Geografia, caminhava em direo a casa em passos rpidos, tropeando um pouco de vez em quando porque, como sempre, esquecia 
de olhar por onde andava. Seu cabelo, tambm como de costume, desprendera-se do coque. Tinha um rosto ansioso e feio.
      Dizia a si mesma.  Estar de volta novamente. Estar aqui... Parece sculos!...
      Tropeou num ancinho e o jovem jardineiro estendeu-lhe o brao.  Calma, senhorita!
      Eillen Rich disse obrigado sem olhar o rapaz.
      
VI
      
      A Srta. Rowan e a Srta. Blake, duas professoras mais jovens, iam no sentido do Pavilho de Esportes. A Srta. Rowan era esbelta, morena e ativa. A Srta. Blake, 
gorda e loura. Discutiam animadas suas recentes aventuras em Florena; os filmes a que haviam assistido, as esculturas, a beleza das rvores em flor e as atenes 
(que desejavam fossem atrevidas) de dois cavalheiros italianos.
  claro que todo mundo sabe como so os italianos  comentou a Srta. Blake.
 Desinibidos  disse a Srta. Rowan que estudara psicologia, alm de economia.  Sente-se que so extremamente saudveis. Sem nenhuma represso.
 Giuseppe porm ficou bastante impressionado quando descobriu que eu lecionava em Meadowbank  observou a Srta. Blake.  Tornou-se imediatamente muito mais 
respeitador. Ele tem uma prima que quer estudar aqui, mas a Srta. Bulstrode no tinha certeza se havia vaga.
 Meadowbank  um colgio realmente de prestgio  afirmou alegremente a Srta. Rowan. O novo Pavilho de Esportes est espetacular. Nunca imaginei que ficasse 
pronto a tempo.
 A Srta. Bulstrode disse que tinha que ficar!  falou a Srta. Blake num tom de quem dissera a palavra final.  Oh!  acrescentou de modo um tanto assustado.
      A porta do Pavilho de Esportes abrira-se abruptamente e uma mulher ossuda de cabelos ruivos apareceu lanando-lhes um olhar de animosidade afastando-se com 
um andar apressado.
 Esta deve ser a nova professora de Ginstica  falou a Srta. Blake.  Como  grosseira!
 No  uma aquisio muito agradvel para o quadro de professoras  comentou a Srta. Rowan.  A Srta. Jones era to simptica e socivel!
       Ela nos fuzilou com o olhar!  disse a Srta. Blake ressentida.
      As duas ficaram bastante irritadas.
      
VII
      
      A sala da Srta. Bulstrode tinha janelas voltadas em duas direes, uma dando para o passeio e o gramado, e a outra, para um grupo de rododendros atrs da casa. 
Era uma sala que causava forte impresso e, mais forte ainda, era a impresso causada pela Srta. Bulstrode. Uma mulher alta, de aparncia nobre, cabelos bem arrumados, 
olhos cinzentos carregados de bastante humor, e uma boca firme. O sucesso do Colgio (e Meadowbank era um dos colgios de maior prestgio da Inglaterra) era devido 
inteiramente  personalidade de sua diretora. Era um colgio muito caro, mas na realidade a razo no era esta. Ficaria melhor explicado dizendo-se que, embora custasse 
um preo exorbitante, recebia-se pelo que se pagava.
      As meninas eram educadas do modo que os pais desejavam e tambm  maneira da Srta. Bulstrode, e o resultado dessa conjugao era altamente satisfatrio. Devido 
s altas taxas, a Srta. Bulstrode podia contratar um excelente quadro de funcionrios. No havia nada de produo em massa em relao ao colgio, entretanto, se 
era individualista, possua tambm disciplina. Disciplina sem arregimentao, este era o lema da Srta. Bulstrode, trazia tranqilidade para as jovens, sustentava 
ela, dava-lhes segurana. J arregimentao dava margem  irritao. A procedncia de suas alunas era variada. Inclua vrias garotas estrangeiras de boa famlia, 
muitas vezes pertencentes  realeza. Havia tambm garotas inglesas de famlias de renome ou de fortuna, que desejavam adquirir conhecimentos de cultura geral, artstica, 
noes fundamentais da vida e regras sociais para tornarem-se agradveis, bem educadas e capazes de participar de uma conversa inteligente sobre qualquer assunto. 
Havia outras que queriam estudar com afinco, entrar para a Universidade e completar o curso e, para tal, precisavam apenas de bons ensinamentos e ateno especial. 
Algumas reagiam de modo negativo ao ensino do tipo convencional. A Srta. Bulstrode, entretanto, tinha regulamentos, no aceitando crianas-problema, delinqentes 
juvenis, preferindo receber garotas cujos pais apreciava e nas quais via possibilidade de desenvolvimento. A idade das alunas variava numa larga escala. Havia as 
que no passado teriam sido rotuladas de moas feitas e as que eram pouco mais que crianas, cujos pais estavam no estrangeiro. Para estas, tinha um interessante 
esquema de recreao. A palavra final na corte de apelao pertencia  Srta. Bulstrode.
      No momento estava em p ao lado da lareira ouvindo a Sra. Gerald Hope falar com sua voz ligeiramente lamurienta. Com grande previso, no sugerira que a Sra. 
Hope se sentasse.
 Henriette  muito nervosa, a senhora entende. Muito nervosa mesmo. Nosso mdico disse.
      A Srta. Bulstrode balanou a cabea em sinal de compreenso, contendo-se para no dizer uma frase mordaz, que algumas vezes era tentada a proferir.  Sabe, 
sua idiota,  isto que toda me tola diz a respeito da filha. 
      Falou dando apoio:  No precisa se preocupar, Sra. Hope. A Srta. Rowam, membro do nosso corpo docente,  psicloga de larga experincia. A senhora ficar 
surpresa, eu lhe garanto, da mudana que ocorrer em Henriette (que  uma menina meiga, inteligente, e boa demais para voc) depois de um ou dois semestres aqui.
 Oh, eu sei. A senhora fez maravilhas com a filha dos Lambeth... maravilhas! Sendo assim, sinto-me bem tranqila. E eu... oh sim, ia-me esquecendo. Vamos 
para o sul da Frana daqui a seis semanas. Pensei em levar Henriette. Seria um pequeno descanso para ela.
 Receio que isto seja impossvel  disse a Srta. Bulstrode com um sorriso encantador, como se estivesse atendendo a um pedido, em vez de recus-lo.
 Oh, mas...  O rosto ligeiramente petulante da Sra. Hope tornou-se hesitante, mostrando mau gnio.  Realmente, devo insistir. Afinal de contas ela  minha 
filha!
       Certo. Mas  meu colgio  afirmou a Srta. Bulstrode.
  lgico que posso tirar minha filha de um colgio a hora que eu bem entender.
 Oh, sim.  claro que pode. Mas ento eu no a receberia de volta.
      Agora a Sra. Hope estava realmente zangada.
       Considerando-se as taxas que pago aqui...
 Exato  concordou a diretora. A senhora colocou sua filha no meu colgio, no foi? Contudo, aceita-se as regras, ou ento nada feito. Como este encantador 
modelo Balanciaga que a senhora est usando.  Balanciaga, no ?  um prazer encontrar uma mulher com verdadeiro tino para roupas.
      Segurou a mo da Sra. Hope, apertou-a, e imperceptivelmente levou-a em direo  porta.
 No se preocupe com nada. Ah, sim, a est Henriette esperando pela senhora.  (Olhou com aprovao para Henriette, uma menina simptica, bem equilibrada 
e inteligente, que merecia me melhor.)  Margaret, leve Henriette Hope at a Srta. Johnson.
      A Srta. Bulstrode retirou-se para a sua sala e poucos minutos depois estava falando em francs.
 Mas certamente, Excelncia, sua sobrinha pode aprender dana de salo.  muito importante socialmente. E lnguas tambm so necessrias.
      A entrada das prximas pessoas foi seguida de tal onda de perfume que quase fez a Srta. Bulstrode cair para trs.
Deve derramar um vidro deste negcio em cima dela todo o dia, pensou a Srta. Bulstrode, ao cumprimentar a mulher de pele morena primorosamente vestida.
       Enchante, Madame.
      Madame soltou uma risadinha.
      Um homem de barba em roupas orientais segurou a mo da Srta. Bulstrode, curvou-se, e falou em bom ingls:  Tenho a honra de trazer-lhe a Princesa Shaista.
      A Srta. Bulstrode sabia tudo sobre sua nova aluna que acabara de chegar de um colgio na Sua, entretanto estava um pouco confusa em relao a quem a estava 
escoltando. No era o prprio Emir, decidiu ela. Provavelmente um Ministro ou um diplomata. Como de costume, quando em dvida, utilizou o usual ttulo de Excelncia 
e assegurou que a Princesa Shaista teria o melhor tratamento.
      Shaista sorria polidamente. Vestia-se na moda e estava perfumada. Tinha quinze anos de idade, porm, como muitas garotas do Oriente e do Mediterrneo, parecia 
mais velha... bastante madura. A Srta. Bulstrode falou com ela a respeito dos planos de estudo e ficou aliviada ao descobrir que ela respondeu prontamente em excelente 
ingls, sem dar risadinhas. Na verdade, suas maneiras podiam ser comparadas favoravelmente s maneiras desajeitadas das muitas estudantes inglesas de quinze anos. 
A Srta. Bulstrode algumas vezes pensara que seria uma tima idia mandar garotas inglesas aos pases do Oriente Prximo para l aprenderem boas maneiras.
      Mais gentilezas foram trocadas por ambos os lados e, em seguida, a sala ficou vazia outra vez, embora ainda carregada de forte perfume. Foi preciso abrir as 
duas janelas para deixar o cheiro sair.
      Os prximos a chegar foram a Sra. Upjohn e sua filha Jlia.
      A Sra. Upjohn era uma mulher jovem e agradvel nos seus trinta e tantos anos. Cabelo claro, sardas e um chapu que no lhe ia bem e uma clara concesso  seriedade 
da ocasio, j que era o tipo de mulher que andava sem chapu.
      Jlia era uma criana simples e sardenta, com uma testa inteligente e um ar de bom-humor. As preliminares foram rpidas e Jlia foi despachada via Margaret 
para a Srta. Johnson. Disse alegremente enquanto saa:  At logo, mame. Seja cuidadosa ao acender o aquecedor, agora que eu no estou l para faz-lo!
      A Srta. Bulstrode virou-se sorrindo para a Sra. Upjohn, mas no a convidou para sentar. Era provvel, embora Jlia aparentasse ser alegre e ter bom senso, 
que sua me tambm quisesse explicar o quanto a sua filha era nervosa.
 H alguma coisa que a senhora gostaria de me contar sobre Jlia?  indagou.
      A Sra. Upjohn respondeu alegremente:  Ah, no, acho que no. Jlia  uma garota comum. Muito saudvel e tudo o mais. Penso que ela possui uma inteligncia 
razovel. Contudo atrevo-me a dizer que as mes normalmente pensam isto a respeito de seus filhos, no  mesmo?
 , mas  falou a Srta. Bulstrode sorrindo,  nem todas as mes so iguais.
  maravilhoso ela poder estudar aqui  comentou a Sra. Upjohn.  Minha tia est financiando, ou melhor, ajudando nas despesas. Eu no poderia pagar sozinha. 
Estou muito grata, como tambm Jlia.  Dirigiu-se  janela e falou em tom de elogio:  Como  bonito o seu jardim. To bem tratado! A senhora deve ter bons jardineiros.
 Tnhamos trs  explicou a Srta. Bulstrode.  Mas agora estamos com problemas de mo-de-obra, s podemos contar com trabalhadores sem especializao.
  claro que o problema hoje em dia  observou a Sra. Upjohn   que os chamados jardineiros no so jardineiros e sim apenas um leiteiro que quer fazer algo 
no seu tempo livre, ou algum velho de oitenta anos. Algumas vezes me pergunto por que  exclamou a Sra. Upjohn ainda olhando pela janela.  Que extraordinrio!
      A Srta. Bulstrode prestou menos ateno  exclamao do que deveria ter feito, pois naquele momento olhou pela outra janela que dava para os rododendros e 
teve uma viso altamente indesejvel. No era outra seno Lady Vernica Carlton-Sandways, caminhando cambaleante pelo passeio com seu grande e negro chapu de veludo 
cado para um lado, resmungando, claramente num avanado estado de intoxicao alcolica.
      Lady Vernica no era uma pessoa qualquer. Era uma mulher encantadora, profundamente ligada s suas filhas gmeas, e muito agradvel quando era, como costumavam 
dizer, ela mesma... mas infelizmente, em intervalos imprevisveis, se transformava. Seu marido, o Major Carlton-Sandways, sabia lidar com ela muito bem. Uma prima 
que morava com eles habitualmente estava por perto para observar Lady Vernica e afast-la, se necessrio. No Dia dos Esportes, acompanhada do major e da prima que 
mantinham uma vigilncia cerrada, chegara completamente sbria e lindamente vestida, num legtimo exemplo do que uma me deveria ser.
      Contudo havia ocasies em que ela dava uma rasteira em seus dois guardies e ingeria grande quantidade de bebida. Ento vinha direto ver suas filhas para assegurar-lhes 
de seu amor materno. As gmeas haviam chegado de manh cedo, de trem. Ningum, entretanto, esperava Lady Vernica.
      A Srta. Upjohn continuava falando. A Srta. Bulstrode, porm, no ouvia. Pensava em vrias atitudes a serem tomadas, pois reconhecia claramente que Lady Vernica 
aproximava-se rapidamente de um estgio perigoso... Mas de repente, como uma resposta s suas preces, apareceu a Srta. Chadwick com seu passo rpido, ligeiramente 
ofegante. A fiel Chaddy, pensou a Srta. Bulstrode. Sempre podia-se contar com ela, quer fosse no caso de um corte no dedo, ou uma me embriagada.
 Uma vergonha!  disse Lady Vernica num tom elevado.  Tentaram me manter afastada... no queriam que eu viesse at aqui... enganei Edith direitinho. Fingi 
que ia descansar... apanhei o carro... enganei a tola da Edith... no passa de uma Solteirona... nenhum homem olharia para ela duas vezes. Na vinda para c tive 
problemas com a polcia... disseram que eu no tinha condies para dirigir... bobagem! Vou dizer  Srta. Bulstrode que vou levar as garotas para casa... quero-as 
em casa, junto ao carinho materno. Uma coisa maravilhosa, o amor materno...
 Esplndido, Lady Vernica.  disse a Srta. Chadwick.  Estamos to contentes que tenha vindo! Quero que veja o novo Pavilho de Esportes. Vai adorar.
      Habilmente, conduziu os passos incertos de Lady Vernica na direo oposta, afastando-a da casa.
 Creio que l encontraremos suas filhas  falou alegremente.  O Pavilho  lindo! Armrios novos, uma sala para secar os mais...  suas vozes se afastaram.
      A Srta. Bulstrode continuou olhando para fora. Em dado momento, Lady Vernica tentou se soltar e ir em direo  : casa, mas a Srta. Chadwick era um preo 
duro para ela. Desapareceram por trs da curva dos rododendros, encaminhando-se para a solido distante do novo Pavilho de Esportes.
      A Srta. Bulstrode soltou um suspiro de alvio. A boa Chaddy! To prestativa! No era moderna. No era inteligente... com exceo da matemtica... mas sempre 
presente na hora dos problemas.
      Com um suspiro e sensao de culpa, virou-se para a Sra. Upjohn que estivera falando alegremente por algum tempo.
 ...embora,  claro  estava dizendo,  nada do tipo capa e espada, nem saltos de pra-quedas, sabotagem, ou entregas de mensagens. Eu no teria coragem suficiente. 
Era mais o trabalho montono. Trabalho de escritrio. Localizar coisas no mapa, mas nada de grande importncia. Mas  lgico que algumas vezes era excitante e chegava 
a ser engraado, como acabei de dizer... todos aqueles agentes secretos seguindo uns aos outros, todos se conhecendo de vista, e freqentemente acabando num bar. 
 evidente que na ocasio eu ainda no estava casada.
      Parou abruptamente com um sorriso amigvel de desculpa.
 Perdoe-me por ter falado tanto. Estou tomando seu tempo, quando a senhora tem tantas pessoas para receber!...
      Estendeu a mo, despediu-se e partiu.
      A Srta. Bulstrode ficou por um momento com ar preocupado. Algum instinto avisava-lhe de que perdera algo que poderia ser importante.
      Afastou esta sensao. Este era o dia da abertura do perodo escolar de vero e ainda tinha muitos pais a receber. Nunca antes seu colgio fora to popular, 
to seguro do sucesso. Meadowbank estava em seu apogeu.
      Nada havia para lhe indicar que dentro de poucas semanas Meadowbank estaria mergulhado num mar de problemas; que desordem, confuso e assassinato reinariam 
ali e que certos acontecimentos j estavam se desenrolando... 

CAPTULO 1
REVOLUO EM RAMAT
CERCA DE DOIS MESES antes do incio das aulas em Meadowbank, certos fatos ocorreram que deveriam ter inesperada repercusso naquele famoso colgio para moas.
      No palcio de Ramat, dois jovens fumavam e analisavam o futuro imediato. Um dos jovens era moreno, com um rosto suave e grandes olhos melanclicos. Era o Prncipe 
Ali Yusuf, xeque de Ramat que, embora pequeno, era um dos pases mais ricos do Oriente Mdio. O outro jovem tinha cabelos louros, sardas, no possuindo a no ser 
o atraente salrio que recebia como piloto particular de Sua Alteza o Prncipe Ali Yusuf. Apesar da diferena de status, encontravam-se em termos de perfeita igualdade. 
Haviam freqentado a mesma escola pblica e eram amigos desde ento.
       Atiraram em ns  disse o prncipe quase incrdulo.
       Sem dvida que atiraram!  concordou Bob Rawlinson.
       E foi para valer. Pretendiam acabar conosco.
 Aqueles bastardos estavam decididos a nos matar  disse Bob srio.
      Ali meditou por um momento.  Acho que no valeria a pena tentar de novo.
 Poderamos no ter tanta sorte desta vez. A verdade, Ali,  que deixamos as coisas para muito tarde. Voc deveria ter partido h duas semanas atrs. Eu havia 
lhe prevenido.
       Ningum deve fugir!  disse o governante de Ramat.
 Entendo seu ponto de vista. Lembre-se entretanto do que Shakespeare ou um destes poetas disse a respeito daquele que fogem, deixando para lutar noutro dia.
 E pensar  comentou o jovem prncipe com emoo  em todo o dinheiro gasto para criar um Programa de Bem-Estar Social. Hospitais, escolas, servio de sade...
      Bob Rawlinson interrompeu a lista.
       A Embaixada no poderia fazer alguma coisa? 
      Ali Yusuf ficou vermelho de indignao.
 Procurar asilo na Embaixada! Isto nunca! Os extremistas provavelmente invadiriam o local... no respeitariam a imunidade diplomtica. Alm do mais, se eu 
fizesse isto, a sim seria realmente o fim de tudo. A principal acusao que existe contra mim  a de ser pr-ocidente!...  suspirou.   to difcil de se entender!... 
 demonstrava ansiedade, parecendo mais jovem do que seus vinte e cinco anos.  Meu av era um homem cruel, um verdadeiro tirano. Tinha centenas de escravos e tratava-os 
com crueldade. Em suas guerras tribais matava seus inimigos impiedosamente e os torturava de um modo horrvel. O simples som de seu nome deixava todo mundo plido. 
E mesmo assim ele  uma legenda! Admirado! Respeitado! O grande-Achmed Abdullah! E eu? O que eu fiz? Constru hospitais, escolas, conjuntos habitacionais, tudo que 
seria de se esperar que o povo desejasse. Ser que no querem nada disto? Ser que prefeririam um reinado de terror como o de meu av?
 Acho que sim  respondeu Bob Rawlinson.  Parece injusto mas  verdade.
       Mas por que, Bob? Por qu?
      Bob Rawlinson respirou fundo, agitou-se e procurou explicar o que sentia. Teve que lutar contra a sua dificuldade de expresso.
 Bem  comeou ele,  seu av armou um espetculo... suponho que na verdade foi isto. Ele era... um tanto... dramtico, se  que entende o que quero dizer.
      Olhou para o amigo que definitivamente no era teatral. Era um sujeito bom, calmo, decente, sincero e perplexo. Isto definia Ali e por ser assim  que Bob 
gostava dele. No era nem excntrico, nem violento, porm, enquanto na Inglaterra pessoas excntricas e violentas causavam embarao e no eram benquistas, no Oriente 
Mdio, Bob estava bem certo, acontecia o contrrio.
       Mas a democracia...  comeou Ali.
 Oh, democracia!...  Bob balanou seu cachimbo.  Esta  uma palavra que em cada lugar tem um significado diferente. Uma coisa  certa: jamais tem o significado 
que os gregos originalmente tencionavam transmitir. Aposto qualquer coisa como, se conseguirem colocar voc para fora, algum comerciante pretensioso tomar o seu 
lugar, exaltando suas prprias qualidades, transformando-se a si mesmo no Deus-Todo-Poderoso, prendendo ou cortando a cabea de qualquer um que, de alguma forma, 
ousar discordar dele. E, guarde bem isto, dir que  um governo democrata... do povo e para o povo. Acredito que o povo tambm ir gostar.  excitante para eles. 
Bastante derramamento de sangue.
       No somos selvagens! Hoje em dia somos pessoas civilizadas.
 H vrios tipos de civilizao...  disse Bob vagamente.  Alm disto, creio que todos temos um pouco de violncia dentro de ns... se pudermos pensar numa 
boa desculpa para deixar vir  tona.
       Talvez voc tenha razo  concordou Ali.
 O que as pessoas parecem no desejar hoje em dia, em lugar algum  disse Bob,   algum que tenha um pouco de bom senso. Nunca fui muito inteligente, voc 
bem sabe, porm freqentemente penso que  disto que o mundo realmente precisa... apenas de um pouco de bom senso.  Pousou o cachimbo e sentou-se.  Mas deixa isto 
para l. O problema  como tir-lo daqui. H algum no exrcito em quem voc realmente confia?
      O Prncipe Ali balanou a cabea lentamente. 
 Quinze dias atrs eu teria respondido sim. Agora, entretanto, no sei... no posso ter certeza...
      Bob concordou com a cabea.  Este  o problema. E quanto ao seu Palcio, me d arrepios.
      Ali concordou sem emoo.
 Sim, existem espies espalhados por todo o Palcio. Ouvem tudo, sabem de tudo.
 At mesmo nos pores  Bob parou.  O velho Achmed  que est certo. Ele tem uma espcie de sexto sentido. Encontrou um dos mecnicos tentando sabotar o 
avio... um dos homens que ns teramos jurado ser inteiramente digno de confiana. Olhe, Ali, se vamos tir-lo daqui, ter que ser logo.
 Eu sei... eu sei. Acho... agora tenho certeza que se ficar serei morto.
      Falava sem emoo ou qualquer espcie de pnico: apenas com leve interesse.
 De qualquer modo corremos um grande risco de sermos mortos  preveniu Bob.  Teremos que voar em direo ao norte, voc sabe. No nos podem interceptar naquela 
direo. Mas isto significa sobrevoar as montanhas... e nesta poca do ano...  Ele encolheu os ombros.  Voc precisa compreender.  tremendamente perigoso.
      Ali Yusuf parecia arrasado.
       Se alguma coisa acontecer a voc, Bob...
 No se preocupe comigo, Ali. No foi isto que eu quis dizer. Eu no sou importante. E, de qualquer maneira, sou o tipo do sujeito que mais cedo ou mais tarde 
acabar morrendo. Estou sempre fazendo coisas malucas. No,  voc que me preocupa. No quero persuadi-lo de um modo ou de outro. Se parte do exrcito  leal...
 No gosto da idia de fugir  disse Ali simplesmente.  Mas no tenho a menor vontade de me transformar em mrtir e ser feito em pedaos durante um motim.
      Calou-se por uns instantes.
       Muito bem  falou finalmente,  faremos a tentativa. Quando?
      Bob encolheu os ombros.
 Quanto mais cedo melhor. Temos que conseguir com que voc v at o aeroporto sem levantar suspeitas. Que tal dizer que vai inspecionar a construo da nova 
estrada em Al Jasar? Um capricho repentino. V esta tarde. Ento, quando o seu carro estiver na pista, pare... Estarei com o avio pronto e ligado. A idia ser 
inspecionar a construo da estrada por ar, entendeu? Levantaremos vo e pronto! No podemos levar bagagem,  claro. Tem que ser tudo de improviso.
       No h nada que eu queira levar comigo, exceto uma coisa...
      Sorriu e, de repente, o sorriso alterou seu rosto fazendo dele uma pessoa diferente. No era mais o moderno e consciencioso jovem de mentalidade ocidental... 
o sorriso continha toda a malcia e astcia de sua raa, que possibilitara a sobrevivncia de uma longa linhagem de seus ancestrais.
 Voc  meu amigo, Bob, voc ver.  Colocou as mos dentro da camisa e apalpou. Em seguida estendeu uma pequena sacola de camura.
       Isto?  Bob franziu as sobrancelhas intrigado.
      Ali tomou-a de sua mo, abriu o cordo e jogou o seu contedo sobre a mesa.
      Bob reteve o flego por um momento e depois soltou um assobio.
       Meu Deus! So verdadeiras? 
      Ali parecia se divertir.
  lgico que so verdadeiras! A maioria delas pertenceu a meu pai. Ele adquiria novas pedras todos os anos. Eu tambm. Vieram de muitos lugares, compradas 
para a nossa famlia por homens de confiana... de Londres, Calcut, frica do Sul.  uma tradio nossa. T-las para um caso de necessidade.  Acrescentou num tom 
casual:  Valem, ao preo atual, cerca de um milho de libras.
 Quase um milho de libras!  Bob soltou um assobio, apanhou as pedras e deixou-as correr entre os dedos.   fantstico, como um conto de fadas. Mexe com 
a gente!
 Sim.  O jovem moreno balanou a cabea. Mais uma vez aquele ar cansado voltara ao seu rosto.  Os homens no so os mesmos quando se trata de jias. H 
sempre uma trilha de violncia que as acompanha. Mortes, traies, assassinatos. E as mulheres so as piores, pois com elas no se trata s do valor. Tm algo a 
ver com as jias em si. Belas jias deixam as mulheres malucas. Desejam possu-las. Us-las em volta do pescoo, nos braos. No confiaria a mulher nenhuma estas 
pedras. Entretanto confiarei em voc.
       Em mim?  Bob arregalou os olhos.
 Sim. No quero que estas pedras caiam nas mos de meus inimigos. No sei quando ocorrer o golpe contra mim. Pode at mesmo estar sendo planejado para hoje. 
 possvel que eu no viva para estar no aeroporto esta tarde. Leve as pedras e faa o melhor que puder.
       Mas olhe aqui, eu no entendo. O que devo fazer com elas?
       Arrume um modo de tir-las do pas.
      Ali encarou calmamente seu amigo perturbado.
       Voc quer dizer que deseja que eu as leve de vez?
 Pode definir assim. Realmente acho voc mais capaz do que eu para arquitetar um plano para lev-las para a Europa.
 Mas olhe, Ali, no tenho a menor idia de como fazer tal coisa.
      Ali recostou-se em sua cadeira. Sorria de maneira calma e divertida.
 Voc possui bom senso e  honesto. E lembro-me que no tempo em que era meu subordinado sempre conseguia ter uma idia engenhosa. Dar-lhe-ei o nome e o endereo 
do homem que trata de tais assuntos para mim, isto , no caso de eu no sobreviver. No fique to preocupado, Bob. Faa o melhor que puder.  s o que lhe peo. 
No o culparei se falhar. Ser como Al quiser. Para mim,  simples: no quero que estas pedras sejam tiradas de meu cadver. Quanto ao resto...  encolheu os ombros. 
 como eu disse. Tudo acontecer conforme os desgnios de Al.
       Voc  maluco!
       No. Sou fatalista, apenas isto.
 Mas veja. Ali, voc acabou de dizer que sou honesto. Mas quase um milho de libras!... No acha que isto pode enfraquecer a honestidade de qualquer homem?
      Ali Yusuf olhou para seu amigo com afeto.
 Por estranho que parea, no tenho nenhuma dvida a este respeito. 

CAPTULO 2
A MULHER NA SACADA
ANDANDO PELOS CORREDORES de mrmore do Palcio, Bob Rawlinson nunca se sentira to infeliz em sua vida. O fato de saber que estava carregando quase um milho de 
libras no bolso de sua cala causava-lhe uma aguda sensao de amargura. Tinha a impresso de que todos os funcionrios do Palcio com quem encontrava tinham conhecimento 
do que acontecia. Sentia at que o fato estava estampado em seu rosto. Teria ficado aliviado se soubesse que seu rosto sardento trazia exatamente a usual expresso 
alegre de boa ndole.
      Do lado de fora as sentinelas, com um rudo surdo, apresentaram armas.
      Bob caminhou pela rua principal de Ramat, repleta de gente, com a mente ainda confusa. Aonde estava indo? O que pretendia fazer? No tinha a menor idia. E 
o tempo era curto.
      Aquela rua era como a maioria das ruas principais do Oriente Mdio. Uma mistura de misria e esplendor. Os bancos exibiam a opulncia recm-construda. Um 
sem-nmero de pequenas lojas mostravam colees de mercadorias de plstico barato. Botinhas de beb e isqueiros sem valor estavam colocados lado a lado numa arrumao 
de mau gosto; havia mquinas de costura, peas sobressalentes de automveis. As farmcias exibiam remdios em embalagens desbotadas e uma enorme quantidade de todo 
tipo de penicilina e antibiticos. Em poucas lojas havia alguma coisa que se desejaria comprar, exceto os modelos mais recentes de relgios suos, centenas dos 
quais eram amontoados em pequeninas vitrinas. A variedade era tanta, que mesmo ali a pessoa fugia  compra simplesmente atordoado pela quantidade.
      Bob, ainda caminhando numa espcie de estupor, acotovelado por figuras em roupas nativas ou ocidentais, recobrou a calma, e mais uma vez perguntou a si mesmo, 
com todos os diabos, aonde estava indo.
      Entrou num bar e pediu ch. Enquanto saboreava a bebida, comeou lentamente a se acalmar. A atmosfera do bar era tranqila. Na mesa em frente um velho rabe, 
calmamente balanava um cordo de contas de mbar. Atrs dele, dois homens jogavam gamo. Era um bom lugar para sentar e pensar.
      E ele precisa pensar. Pedras no valor de quase um milho de libras haviam-lhe sido entregues e cabia a ele imaginar um modo de tir-las do pas. E tambm no 
havia tempo a perder. A qualquer momento o barulho poderia comear...
      Ali era maluco,  claro! Entregar a um amigo uma fortuna daquela maneira despreocupada! E depois ficar sentado tranqilamente, deixando tudo nas mos de Al! 
Bob no contava com este recurso. O Deus de Bob esperava que os seus fiis tomassem suas decises e praticassem seus prprios atos com o melhor da habilidade que 
Ele lhe havia dado.
      Que diabo iria fazer com aquelas malditas pedras?
      Lembrou-se da Embaixada. No, no poderia envolver a representao de seu pas. E era quase certo que a Embaixada se recusaria a ser envolvida.
      O que ele precisava era de uma pessoa, uma pessoa bem comum que estivesse deixando o pas de modo bem natural. Um homem de negcios, ou talvez fosse melhor 
um turista. Algum sem ligaes polticas, cuja bagagem seria, no mximo, submetida a uma busca superficial ou, mais provavelmente, a nenhuma. Havia,  claro, um 
outro lado a ser considerado... A possibilidade de sensao no Aeroporto de Londres... Tentativa de contrabando de jias no valor de quase um milho. E etc., etc. 
Era preciso correr este risco.
      Algum comum... um legtimo viajante. E, de repente, Bob chamou a si mesmo de tolo. Joan,  lgico! Sua irm Joan Sutcliffe. Joan estava em Ramat h dois meses 
com sua filha Jennifer, para quem, depois de um grave ataque de pneumonia, havia sido recomendado sol e clima seco. Iam retornar por mar dali a quatro ou cinco dias.
      Joan era a pessoa ideal. O que dissera Ali sobre mulheres e jias? Bob sorriu consigo mesmo. A boa Joan! Ela no perderia a cabea por causa de jias. Sabia 
que ela mantinha os ps na terra. Sim, ele podia confiar em Joan, em sua honestidade, sim. Mas quanto  sua discrio? Bob balanou a cabea lamentando. Joan falaria. 
No seria capaz de ficar calada. Pior at. Iria desconfiar estar levando alguma coisa muito importante e que no deveria dizer uma palavra a ningum. Seria realmente 
excitante...
      Joan nunca fora capaz de guardar um segredo, embora ficasse sempre irritada quando algum lhe dizia isto. Joan no deveria saber o que estava levando. Seria 
mais seguro deste modo. Ele faria um embrulho com as pedras, um embrulho de aparncia inocente. Inventaria uma histria. Um presente para algum. Uma encomenda. 
Ele pensaria em algo...
      Bob olhou o relgio e levantou-se. O tempo estava passando.
      Caminhou pela rua esquecido do calor do meio-dia. Tudo parecia to normal! No havia nada que indicasse o que estava para acontecer. Somente no Palcio havia 
algum consciente dos tiros de emboscada, da espionagem, dos sussurros. O exrcito... tudo dependia do exrcito. Quem era leal? Quem era desleal? Um golpe de Estado 
certamente seria tentado. Teria sucesso ou falharia?
      Bob franziu as sobrancelhas ao entrar no principal hotel de Ramat. Era modestamente chamado de Ritz Savoy e tinha uma grande fachada moderna. Abrira com muita 
pompa h trs anos atrs, com um gerente suo, um cozinheiro-chefe vienense e um matre-dhtel italiano. Tudo tinha sido maravilhoso. O cozinheiro-chefe havia 
ido embora, seguido do gerente suo. Agora o mitre italiano tambm se fora. A comida continuava pretensiosa, mas ruim, o servio abominvel e grande parte do custoso 
sistema hidrulico no funcionara.
      O empregado atrs do balco conhecia Bob e o cumprimentou.
 Bom dia, comandante. Est procurando por sua irm? Ela saiu para um piquenique com a garotinha...
      Um piquenique? Bob foi pego de surpresa... mas que hora ela escolhera para um piquenique!
 Foram com o Sr. e Sra. Hurst da Companhia de Petrleo  informou o funcionrio. Todos sempre sabem de tudo.  Foram para a represa de Kalat Diwa.
      Bob praguejou em voz baixa. Joan no estaria de volta to cedo.
 Subirei at seu quarto  disse estendendo a mo para pegar a chave que o empregado lhe entregou.
      Abriu a porta e entrou. O quarto, grande e com duas camas de solteiro, encontrava-se em sua confuso costumeira. Joan Sutcliffe no era uma mulher ordeira. 
Havia tacos de golfe nas cadeiras, raquetas de tnis jogadas em cima da cama. Roupas espalhadas. A mesa estava coberta por rolos de filme, cartes postais, revistas 
e uma grande variedade de objetos curiosos, a maioria de Birmingham e do Japo.
      Bob olhou em torno do quarto, para as malas e sacolas. Estava com um problema. No iria poder se encontrar com Joan antes de partir de avio com Ali. No haveria 
tempo de ir  represa e voltar. Poderia fazer um embrulho das pedras e deixar um bilhete, porm... balanou a cabea. Sabia muito bem que quase sempre era seguido. 
Provavelmente fora seguido do Palcio at o caf e do caf at ali. No percebera ningum... mas sabia que eles eram bons neste trabalho. Nada havia de suspeito 
em vir ao hotel visitar sua irm... entretanto, se deixasse um pacote com um bilhete, o bilhete seria lido e o pacote aberto.
      Tempo... tempo... Ele no tinha tempo...
      Quase um milho em pedras preciosas no bolso de sua cala!
      Olhou em volta do quarto.
      Ento, com um sorriso, apanhou em seu bolso um estojo de ferramentas que sempre carregava. Viu que sua sobrinha Jennifer tinha massa para modelagem que ajudaria.
      Trabalhou com rapidez e habilidade. Em dado momento, desconfiado, levantou os olhos para a janela aberta. No, no havia nenhuma sacada naquele quarto. Eram 
apenas seus nervos que lhe faziam ter a impresso de que algum o observava.
      Terminou a sua tarefa e balanou a cabea satisfeito. Ningum notaria o que ele fizera... estava seguro disto. Nem Joan, nem nenhuma outra pessoa. Certamente 
nem Jennifer, uma criana egosta que nunca via ou percebia nada alm dela mesma.
      Recolheu todas as evidncias do seu trabalho e guardou-as em seu bolso.
      Em seguida hesitou, olhando em volta.
      Apanhou o bloco de cartas da Sra. Sutcliffe e sentou-se com uma expresso carregada.
      Era necessrio deixar um bilhete para Joan...
      Mas o que ele poderia dizer? Precisava ser alguma coisa que Joan entendesse mas que nada significasse para algum que lesse.
      E isto era praticamente impossvel. Nos romances policiais que Bob gostava de ler em seu tempo livre, costumava-se deixar uma espcie de cdigo que era sempre 
decifrado com sucesso por algum. Contudo, no conseguia nem comear a pensar num cdigo e, alm do mais, Joan era o tipo de pessoa de esprito prtico que precisava 
de todos os pingos nos ii para entender alguma coisa...
      Foi ento que sua expresso se clareou. Havia uma outra maneira de faz-lo... desviar a ateno de Joan... um bilhete comum do dia-a-dia. Em seguida, deixar 
uma mensagem com outra pessoa para ser entregue a Joan na Inglaterra.
      Escreveu rapidamente:
QUERIDA JOAN:
     Vim convid-la para uma partida de golfe esta tarde, mas j que voc foi  represa, provavelmente estar morta de cansao. Que tal amanh? s cinco horas no 
clube.
                                                                   Seu,
                                                              BOB
      Era o tipo do bilhete comum para ser deixado para uma irm que talvez nunca mais visse... mas quanto mais casual melhor. Joan no deveria ser envolvida neste 
caso estranho, no deveria nem mesmo saber que havia algo anormal. Joan no sabia dissimular. Sua proteo residiria no fato de que ela obviamente de nada sabia.
      E o bilhete serviria a um duplo propsito. Daria a impresso de que ele, Bob, no tinha nenhum plano de partida.
      Pensou por uns momentos e depois dirigiu-se ao telefone e deu o nmero da Embaixada Inglesa. Puseram-no em contato com um amigo seu, Edmundson, Terceiro Secretrio.
 John?  Bob Rawlinson falando. Voc pode me encontrar quando sair?... No pode ser um pouco mais cedo?...  preciso, meu velho.  importante. Bem, na verdade, 
trata-se de uma garota  pigarreou embaraado.  Ela  maravilhosa. Simplesmente maravilhosa. Uma coisa do outro mundo. Apenas um pouco complicada.
      A voz de Edmundson soando ligeiramente presunosa e re-provadora, disse  Realmente, Bob, voc e suas garotas. Est bem, encontro-o s duas horas  e desligou.
      Bob ouviu um segundo click como se uma outra pessoa que estivesse escutando houvesse recolocado o fone no gancho.
      O velho Edmundson! Desde que os telefones de Ramat comearam a ser censurados, Bob e John Edmundson haviam bolado um pequeno cdigo para eles mesmos. Uma garota 
maravilhosa que era uma coisa do outro mundo significava algo urgente e importante.
      Edmundson o apanharia s duas horas de carro em frente ao novo Banco do Comrcio e lhe contaria sobre o lugar do esconderijo. Diria que Joan nada sabia a respeito, 
mas que se alguma coisa acontecesse a ele aquilo era muito importante. Indo de navio Joan e Jannifer no chegariam  Inglaterra antes de seis semanas. A esta altura 
a revoluo j deveria ter estourado e, tendo alcanado xito ou tendo sido debelada, Ali Yusuf j deveria estar na Europa, ou ento ele e Bob poderiam estar mortos. 
Contaria a Edmundson o bastante, mas no demais.
      Bob deu uma ltima olhada no quarto. Estava exatamente igual, sossegado, desarrumado, domstico. A nica coisa a mais era o seu bilhete inofensivo para Joan. 
Apoiou o bilhete na mesa e saiu. No havia ningum no corredor.
      
II
      
      A mulher do quarto ao lado do de Joan Sutcliffe saiu da sacada. Havia um espelho em suas mos.
      Sara para a sacada a fim de examinar mais detalhadamente um fio de cabelo que tivera a audcia de aparecer em seu queixo. Arrancou-o com a pina e submeteu 
seu rosto a um rpido exame sob a luz clara do sol.
      Foi ento, quando terminou, que viu algo. O ngulo em que estava segurando seu espelho era tal, que refletia o espelho do armrio do quarto vizinho, e neste 
espelho viu um homem fazendo algo muito curioso.
      To estranho e inesperado que ela ficou parada, esttica, olhando. De onde estava sentado, ele podia v-la, e ela s conseguia enxerg-lo por meio de duplo 
reflexo.
      Se ele tivesse virado o rosto para trs, talvez visse o espelho dela refletido no armrio, porm estava muito absorvido no que fazia para olhar para trs. 
Em dado momento,  bem verdade, ele de repente olhara em direo  janela, mas j que l no havia nada, tornou a baixar a cabea.
      A mulher observou-o enquanto ele terminava o que fazia. Depois de uma curta pausa ele escreveu um bilhete que deixou apoiado na mesa. Em seguida saiu do seu 
campo de viso, entretanto ela podia ouvir o bastante para compreender que ele falava ao telefone. No conseguia entender o que dizia, mas parecia tratar-se de algo 
despreocupado... casual. Ouviu, ento, a porta se fechar.
      Esperou alguns minutos. Ento abriu a porta. Do lado de fora, um rabe, preguiosamente, tirava p com um espanador de penas. Em seguida, ele dobrou o corredor 
e desapareceu.
      A mulher dirigiu-se rpida para a porta vizinha  sua. Estava trancada, mas ela j previra isto. O grampo que trouxera e a lmina de uma pequena faca fizeram 
o trabalho com rapidez e eficincia.
      Entrou fechando a porta atrs de si. Apanhou o bilhete. O envelope estava apenas levemente colado, abrindo-se com facilidade. Leu a nota, franzindo a testa. 
Naquela folha de papel no havia nenhuma explicao.
      Tornou a colar o envelope, colocou-o de volta no lugar e atravessou o quarto.
      L, com as mos estendidas, foi perturbada por vozes vindas do terrao embaixo.
      Uma das vozes ela sabia ser da ocupante do quarto no qual se encontrava. Uma voz decidida, didtica, completamente segura de si.
      Correu at a janela.
      Embaixo, no terrao, Joan Sutcliffe, acompanhada de sua filha Jennifer, uma menina plida de quinze anos, falava em altos brados, para um ingls de aparncia 
triste, do Consulado Britnico, o que achava das providncias que ele viera tomar.
 Mas isto  um absurdo! Nunca ouvi tamanha bobagem. Tudo aqui est perfeitamente tranqilo e todos so bastante agradveis. Acho que no passa de pnico infundado.
 Esperamos que sim, Sra. Sutcliffe, realmente esperamos que sim. Todavia a responsabilidade  tamanha que...
      A Sra. Sutcliffe o interrompeu. No estava disposta a considerar a responsabilidade de embaixadores.
 Temos muita bagagem, o senhor sabe. Vamos voltar de navio... na prxima quarta-feira. A viagem por mar far bem a Jennifer. Foi conselho mdico. Sinceramente, 
devo recusar a mudar todos os meus planos e ser posta num avio a caminho da Inglaterra nesta afobao tola.
      O homem de aspecto triste falou, para encorajar, que a Srta. Sutcliffe e sua filha poderiam ir de avio, no para a Inglaterra, mas sim para Eden e l tomar 
o navio.
       Com a nossa bagagem?
 Sim, sim, isto pode ser arranjado. Tenho um carro esperando ... uma camioneta. Podemos levar tudo agora mesmo.
 Oh, bem  cedeu a Sra. Sutcliffe.  Acho que  melhor fazermos as malas.
       Imediatamente, se no se importar.
      A mulher no quarto recuou prontamente. Deu uma olhada rpida no endereo da etiqueta de uma das malas. Em seguida saiu apressadamente e voltou ao seu quarto 
no momento em que a Sra. Sutcliffe dobrava o corredor.
      O empregado do hotel vinha correndo atrs dela.
 Seu irmo, o comandante, esteve aqui, Sra. Sutcliffe. Esteve em seu quarto, mas creio que j foi embora. Por pouco a senhora no o encontra.
 Que aborrecimento!  exclamou a Sra. Sutcliffe.  Obrigada  agradeceu ao funcionrio e dirigiu-se a Jennifer.  Acho que tambm Bob est inquieto. Eu mesma 
no vejo nenhum sinal da agitao nas ruas. Esta porta est aberta. Como as pessoas so descuidadas!
       Talvez tenha sido o tio Bob  opinou Jennifer.
 Gostaria de ter me encontrado com ele... Oh, um bilhete.  Ela. rasgou o envelope.  Pelo menos, Bob no est criando tempestade num copo dgua  disse 
ela em tom de triunfo.   bvio que ele no sabe de nada. Tudo no passa de temores diplomticos. Como detesto fazer as malas neste calor! Este quarto est um forno. 
Ande, Jennifer, apanhe suas coisas na cmoda e no armrio. Vamos jogar tudo de qualquer maneira. Mais tarde arrumaremos direito.
       Nunca estive numa revoluo  disse Jennifer pensativa.
 E no creio que ser desta vez  respondeu sua me asperamente.  Ser como eu disse. Nada acontecer.
      Jennifer pareceu desapontada.

CAPTULO 3
APRESENTANDO O SR. ROBINSON
SEIS SEMANAS DEPOIS, um jovem batia discretamente na porta de uma sala em Bloomsburry e era convidado a entrar.
      Era uma sala pequena. Atrs da mesa, afundado numa cadeira, estava um homem gordo de meia idade, usando um terno amarrotado, com a frente coberta de cinza 
de charuto. As janelas fechadas tornavam o ar quase insuportvel.
 Bem  disse o homem gordo, falando com os olhos semicerrados.  O que h agora?
      Dizia-se que os olhos do Coronel Pikeaway pareciam estar sempre fechando-se de sono, ou ento abrindo-se ao acordar. Comentava-se tambm que o seu nome no 
era Pikeaway e que no era coronel. Mas algumas pessoas so capazes de qualquer comentrio.
 O Sr. Edmundson, do Ministrio do Exterior, est aqui, senhor.
       Oh  fez o Coronel Pikeaway.
      Piscou dando a impresso de que ia adormecer e murmurou:
 O Terceiro Secretrio da nossa Embaixada em Ramat na ocasio da revoluo. Certo?
       Certo, senhor.
 Suponho ento que  melhor eu receb-lo  disse o Coronel Pikeaway sem nenhum prazer especial. Sentou-se numa posio mais empertigada e sacudiu um pouco 
da cinza de sua roupa.
      O Sr. Edmundson era um jovem louro, alto, impecavelmente vestido, o que combinava com suas maneiras, e com um ar de muda censura.
 Coronel Pikeaway? Sou John Edmundson. Disseram-me que o senhor... talvez quisesse me ver.
 Disseram? Bem, eles devem saber  respondeu o coronel.  Sente-se  acrescentou.
      Seus olhos comearam a se fechar novamente, mas antes que eles o fizessem falou:
       O senhor estava em Ramat na ocasio da revoluo?
       Sim. Foi um negcio srdido. 
 Estou certo que sim. O senhor era amigo de Bob Rawlinson, no era?
       Sim. Eu o conheo bem.
       Conhecia-o  corrigiu o Coronel Pikeaway.  Ele est morto.
 Sim, senhor, eu sei. Apenas no tinha certeza...  Fez uma pausa.
 No precisa se dar ao trabalho de ser discreto aqui  disse o coronel.  Ns sabemos de tudo. Ou se no sabemos fazemos de conta que sim. No dia da revoluo, 
Rawlinson levou Ali Yusuf de avio para fora de Ramat. Desde ento, no se soube mais nada do aparelho. Poderia ter pousado em algum lugar inacessvel ou poderia 
ter-se despedaado. Foram encontrados restos de um avio nas montanhas de Arolez. Havia dois corpos. Amanh as notcias sero liberadas para a imprensa. Certo?
      Edmundson admitiu que ele estava certo.
 Aqui sabemos de tudo  afirmou o Coronel Pikeaway.   para isto que estamos aqui. O avio foi de encontro s montanhas. Pode ter sido a m condio do tempo. 
Temos razes para acreditar que foi sabotagem. Uma bomba de efeito retardado. Ainda no temos o relatrio completo. O avio caiu em lugar de difcil acesso. Havia 
uma recompensa para quem o encontrasse, mas estas coisas levam tempo para surtir efeito. Tivemos que enviar especialistas para uma investigao. Com todas as formalidades 
e burocracia,  claro. Requerimento a um governo estrangeiro, autorizao de Ministros, gorjetas... para no falar da possibilidade de os habitantes locais se apropriarem 
de tudo que pudesse ser aproveitado.
      Fez uma pausa e olhou para Edmundson.
  tudo muito triste  comentou Edmundson.  O Prncipe Ali Yusuf teria sido um governante de viso, com princpios democrticos.
 Deve ter sido justamente isto que matou o pobre sujeito  disse o Coronel Pikeaway.  Mas no podemos perder tempo contando histrias tristes de reis mortos. 
Pediram-nos para fazer certas investigaes. Por partidos interessados. Partidos que contam com a boa vontade de nosso governo.  Ele encarou o outro com firmeza. 
 Sabe a que me refiro, no?
 Bem, eu ouvi falar que nada de valor foi encontrado nos corpos, ou entre as runas e, pelo que sabemos, no houve saque por parte dos camponeses. No entanto, 
tratando-se de camponeses, nunca se pode ter certeza. Eles conseguem dissimular to bem quanto o Ministrio do Exterior. E o que mais o senhor ouviu?
       Nada mais.
 No ouviu falar de que talvez alguma coisa de valor deveria ter sido encontrada? Por que motivo mandaram-no me procurar?
 Disseram-me que o senhor talvez quisesse me fazer algumas perguntas  respondeu Edmundson com afetao.
 Se eu lhe fizer perguntas vou esperar respostas  esclareceu o Coronel Pikeaway.
       Naturalmente.
 No me parece que para voc seja to natural assim. Bob Rawlinson disse-lhe alguma coisa antes de sair de Ramat? Era confidente de Ali. Vamos, responda-me. 
Ele lhe falou alguma coisa?
       A respeito de que, senhor?
      O Coronel Pikeaway olhou firme para ele e coou a orelha.
 Oh, est bem  resmungou.  Esquea isto. Se no sabe do que estou falando, no sabe, e pronto.
 Acho que havia algo...  comeou Edmundson com cautela e relutncia.  Algo importante que Bob me queria dizer. 
 Ah!  exclamou o Coronel Pikeaway com o ar de um homem que finalmente conseguiu arrancar a rolha de uma garrafa.  Interessante. Vamos ver o que voc tem 
para me contar.
  muito pouco, senhor. Bob e eu tnhamos uma espcie de cdigo desde que todos os telefones de Ramat estavam sendo censurados. Bob tinha meios de ouvir boatos 
que circulavam no Palcio, e eu, s vezes, obtinha algumas informaes que transmitia para ele. Assim, se algum de ns telefonasse para o outro e mencionasse uma 
garota espetacular, usando o termo do outro mundo significava que havia algo.
       Informaes de algum modo importantes?
 Sim. No dia em que tudo comeou, Bob me telefonou usando estes termos. Deveria encontr-lo no nosso lugar de costume ... em frente a um banco. Todavia, o 
tumulto comeou exatamente naquele quarteiro e a polcia fechou a rua. Ele no podia entrar em contato comigo nem eu com ele. E naquela mesma tarde partiu com Ali.
 Entendo  disse Pikeaway.  No tem idia de onde ele telefonou?
       No. Poderia ter sido de qualquer lugar.
  uma pena  fez uma pausa e depois acrescentou casualmente:  Conhece a Sra. Sutcliffe?
 Refere-se  irm de Bob? Conhecia-a em Ramat, naturalmente. Estava l com a filha adolescente. Contudo no cheguei a conhec-la bem.
       Ela e Bob Rawlinson eram muito chegados? 
      Edmundson refletiu.
 No, eu no diria isto. Ela era bem mais velha do que ele e agia como tal. E Bob no gostava muito do cunhado... sempre se referia a ele como sendo um imbecil 
pretensioso.
 E  mesmo. Um destes industriais preeminentes... e como sabem ser pretensiosos! Ento o senhor acha improvvel que Bob Rawlinson tenha confiado  irm um 
segredo importante?
        difcil dizer... mas no, no creio.
 Eu tambm no  disse o coronel. Suspirou.  Bem,  isto a. A Sra. Sutcliffe e sua filha esto a caminho de volta numa longa viagem martima. Chegam amanh 
em Tilbury no Eastern Queen.
      Ficou calado por alguns instantes, enquanto seus olhos faziam um cuidadoso estudo do jovem  sua frente. Ento, como se tivesse chegado a uma concluso, estendeu 
a mo e falou vivamente:  Obrigado por ter vindo.
 Lamento no ter sido de grande ajuda. O senhor est certo de que no h nada que eu possa fazer?
       No, receio que no.
      John Edmundson retirou-se. O jovem discreto voltou.
 Pensei que pudesse mand-lo a Tilbury para transmitir a notcia  irm de Bob Rawlinson  disse Pikeaway.  Sendo amigo do irmo e tudo o mais, mas decidi 
que no.  um tipo duro.  o treinamento do Ministrio do Exterior. Mandarei o... qual  mesmo o seu nome?
       Derek?
 Isto mesmo.  O Coronel Pikeaway balanou a cabea em sinal de aprovao.  Est comeando a me entender bastante bem, no est?
       Tento o melhor que posso, senhor.
 Tentar no  o bastante.  preciso conseguir. Chame Ronnie primeiro. Tenho uma tarefa para ele.
      
II
      
      O Coronel Pikeaway estava quase pegando no sono de novo quando um jovem chamado Ronnie entrou na sala. Era moreno, musculoso, com jeito alegre e um tanto impertinente.
      O coronel olhou-o por uns momentos e depois sorriu.
 Que tal voc acharia penetrar num colgio de moas?  indagou ele.
 Um colgio de moas?  O jovem levantou as sobrancelhas.  Isto  algo novo. O que elas andaram fazendo? Bombas na aula de qumica?
       Nada disso.  um colgio de alto nvel. Meadowbank.
       Meadowbank!  o jovem assobiou.  No posso acreditar!
       Segure sua lngua impertinente e preste ateno.  A
      Princesa Shaista, prima e nica parenta prxima do falecido Prncipe Ali Yusuf de Ramat, vai para l este semestre. At agora ela esteve num colgio na Sua.
       O que devo fazer? Rapt-la?
 Claro que no. Acredito que, em futuro prximo, ela venha a se tornar foco de interesse. Quero que fique de olho nos acontecimentos.  s o que tenho a dizer. 
No sei o que, ou quem, poder surgir, mas se algum dos nossos amigos indesejveis mostrarem interesse, notifique-me... um trabalho de vigilncia,  o que voc ter 
que desempenhar.
      O jovem balanou a cabea.
       E de que modo vou entrar l? Serei o professor de desenho?
 O corpo docente  todo feminino.  O Coronel Pikeaway avaliou-o com o olhar.  Acho que terei de transform-lo em jardineiro.
       Jardineiro?
 Sim. Estou certo ao pensar que voc entende alguma coisa de jardinagem?
 Sim, est. Quando mais jovem, durante um ano, escrevi uma coluna chamada Your Garden para o Sunday Mail.
 Ora!  disse o coronel.  Isto no  nada. Eu mesmo poderia escrever um artigo sobre jardinagem sem entender nada do assunto... bastaria copiar alguns catlogos 
de sementes e uma enciclopdia de jardinagem. Conheo todo o esquema. Por que no fugir  tradio e dar um toque tropical ao seu jardim? Lindas Amabellis Gossiporia 
e algumas das maravilhosas plantas hbridas chinesas, como a Sinenis Maka. Experimente a rsea beleza de um grupo de Sinistra Hopaless, que no so muito resistentes, 
mas se do muito bem junto a um muro voltado para o oeste.  Calou-se e sorriu.  Muito simples! Os tolos compram as plantas, a neve surge e acaba com elas e ento 
eles desejariam ter permanecido fiis s margaridas e aos miostis. No, meu rapaz, refiro-me ao trabalho pesado. Cuspir nas mos, usar a p, entender bem da qualidade 
do solo, de todos os tipos de ancinho, saber escavar a terra, preparar uma cova bem funda para as ervilhas-de-cheiro... e todo o resto deste servio cansativo. Sabe 
faz-lo?
       Fao isto desde garoto.
  lgico que faz. Conheo sua me. Bem, esta parte est resolvida.
       Esto precisando de jardineiros em Meadowbank?
 Com toda certeza  respondeu o Coronel Pikeaway.  Todos os jardins da Inglaterra esto com problema de mo-de-obra. Escreverei uma carta de recomendao. 
Voc ver, ser contratado na mesma hora. No h tempo a perder, o perodo de vero comea dia 29.
       Trabalho no jardim e mantenho os olhos abertos,  isto?
  isto mesmo. E se alguma garota mais atirada tentar namor-lo, Deus o ajude se voc der confiana. No quero que seja expulso cedo demais.
      Apanhou uma folha de papel.  Tem alguma idia para um nome?
       Adam seria apropriado.
       E como sobrenome?
       Que tal Eden?
 No estou seguro se gosto da maneira como seu crebro est funcionando. Adam Goodman ficar bem. Procure Jensen e invente uma histria para o seu passado 
e depois comece a se mexer. Olhou o relgio.  No tenho mais tempo para voc. No quero deixar o Sr. Robinson esperando. J deve ter chegado.
      Adam (para dar-lhe o seu novo nome) parou a caminho da porta.
       O Sr. Robinson? Ele vem?  perguntou ansioso.
 J disse que sim.  Uma campainha soou na mesa.  A est ele. Sempre pontual.
 Diga-me, quem  ele realmente? Qual o seu verdadeiro nome?  indagou Adam.
 O seu nome  respondeu Pikeaway   Sr. Robinson. Isto  tudo que eu sei, e  o que todo mundo sabe.
      
III
      
      O homem que entrou na sala no dava impresso de que seu nome fosse, ou que jamais pudesse ter sido, Robinson. Poderia ser Demetrius, Isaacstein, ou Perenna... 
embora nenhum deles em especial. No poderia ser definido como judeu, grego, portugus, espanhol, ou sul-americano. O que parecia altamente improvvel era que fosse 
um ingls chamado Robinson. Era gordo, estava bem vestido, possua um rosto amarelado, olhos escuros e melanclicos, testa larga, boca generosa mostrando dentes 
brancos e um tanto grande demais. Suas mos eram bem feitas e cuidadosamente tratadas. No seu ingls no havia nenhum trao de sotaque.
      Ele e o Coronel Pikeaway cumprimentaram-se como dois monarcas em exerccio. Foram trocadas cortesias.
      Ento, enquanto o Sr. Robinson aceitava um charuto, o Coronel Pikeaway disse:  Foi muita gentileza sua oferecer-se para nos ajudar.
      O Sr. Robinson acendeu o charuto, saboreou-o com satisfao e finalmente falou:  Meu caro, apenas pensei... eu ouo coisas, o senhor sabe. Conheo pessoas 
e elas me contam histrias. No sei porque.
      O Coronel Pikeaway no comentou sobre o porqu. Acrescentou:  Suponho que o senhor sabe que o avio do Prncipe Ali Yusuf foi encontrado?
 Na quarta-feira da semana passada  disse o Sr. Robinson.  O jovem Rawlinson pilotava-o. Um vo perigoso. Mas o desastre no foi devido a nenhum erro de 
Rawlinson. O aparelho havia sido sabotado por um certo mecnico chamado Achmed. Inteiramente digno de confiana... ou assim pensava Rawlinson. Entretanto no o era. 
Tem agora um trabalho muito bem remunerado no novo regime.
 Ento foi mesmo sabotagem! No tnhamos certeza.  uma histria triste.
 Sim. Aquele pobre jovem... refiro-me a Ali Yusuf... estava mal preparado para lidar com corrupo e traio. Sua educao escolar foi inadequada... ou pelo 
menos este  o meu ponto de vista. Mas ele  notcia de ontem. Nada  to morto como um rei morto. Estamos preocupados, o senhor a seu modo, e eu ao meu, com o que 
um rei morto deixa atrs de si.
       O qu?
      O Sr. Robinson encolheu os ombros.
 Uma substancial conta bancria em Genebra, outra mais modesta em Londres, considerveis propriedades em seu pas, agora confiscadas pelo glorioso novo regime 
(pelo que soube, existe uma sensao de mal-estar pelo modo como foram distribudas) e finalmente um pequeno item pessoal.
       Pequeno?
 Isto  relativo. De qualquer maneira, pequeno em volume. Fcil de se levar no bolso.
       Pelo que sabemos, nada foi encontrado no corpo de Ali Yusuf.
       No, porque ele havia entregue ao jovem Rawlinson.
       Est seguro disto?  perguntou Pikeaway vivamente.
 Bem, nunca se pode ter certeza  desculpou-se o Sr. Robinson.  Num Palcio correm muitos boatos. Nem tudo pode ser verdade. H, porm, um rumor muito forte 
a este respeito.
       Tambm nada foi encontrado no corpo do jovem Rawlinson.
 Neste caso ento  disse o Sr. Robinson  parece que foram levadas para fora do pas de uma outra maneira.
       De que maneira? O senhor tem alguma idia?
 Rawlinson foi a um caf depois de ter recebido as pedras preciosas. No foi visto falando ou se aproximando de ningum enquanto l permaneceu. Em seguida, 
foi ao Hotel Ritz Savoy onde sua irm estava hospedada. Subiu at o seu quarto, onde se demorou uns vinte minutos. Ela havia sado. Depois deixou o hotel indo at 
o Banco do Comrcio onde descontou um cheque. Quando saiu do banco a confuso estava comeando. Levou algum tempo at a rua ficar desimpedida. Rawlinson ento foi 
direto ao aeroporto onde, em companhia do Sargento Achmed, examinou o avio. Ali Yusuf saiu para ver a construo da nova estrada, parou o carro na pista do aeroporto 
e, indo ao encontro de Rawlinson, expressou o desejo de dar um pequeno vo para ver do ar a represa e a construo da nova estrada. Levantaram vo e no voltaram 
mais.
       Quais suas dedues a este respeito?
 Meu caro, as mesmas que as suas. Por que Bob Rawlinson permaneceu vinte minutos no quarto da irm quando ela no estava e lhe haviam dito que s deveria 
voltar  noitinha? Deixou-lhe um bilhete que levaria no mximo trs minutos para ser escrito. O que fez ele durante o resto do tempo?
 Est sugerindo que escondeu as pedras preciosas em algum lugar entre os pertences de sua irm?
  o que parece, no ? Naquele mesmo dia a Sra. Sutcliffe, juntamente com outros sditos ingleses, foi retirada do pas, sendo levada de avio at Eden com 
a filha. Creio que chega a Tilbury amanh.
      Pikeaway concordou com a cabea.
       Tome conta dela  recomeou o Sr. Robinson.
 Vamos tomar  disse Pikeaway.  Isto j est providenciado.
 Se as pedras esto com ela, est correndo perigo.  Fechou os olhos.  Detesto violncia.
       O senhor acha que  capaz de haver violncia?
 H pessoas interessadas. Vrias pessoas indesejveis... se o senhor entende.
 Entendo  respondeu Pikeaway srio.  E eles,  claro, trairo uns aos outros.
      O Sr. Robinson balanou a cabea.   tudo to confuso. 
      O Coronel Pikeaway perguntou cortesmente:  O senhor tem... er... algum interesse especial no caso?
 Represento um grupo interessado  disse o Sr. Robinson. Sua voz continha um leve toque de reprovao.  Algumas das pedras em questo foram fornecidas ao 
Prncipe pela minha corporao... por um preo razovel. O grupo de pessoas que represento, que esto interessadas na recuperao das pedras, teria, atrevo-me a 
dizer, a aprovao do falecido dono. No gostaria de dizer mais nada. Estes assuntos so muito delicados.
 Mas o senhor definitivamente est do lado dos anjos. O Coronel Pikeaway sorriu.
 Ah, anjos! Anjos... sim  fez uma pausa.  O senhor por acaso sabe quem ocupava os quartos que ladeavam o quarto da Sra. Sutcliffe e filha?
      O Coronel Pikeaway estava com um ar vago.
 Deixe-me ver... acho que sei. Do lado esquerdo estava a Senhora Anglica de Toledo... uma espanhola... er... uma danarina que se apresentava num cabar 
local. Talvez no seja estritamente espanhola e nem tampouco boa danarina, todavia muito popular entre a clientela. Do outro lado havia uma moa pertencente a um 
grupo de professoras, acho que...
      O Sr. Robinson fez um gesto de aprovao.
 O senhor continua o mesmo. Venho-lhe prestar informaes, mas quase sempre o senhor j sabe de tudo.
       No, no  retratou-se o Coronel Pikeaway polidamente.
       Ns dois sabemos de muita coisa  afirmou o Sr. Robinson.
      Seus olhos se encontraram.
 Espero que saibamos o bastante  disse o Sr. Robinson levantando-se.

CAPTULO 4
A VOLTA DE UMA VIAJANTE
 REALMENTE!  exclamou a Sra. Sutcliffe, com a voz aborrecida, ao olhar pela janela do hotel.  No entendo por que sempre tem que chover quando se chega  Inglaterra. 
Faz com que tudo parea to deprimente!
 Acho timo estar de volta  observou Jennifer.  Poder ouvir todo mundo falando ingls nas ruas! E agora poderemos tomar ch de verdade, po, manteiga, gelia 
e bolinhos.
 Gostaria que voc no fosse to limitada, querida!  lamentou a Sra. Sutcliffe. O que adianta lev-la at o golfo da Prsia, se voc depois diz que preferiria 
ter ficado em casa?
 No me incomodo de ir para o estrangeiro por um ms ou dois  explicou Jennifer.  Tudo que eu disse  que estava contente de estar de volta.
 Agora saia do caminho, querida; preciso certificar-me de que trouxe toda a bagagem. Realmente, sinto... senti que desde que a guerra terminou as pessoas 
se tornaram desonestas. Tenho certeza de que se eu no tivesse ficado de olho, aquele homem em Tilbury teria carregado a minha sacola verde. E havia um outro rondando 
perto das malas. Tornei a v-lo no trem. Sabe, acho que estes ladres mesquinhos esperam a chegada dos navios e, se as pessoas estiverem agitadas ou enjoadas por 
causa da viagem, eles aproveitam para roubar alguma mala.
 Oh, voc sempre est imaginando coisas deste tipo, mame!  reclamou Jennifer.  Acha que todo mundo que encontra  desonesto.
       A maioria   disse a Sra. Sutcliffe sria.
       No os ingleses!  defendeu a leal Jennifer.
 O pior  isto  disse a me.  Ningum espera nada diferente dos rabes e estrangeiros, porm, na Inglaterra, as pessoas no ficam na defensiva e isto torna 
tudo mais fcil para os desonestos. Agora deixe-me contar. Ali est a mala verde e a preta, duas pequenas malas marrons, a sacola, os tacos de golfe, as raquetas, 
a maleta, a mala de lona... e onde est a sacola verde? Oh, ali est. E o cofre de lato que compramos para colocar coisas extras... sim, uma, duas, trs, quatro, 
cinco, seis... sim, tudo certo. Quatorze ao todo.
       Podemos tomar ch agora?  perguntou Jennifer.
       Ch?! So apenas trs horas!
       Estou morrendo de fome.
 Est bem, est bem. Voc pode descer sozinha e fazer o pedido? Preciso descansar um pouco e, em seguida, tirar das malas apenas as coisas que vamos precisar 
para hoje  noite.  uma lstima que seu pai no tenha podido vir nos encontrar. No consigo entender por que tinha que ter uma importante reunio de diretoria em 
Newcastle-on-Tyne justamente hoje. Seria de se esperar que a mulher e a filha viessem em primeiro lugar. Principalmente porque no as v h trs meses. Tem certeza 
de que pode se arranjar sozinha?
 Pelo amor de Deus, mame! Que idade pensa que tenho? Quer me dar algum dinheiro, por favor? No tenho nenhum dinheiro ingls.
      Aceitou os dez xelins que sua me lhe entregou e saiu com ar de desdm.
      O telefone tocou ao lado da cama. A Sra. Sutcliffe foi atender.
       Al... sim... sim,  a Sra. Sutcliffe...
      Bateram na porta. A Sra. Sutcliffe desculpou-se ao telefone, pousou-o e foi atender a porta. L havia um jovem de macaco azul-marinho com um pequeno estojo 
de ferramentas.
 Eletricista  disse vivamente.  As luzes desta sute esto com defeito. Mandaram-me v-las.
       Oh... est bem.
      Recuou para dar passagem ao eletricista. 
       Onde fica o banheiro?
       Por ali... atravessando o outro quarto.
      Ela voltou ao telefone. 
       Desculpe-me... o que o senhor estava dizendo?
 Meu nome  Derek OConnor. Talvez eu pudesse subir at a sua sute. Trata-se do seu irmo.
       Bob? Tem... notcias dele? 
       Receio que sim.
       Oh... oh, entendo. Sim, suba.  no 3 andar, 310. 
      Sentou-se na cama. J sabia qual deveria ser a notcia. 
      Logo ouviu uma batida na porta e abriu-a para deixar entrar um jovem que a cumprimentou de maneira corts.
       O senhor  do Ministrio do Exterior?
 Meu nome  Derek OConnor. Meu superior mandou-me aqui, j que parecia no haver mais ningum para transmitir-lhe a notcia.
       Por favor, diga-me. Ele est morto, no  isto?
 Sim, Sra. Sutcliffe. Ele estava levando o Prncipe Ali Yusuf de avio para fora de Ramat e caram nas montanhas.
 Por que eu no soube de nada... por que ningum telegrafou para o navio?
 At poucos dias atrs no havia notcias concretas. Sabia-se que o aparelho estava desaparecido, isto era tudo. Mas em tais circunstncias ainda poderia 
haver alguma esperana. Agora, entretanto, os restos do avio foram encontrados. Estou certo de que a senhora gostar de saber que a morte foi instantnea.
       O Prncipe tambm morreu?
       Sim...
 No estou nem um pouco surpresa  disse a Sra. Sutcliffe. Sua voz tremeu um pouco mas estava em completo domnio de si mesma.  Sabia que Bob morreria jovem. 
Sempre foi temerrio, o senhor sabe... sempre experimentando novos modelos de avio, procurando sensaes novas. Mal o vi nestes ltimos quatro anos. Oh, bem, ningum 
consegue mudar uma pessoa, consegue?
       No  respondeu o visitante.  Receio que no.
 Henry sempre disse que, mais cedo ou mais tarde, Bob se iria arrebentar. A Sra. Sutcliffe parecia obter uma espcie de melanclica satisfao na preciso 
da profecia do marido.  Uma lgrima rolou em seu rosto e ela procurou o leno.  Foi um choque para mim.
       Eu sei. Sinto imensamente.
 Bob no poderia fugir ao compromisso,  lgico  comentou a Sra. Sutcliffe.  Quero dizer, ele havia sido contratado como piloto do Prncipe. Eu no gostaria 
que tivesse desistido do trabalho. E era tambm um bom piloto. Estou certa de que se o avio caiu nas montanhas a culpa no foi dele.
 No  disse OConnor.  Certamente no foi o culpado. Anica esperana de salvar o Prncipe era tir-lo de l de avio, no importando em que condies. 
Era um vo difcil de ser tentado e no deu certo.
      A Sra. Sutcliffe balanou a cabea.
       Compreendo. Agradeo-lhe por ter vindo me contar.
 H mais um detalhe  prosseguiu OConnor  algo que preciso lhe perguntar. Seu irmo confiou-lhe alguma coisa para trazer para a Inglaterra?
 Confiar-me alguma coisa?  estranhou a Sra. Sutcliffe.  O que quer dizer?
 Ele lhe deu algum embrulho... pequeno para ser entregue a algum aqui?
      Ela balanou a cabea pensativa.  No. Que motivo o faz pensar assim?
 Havia um pacote bastante importante que achamos que o seu irmo poderia ter confiado a algum para trazer para c. Ele procurou a senhora no hotel naquele 
dia... quero dizer, no dia da revoluo.
 Eu sei. Ele me deixou um bilhete. No entanto, no era nada de especial, apenas algo sobre jogar tnis ou golfe no dia seguinte. Creio que ao escrever aquela 
nota, no sabia que teria que viajar com o Prncipe naquela mesma tarde.
       Era s isto que dizia?
       O bilhete? Sim.
       A senhora o guardou?
 Se eu guardei o bilhete? No,  bvio que no. Era bastante trivial. Rasguei e joguei fora. Por que deveria guard-lo?
       Por nada  respondeu OConnor.  Estava s imaginando.
       Imaginando o qu?  indagou ela de mau humor.
 Se por acaso no continha... uma outra mensagem. Afinal de contas  ele sorriu  existe uma coisa chamada tinta invisvel, a senhora sabe.
 Tinta invisvel!  repetiu a Sra. Sutcliffe com bastante desagrado.  O senhor se refere ao tipo de coisa que usam em histrias de espionagem?
 Bem, receio que me refiro exatamente a isto  desculpou-se OConnor.
 Que bobagem!  disse a Sra. Sutcliffe.  Estou certa de que Bob jamais usaria algo como tinta invisvel. Por que ele faria isto? Era uma pessoa objetiva 
e sensata.  Uma lgrima tornou a rolar em sua face.  Oh, Deus, onde est minha bolsa. Preciso de um leno. Talvez a tenha deixado no outro quarto.
       Vou apanh-la para a senhora  disse OConnor.
      Passou pela porta de comunicao, parando quando o jovem de macaco que estava abaixado sobre uma mala ergueu-se para olh-lo, parecendo um tanto assustado.
 Sou o eletricista  o jovem apressou-se em explicar.  H alguma coisa errada com as luzes aqui.
      OConnor acendeu um interruptor.
       Parece que est tudo bem  disse ele de maneira amvel.
 Devem ter-me dado o nmero do quarto errado  explicou o eletricista.
      Apanhou seu estojo de ferramentas e saiu apressado para o corredor.
      OConnor franziu a testa, apanhou a bolsa da Sra. Sutcliffe em cima da cmoda e levou-a at ela.
       Com licena  disse ele, tirando o fone do gancho.
 Aqui  do quarto 310. Por acaso os senhores mandaram um eletricista examinar as luzes deste quarto? Sim... sim, eu aguardo. 
      Ele esperou.
       No? Foi o que pensei. No, no h nada errado. 
      Recolocou o fone no gancho e dirigiu-se  Sra. Sutcliffe.
 No h nada errado com as luzes aqui  comentou ele.  E no mandaram nenhum eletricista.
       Ento o que aquele homem estava fazendo aqui? Era um ladro?
       Pode ser.
      A Sra. Sutcliffe olhou apressada a bolsa.  Ele no tirou nada. O dinheiro est todo aqui.
 A senhora tm certeza, certeza absoluta, de que seu irmo no lhe entregou nada para trazer para casa junto com a sua bagagem?
       Tenho certeza absoluta  garantiu a Sra. Sutcliffe.
       Ou sua filha... a senhora tem uma filha, no tem?
       Sim. Est l embaixo tomando ch.
       O seu irmo poderia ter entregue alguma coisa a ela?
       No, estou certa que no.
 H uma outra possibilidade  disse OConnor  aquele dia em que ficou lhe aguardando em seu quarto, ele poderia ter escondido algo entre suas coisas.
       Mas por que motivo Bob faria isto? Parece-me absurdo.
 No  to absurdo quanto parece.  possvel que o Prncipe Ali Yusuf tenha dado alguma coisa para o seu irmo guardar e que ele achou que estaria mais seguro 
escondido na sua bagagem do que se levasse consigo mesmo.
       Acho muito pouco provvel.
       Ser que se incomodaria se dssemos uma busca?
 Quer dizer, procurar na minha bagagem? Desfazer as malas?  A voz da Sra. Sutcliffe levantou-se num gemido ao pronunciar a ltima palavra.
 Sei que  uma coisa terrvel para lhe pedir  disse OConnor.  Todavia pode ser muito importante. Eu poderia ajud-la  falou persuasivo.  Muitas vezes 
ajudei minha me a fazer as malas. Ela dizia que eu era bastante bom neste servio.
      Empregou todo o seu charme que era um de seus pontos fortes junto ao Coronel Pikeaway.
 Oh bem  falou a Sra. Sutcliffe rendendo-se.  Creio que... se o senhor assim diz... se, quero dizer,  realmente muito importante...
 Pode ser muito importante  firmou Derek OConnor.  Muito bem  sorriu para ela  que tal comearmos agora?
      
II
      
      Quarenta e cinco minutos depois, Jennifer voltou do ch. Olhou em torno do quarto e perdeu o flego, surpresa.
       Mame, o que voc andou fazendo?
 Desfizemos as malas  respondeu a Sra. Sutcliffe de mau humor.  Agora estamos guardando tudo de novo. Este  o Sr. OConnor. Minha filha, Jennifer.
       Mas por que voc est fazendo isto?
 No me pergunte o porqu  irritou-se a me.  Parece que existe a idia de que seu tio Bob colocou alguma coisa na minha bagagem. Suponho que no lhe entregou 
nada, no  Jennifer?
 Voc quer saber se tio Bob me deu algo para trazer? No. Vocs tambm mexeram nas minhas coisas?
 Mexemos em tudo  explicou Derek OConnor alegremente  e no encontramos nada. Agora estamos arrumando as malas novamente. Acho que a senhora deveria tomar 
um ch, ou alguma outra coisa, Sra. Sutcliffe. Posso fazer o pedido? Talvez um brandy com soda?  Ele foi at o telefone.
       Aceitaria uma boa xcara de ch  disse a Sra. Sutcliffe.
 Tomei um ch delicioso  comentou Jannifer.  Po, manteiga, sanduches, bolo. Depois o garom me trouxe mais sanduches, porque eu perguntei se se encomodaria 
e ele disse que no. Foi maravilhoso.
      OConnor pediu o ch e, em seguida, acabou de guardar tudo com tal esmero e rapidez que a Sra. Sutcliffe, contra sua vontade, foi forada a sentir admirao.
 Parece que sua me lhe ensinou a arrumar malas muito bem  disse.
       Oh, possuo bastante destreza para este tipo de trabalho.
      Sua me estava morta h muito tempo, e a sua habilidade em fazer e desfazer malas havia sido adquirida unicamente trabalhando para o Coronel Pikeaway.
 H mais uma coisa, Sra. Sutcliffe. Gostaria que tomasse cuidado consigo mesma.
       Cuidado comigo mesma? Como assim?
 Bem  OConnor foi um tanto vago,  Revoluo  uma coisa traioeira. H muitas ramificaes. A senhora vai ficar muito tempo em Londres?
       Vamos para o campo amanh. Meu marido vai nos levar at l.
 Est timo, ento. Mas no se arrisque. Se alguma coisa de anormal acontecer, por mais insignificante que seja, ligue imediatamente para 999.
 Oh!  exclamou Jennifer, em extrema satisfao.  Ligue para 999 Sempre desejei isto.
       No seja tola, Jennifer  censurou sua me.
      
III
      
      Extrato de uma nota de um jornal local:
      Ontem, um homem se apresentou diante do tribunal acusado de invadir a residncia do Sr. Henry Sutcliffe com a inteno de roubar. Enquanto os membros da famlia 
estavam na igreja, o quarto da Sra. Sutcliffe foi todo vasculhado e deixado em total confuso. Os serviais que preparavam o almoo nada ouviram. A polcia prendeu 
o assaltante quando este tentava escapar. Evidentemente alguma coisa o alarmou e ele fugiu sem nada levar. Dando o nome de Andrew Ball, sem residncia fixa, se confessou 
culpado. Disse que estava desempregado e que andava atrs de dinheiro, As jias da Sra. Sutcliffe, com exceo das que estava usando, so guardadas no banco.
 Eu lhe disse para mandar consertar a tranca da janela da sala de visitas  havia sido o comentrio do Sr. Sutcliffe no crculo familiar.
 Meu querido Henry  falou a Sra. Sutcliffe  voc parece no se lembrar de que eu estive fora nos ltimos trs meses. E, de qualquer maneira, recordo-me 
de ter lido algo dizendo que se um ladro quer entrar num lugar, sempre encontra um jeito.
      Acrescentou tristonha, ao tornar a olhar o jornal:  Como soa importante a palavra serviais. To diferente do que  na realidade! Ellis, que est bastante 
surda e mal se agenta em p, e aquela garota meio retardada filha dos Bardwells, que vem aqui nas manhs de domingo para ajudar.
 O que no consigo entender  disse Jennifer   como a polcia descobriu que a casa estava sendo assaltada e chegou a tempo de apanhar o ladro?
       Acho incrvel que no tenha levado nada  comentou a me.
 Est bem certa a este respeito, Joan?  perguntou o marido.  A princpio voc estava um pouco na dvida.
      A Sra. Sutcliffe soltou um suspiro exasperado.
  simplesmente impossvel afirmar-se sobre uma coisa como esta de imediato. A desordem em que estava o meu quarto... coisas espalhadas por todos os lugares, 
gavetas abertas e viradas. Tive que olhar bem antes de ter certeza... embora, agora que estou pensando nisto, no me lembro de ter visto o meu melhor leno de Jacqmar.
 Desculpe-me, mame. Fui eu. Caiu no mar por causa do vento. Pretendia lhe contar, mas esqueci.
 Realmente, Jennifer, quantas vezes tenho que lhe pedir para no pegar nada emprestado sem antes me falar?
 Posso comer mais pudim?  perguntou Jennifer mudando de assunto.
 Suponho que sim. A Sra. Ellis tem mesmo a mo maravilhosa para doces. Faz com que valha a pena ter que se falar aos gritos com ela. Contudo espero que no 
colgio no achem voc gulosa demais. Lembre-se que Meadowbank no  um colgio comum.
 No tenho muita certeza se quero mesmo ir para Meadowbank  disse Jennifer.  Conheo uma garota cuja prima esteve l e disse que  horrvel. Passam o tempo 
todo ensinando como entrar e sair de um Rolls-Royce e como se comportar caso voc almoce com a Rainha.
 J chega, Jennifer!  reclamou a Sra. Sutcliffe.  Voc no calcula a sorte extraordinria que tem em ser admitida em Meadowbank. Posso-lhe garantir que 
a Srta. Bulstrode no aceita qualquer uma.  inteiramente devido  importante posio de seu pai e  influncia de sua tia Rosamund. Voc tem uma sorte imensa! E, 
se  acrescentou a Sra. Sutcliffe  alguma vez for convidada para almoar com a Rainha, ser bom saber como se comportar.
 Oh, bem  retrucou Jennifer  imagino que a Rainha muitas vezes receba pessoas que no sabem como se comportar... chefes africanos, jqueis, xeques...
 Chefes africanos possuem maneiras muito educadas  disse seu pai que recentemente voltara de uma pequena viagem de negcios a Ghana.
 Os xeques rabes tambm  disse a Sra. Sutcliffe.  So verdadeiros lordes.
 Lembra-se daquela festa do xeque a que fomos?  perguntou Jennifer.  E de como ele apanhou o olho do carneiro e lhe entregou e tio Bob cutucou-lhe para 
no fazer nenhum estardalhao e com-lo? Quero dizer, se um xeque fizesse isto no Palcio de Buckingham com um assado de carneiro, certamente faria a Rainha tremer, 
no faria?
 J chega, Jennifer!  repreendeu sua me encerrando o assunto.
      
IV
      
      Quando Andrew Ball, sem residncia fixa, foi condenado a trs meses por invaso de domiclio, Derek OConnor, que estava ocupando uma modesta posio ao fundo 
do Tribunal, fez uma ligao telefnica.
 No havia nada com o sujeito quando o agarramos  disse. E demos a ele tempo suficiente.
       Quem era ele? Algum que conhecemos?
 Acho que pertence ao grupo de Gecko. Est nisto h pouco tempo. Costumam contrat-lo para este tipo de servio. No  muito inteligente, porm  tido como 
eficiente.
 E aceitou a sentena como um carneirinho?  Do outro lado da linha o Coronel Pikeaway sorria ao falar.
 Sim. Era o retrato perfeito de um sujeito imbecil e decado. Ningum jamais o ligaria a nenhum caso importante. A est o seu valor,  claro.
 E no encontrou nada  comentou o Coronel Pikeaway.  Voc tambm no. Tenho a impresso de que no h nada para ser encontrado. Aquela nossa idia de que 
Rawlinson colocou aquelas coisas entre os objetos de sua irm parece falha.
       Outras pessoas parecem que tiveram a mesma idia.
  um tanto bvio, realmente... Talvez queiram que mordamos a isca.
       Pode ser. Alguma outra possibilidade?
 Muitas. O negcio ainda pode estar em algum lugar no Hotel Ritz Savoy. Ou ento Bob Rawlinson passou para algum a caminho do aeroporto. Ou pode haver algo 
naquele palpite do Sr. Robinson. Uma mulher pode ter posto as mos nelas. Ou pode ser que estivessem com a Sra. Sutcliffe o tempo todo e ela ter jogado ao mar junto 
com alguma coisa que no tivesse mais utilidade para ela. E isto  acrescentou ele pensativo  pode ter acontecido para o bem.
       Ora, vamos, vale muito dinheiro.
       A vida humana tambm  finalizou o Coronel Pikeaway.

CAPTULO 5
CARTAS DO COLGIO MEADOWBANK
      Carta de Jlia Upjohn para a sua me.
      QUERIDA MAME:
      J estou instalada e gostando muito daqui. H uma garota chamada Jennifer que tambm  novata e ns preferimos fazer as coisas juntas. Ambas somos muito boas 
no tnis. Ela ento  tima. Tem um saque excepcional, quando consegue execut-lo, o que normalmente no ocorre. Diz que sua raqueta ficou empenada durante o tempo 
que passou no Golfo da Prsia. L faz muito calor. Ela esteve l na poca da revoluo. Perguntei se no havia sido emocionante, mas ela me respondeu que no, que 
no viram nada. A embaixada, ou sei l o que, fez com que se retirassem e perdessem todo o espetculo.
      A Srta. Bulstrode  muito calma, mas tambm bastante autoritria... ou pode ser. Usa de pacincia com as alunas novas. Pelas costas, ns a chamamos de Bull, 
ou Bully. Aprendemos Literatura Inglesa com a Srta. Rich, que  fantstica. Quando fica agitada seu cabelo se solta. Tem um rosto estranho, mas interessante. Quando 
l trechos de Shakespeare tudo parece diferente e real. Outro dia, falou-nos sobre Iago e do que ele sentira... e a respeito do cime e de como este toma conta da 
pessoa fazendo-a sofrer, levando-a quase  loucura, querendo ferir o ser amado. Todas ns ficamos arrepiadas, com exceo de Jennifer, porque nada a perturba. A 
Srta. Rich tambm nos , ensina Geografia. Sempre achei a matria cansativa, porm dada pela Srta. Rich muda de figura. Esta manh falou-nos a respeito do comrcio 
de especiarias e porque era to necessrio.
      Estou me iniciando em Artes com a Srta. Laurie. Temos duas aulas semanais e ela tambm nos leva a Londres para percorrermos Galerias de Arte. Estudamos Francs 
com Mademoiselle Blanche. Ela no consegue manter a ordem na classe. Jennifer diz que isto  prprio do povo francs. Mademoiselle, entretanto, no fica zangada, 
apenas aborrecida. Ela diz  Enfin, vous mennuiez, mes enfants. A Srta. Springer  horrvel.  a professora de Ginstica. Tem cabelo vermelho e cheira mal. H tambm 
a Srta. Chadwick (Chaddy) que est aqui desde que o colgio comeou. Ensina Matemtica,  um tanto minuciosa, todavia bastante simptica. A Srta. Vansittart ensina 
Histria e Alemo.  uma espcie de Srta. Bulstrode sem o mesmo vigor.
      H tambm muitas garotas estrangeiras, duas italianas, algumas alems e uma sueca divertida (ela  uma Princesa ou algo assim) e uma garota metade turca metade 
persa, que afirma que estava destinada a se casar com o Prncipe Ali Yusuf que morreu naquele desastre de avio, mas Jennifer diz que no  verdade, que Shaista 
s diz isto porque era prima dele e naquele pas  costume casar-se com primas. Entretanto Jennifer garante que ele no ia casar com ela, que ele gostava de outra 
pessoa. Jennifer sabe de um bocado de coisas mas geralmente no conta nada.
      Suponho que esteja chegando a hora de sua viagem. No esquea o seu passaporte como o fez da ltima vez!!! E leve o seu estojo de primeiros socorros em caso 
de acidente.
                                                         Com carinho,
      JLIA
      Carta de Jennifer Sutcliffe para a sua me.
      QUERIDA MAME:
      Na verdade isto aqui no  mau. Estou gostando mais do que esperava. O tempo tem estado timo. Ontem tivemos que escrever uma composio sobre Pode uma virtude 
ser levada ao exagero? Na prxima semana ser Comparar as personalidades de Julieta e Desdmona. Isto tambm me parece tolo. Voc acha que eu poderia ter uma raqueta 
de tnis nova? Sei que, no ltimo outono, voc mandou trocar as cordas da minha raqueta, mas mesmo assim no est boa. Talvez tenha empenado. Gostaria de aprender 
Grego. Posso? Adoro lnguas. Na semana que vem, algumas de ns vamos a Londres assistir ao bal. O espetculo  o Lago dos Cisnes. A comida aqui  muito boa. Ontem 
tivemos galinha no almoo e gostosos bolinhos caseiros para o ch. No consigo me lembrar de nenhuma outra novidade... houve algum outro assalto?
                                               Com amor, sua filha,
      JENNIFER
      Carta de Margaret Gore-West para sua me.
      QUERIDA MAME:
      H poucas novidades. Este semestre estou estudando Alemo com a Srta. Vansittart. H um boato de que a Srta. Bulstrode vai se aposentar e de que a Srta. Vansittart 
ser sua substituta. Entretanto j ouo este comentrio h mais de um ano e estou certa de que no  verdade. Perguntei  Srta. Chadwick ( lgico que no me atreveria 
a perguntar  Srta. Bulstrode) e ela foi bastante rspida. Disse que certamente que no, e para eu no dar ouvidos a fofocas. Fomos ao bal na tera-feira. O Lago 
dos Cisnes. Lindo demais para exprimir-se em palavras!
      A Princesa Ingrid  bastante engraada. Tem olhos muito azuis, mas usa aparelho nos dentes. H duas meninas alems novas. Falam ingls bastante bem...
      A Srta. Rich est de volta e com tima aparncia. Sentimos sua falta no ltimo semestre. A nova professora de Ginstica se chama Srta. Springer.  muito mandona 
e ningum gosta dela. Todavia  boa treinadora de tnis. Uma das alunas novas, Jennifer Sutcliffe, promete muito. Seu golpe de esquerda  um pouco fraco. Sua grande 
amiga  uma garota chamada Jlia. Chamamo-nas de os Jotas.
      No vai se esquecer de vir me buscar no dia 20, vai? O Dia dos Esportes ser 19 de junho.
                                                    Com carinho,
      MARGARET
      Carta de Ann Shapland para Dennis Rathbone.
      QUERIDO DENNIS:
      At a terceira semana deste semestre, no vou ter nenhum dia de folga. Gostaria muito de, nesta ocasio, ir jantar com voc. Teria que ser sbado ou no domingo. 
Eu lhe aviso.
      Acho bem divertido trabalhar num colgio. Mas graas a Deus no sou professora. Ficaria completamente maluca.
                                                           Sempre sua,
      ANN
      Carta da Srta. Johnson para a sua irm.
      QUERIDA EDITH:
      Aqui est tudo como sempre. O perodo de vero  sempre agradvel. O jardim est lindo e, para ajudar o velho Briggs, temos um novo jardineiro... jovem e forte. 
E tambm bastante bonito, o que  uma pena. As garotas costumam ser to tolas!...
      A Srta. Bulstrode no tocou mais no assunto de se aposentar, sendo assim, espero que tenha mudado de idia. A Srta. Vansittart no seria, de modo algum, a 
mesma coisa. Creio realmente que eu no continuaria aqui.
      Meu amor para o Dick e as crianas e recomendaes para Oliver e Kate.
      ELSPETH
      Carta de Mademoiselle Angle Blanche para Ren Dupont, Posta Restante, Bordeaux.
      QUERIDA REN:
      Tudo correndo bem por aqui embora no possa dizer que esteja me divertindo. As garotas no so obedientes, nem bem comportadas. Creio, entretanto, que  melhor 
no me queixar  Srta. Bulstrode.  preciso ter cautela ao se lidar com aquela ali!
      No momento no h nada de interessante para lhe contar.
      MOUCHE
      Carta da Srta. Vansittart a uma amiga. 
      QUERIDA GLORIA:
      Este perodo de vero comeou sossegadamente. O grupo de alunas bastante satisfatrio. As estrangeiras esto se adaptando bem. Nossa pequena princesa (refiro-me 
 do Oriente Mdio, no  escandinava) tem propenso  falta de aplicao, porm suponho que isto j era de se esperar. Possui maneiras encantadoras.
      A nova professora de Ginstica, a Srta. Springer, no  um sucesso. As garotas no gostam dela pois  rgida demais.  tambm muito curiosa e est sempre fazendo 
perguntas muito pessoais. Este tipo de comportamento pode ser bastante desagradvel e  falta de educao. Mademoiselle Blanche, a nova professora de Francs,  
amvel mas no tem do mesmo gabarito da Mademoiselle Depuy.
      No primeiro dia de aula, passamos por um susto daqueles! Lady Vernica Carlton-Sandways apareceu completamente bbada! Se no fosse a Srta. Chadwick ter percebido 
a tempo, e t-la afastado do local, teramos tido um incidente desagradvel. As gmeas tambm so timas meninas.
      A Srta. Bulstrode ainda no disse nada de definitivo a respeito do futuro... mas pelo seu jeito, creio que j tomou uma deciso. Meadowbank  realmente um 
timo empreendimento e ficarei orgulhosa de continuar com a sua tradio.
      D um abrao em Marjorie quando estiver com ela.
                                                            Sua,
      ELEANOR
      Carta ao Coronel Pikeaway, enviada atravs dos canais habituais.
      Mandar um homem enfrentar o perigo! Sou o nico homem capacitado num estabelecimento de, a grosso modo, cerca de 190 mulheres. 
      Sua Alteza chegou com toda pompa. Cadillac cor de morango e azul claro, com um rabe em trajes nativos, esposa tipo capa de revista de moda e a edio jovem 
da mesma (Sua Alteza).
      No dia seguinte, quase no a reconheci vestindo o uniforme da escola. No haver dificuldades em estabelecer com ela relaes amistosas. Ela prpria j tomou 
providncias neste sentido. De forma suave e inocente, perguntava-me o nome de algumas flores, quando uma coruja sardenta, de cabelos vermelhos e voz de cana rachada, 
caiu sobre ela e levou-a das proximidades. Ela no queria ir. Sempre soube que estas garotas orientais eram educadas com modstia, por trs dos vus, entretanto 
esta deve ter tido alguma experincia mundana em seus dias de colgio na Sua.
      A coruja, alis a Srta. Springer, professora de Ginstica, voltou para me passar um sermo. O pessoal do jardim no tem permisso para falar com as alunas, 
etc. Foi minha vez de demonstrar inocncia surpreendida. Desculpe-me senhorita, a jovem perguntava-me que flores eram estas. Creio que no existem no lugar de onde 
vem. A coruja foi facilmente pacificada e no fim quase sorriu. Sucesso menor com a secretria da Srta. Bulstrode, uma moa do interior tipo saia e blusa. A professora 
de Francs  mais cooperativa. Reservada e quieta na aparncia, mas na realidade nem tanto. Fiz tambm camaradagem com trs agradveis tagarelas, nomes: Pamela, 
Lois e Mary. Sobrenomes desconhecidos mas de linhagem aristocrtica. Um perspicaz cavalo velho chamado Srta. Chadwick est sempre de olho em mim e tenho que ser 
cuidadoso para no entornar o caldo. .
      Meu chefe, o velho Briggs,  um tipo grosseiro cujo principal assunto de conversa  a respeito dos bons velhos tempos, quando as coisas eram bem melhores e 
ele, creio eu, o nmero quatro de uma equipe de cinco. Resmunga a respeito de tudo e de todos, mas tem o maior respeito pela Srta. Bulstrode. E tambm eu. Ela me 
dirigiu algumas palavras bem gentis, porm tive a horrvel impresso de que podia ler meus pensamentos e saber tudo a meu respeito.
      At agora nenhum sinal de algo sinistro... mas vivo na esperana.
      

CAPTULO 6
PRIMEIROS DIAS
NA SALA DAS PROFESSORAS contavam-se novidades. Viagens ao exterior, peas de teatro que foram vistas, visitas e exposies de arte. Retratos passavam de mo em mo. 
A ameaa de ver um sem-nmero de fotografias estava presente. Todas as entusiastas queriam mostrar suas prprias fotos, mas livrando-se de serem foradas a ver as 
das outras.
      Em seguida, a conversa se tornou menos pessoal. O novo Pavilho de Esportes foi tanto criticado quanto elogiado. Admitiram que era uma excelente construo, 
mas naturalmente todo mundo, de alguma forma, teria gostado de melhorar a sua arquitetura.
      As novas alunas foram passadas por uma rpida reviso e, no total, o veredicto foi favorvel.
      Houve uma conversa amena com as duas professoras novatas. Mademoiselle j havia estado na Inglaterra anteriormente? Em que parte da Frana nascera?
      Mademoiselle Blanche respondia educadamente, mas com reserva.
      A Srta. Springer era mais acessvel.
      Falava com nfase e deciso. Poderia quase que se dizer que estava fazendo uma palestra. Assunto: as qualidades da Srta. Springer. O quanto era apreciada como 
colega. Como as diretoras haviam aceito seus conselhos com gratido e reorganizado os horrios.
      A Srta. Springer no era uma pessoa sensvel. Uma inquietao na audincia no fora percebido por ela.
 Mesmo assim, imagino que as suas idias no foram sempre aceitas da forma ...er... como deveriam ter sido.
  preciso estar-se preparada para a ingratido  disse a Srta. Springer. Sua voz, j alta, tornou-se mais alta ainda.  O problema  que as pessoas so muito 
covardes. No encaram os fatos de frente. Muitas vezes preferem no enxergar o que est bem debaixo de seu nariz. Eu no sou assim. Vou direto ao ponto. Mais de 
uma vez descobri um escndalo vergonhoso e trouxe  baila. Tenho bom faro... no momento em que estou na pista, no abandono, at que tenha segurado a minha presa. 
 Riu alto.  Na minha opinio, ningum, cuja vida no fosse um livro aberto, deveria ensinar numa escola. Se algum tem alguma coisa a esconder, logo ser descoberto. 
Oh! vocs ficariam surpresas se eu lhes contasse as coisas que descobri a respeito de diversas pessoas. Coisas que ningum jamais teria sonhado.
 E voc gostou desta experincia, no ?  perguntou Mademoiselle Blanche.
  claro que no. Estava apenas cumprindo o meu dever. Mesmo assim ningum me deu apoio. Uma negligncia vergonhosa. Ento eu pedi demisso... como protesto.
      Olhou em torno e voltou a dar a sua risada divertida.
 Espero que aqui ningum tenha nada a esconder  disse alegremente.
      Ningum estava achando graa. A Srta. Springer, entretanto, no era o tipo de mulher para notar isto.
      
II
      
       Posso falar com a senhora?
      A Srta. Bulstrode pousou a caneta e olhou para o rosto vermelho da supervisora, a Srta. Johnson.
       Sim, Srta. Johnson?
  aquela garota, Shaista... a garota egpcia, ou seja l o que for.
       Sim?
        a... er... sua roupa de baixo.
      A Srta. Bulstrode levantou as sobrancelhas, surpresa.
       O seu... bem... o seu suti.
       O que h de errado com o seu suti?
 Bem, no  do tipo comum... quero dizer, no prende, exatamente. Bem... levanta o busto, sem a menor necessidade.
      A Srta. Bulstrode mordeu o lbio para prender o riso, como acontecia freqentemente em conversas com a Srta. Johnson.
       Talvez seja melhor eu dar uma olhada  falou sria.
      Uma espcie de inqurito teve lugar com a parte da acusao desempenhada pela Srta. Johnson, enquanto Shaista ouvia com vivo interesse.
  este arame e este arranjo com barbatanas  mostrou a Srta. Johnson desaprovando.
      Shaista explodiu em exaltada explicao.
 Mas  que o meu busto no  muito grande...  pequeno demais. Faz com que eu no parea mulher. E  muito importante para uma garota mostrar que  uma mulher 
e no um rapaz!
 H muito tempo para isto. Voc s tem quinze anos  retrucou a Srta. Johnson.
 Quinze... isto j  uma mulher! E eu pareo uma mulher, no pareo?
      Ela recorreu  Srta. Bulstrode que balanou a cabea, sria.
 Apenas o meu busto  pequeno. Ento eu quero que parea maior. Compreende?
 Compreendo perfeitamente  respondeu a Srta. Bulstrode. Mas neste colgio voc est entre garotas que, na sua maioria, so inglesas, e as meninas inglesas 
raramente so mulheres aos quinze anos. Gosto que minhas alunas usem maquiagem discreta e roupas apropriadas para seu estgio de crescimento. Sugiro que use seu 
suti quando estiver vestida para uma festa, ou quando for a Londres, mas no aqui. Neste colgio, vocs praticam muito esporte e, para isto, o seu corpo precisa 
estar livre para movimentar-se com facilidade.
  demais... toda esta corrida e ginstica  reclamou mal-humorada. No gosto da Srta. Springer... ela sempre diz mais depressa, mais depressa, nada de preguia. 
Eu fico cansada.
 J chega, Shaista  repreendeu a Srta. Bulstrode, sua voz tornando-se autoritria.  Sua famlia mandou-a para c a fim de que aprendesse maneiras inglesas. 
Todo este exerccio ser muito bom para a sua pele e tambm para desenvolver seu busto.
      Dispensando Shaista, sorriu para a Srta. Johnson.
  mesmo verdade  comentou.  Esta garota  completamente desenvolvida. Pela sua aparncia, poderia facilmente ter mais de vinte anos. E  assim que ela 
se sente. No se pode esperar que ela se sinta da mesma idade de Jlia Upjohn, por exemplo. Intelectualmente Jlia est muito adiante de Shaista. Fisicamente, porm, 
bem poderia andar sem suti.
 Gostaria que todas fossem como Jlia Upjohn  disse a Srta. Johnson.
 Eu no  falou a Srta. Bulstrode vivamente.  Um colgio cheio de garotas iguais seria muito montono.
      Montono, pensou, enquanto retornava  correo das composies. Esta palavra vinha se repetindo em seu crebro j por algum tempo. Montono...
      Se havia alguma coisa que seu colgio no era, era montono. Durante sua carreira como diretora, ela mesma nunca sentira monotonia. Tinha havido dificuldades 
para combater, crises imprevistas, aborrecimentos com os pais, com as crianas; revolues domsticas. Encarara e lidara com desastres incipientes e os transformara 
em triunfos. Tudo fora estimulante, excitante, valera demais a pena. E mesmo agora que j tomara sua deciso de se afastar, no tinha vontade de ir embora.
      Encontrava-se em excelente estado de sade, quase to forte como quando ela e Chaddy (a fiel Chaddy) haviam comeado o grande empreendimento com apenas um 
punhado de crianas e com o emprstimo de um banqueiro de rara viso. A formao acadmica de Chaddy havia sido melhor do que a sua, porm fora ela quem tivera o 
dom de planejar e transformar o colgio num local de tal projeo, que era conhecido em toda a Europa. Nunca sentira medo de experincias novas, enquanto Chaddy 
se satisfizera em ensinar o que sabia, com profundidade, mas de maneira nada excitante. O supremo feito de Chaddy sempre fora o de estar ali,  mo, pronta a prestar 
ajuda quando esta era necessria, como no dia do incio das aulas com Lady Vernica. Havia sido sobre a sua firmeza, refletiu a Srta. Bulstrode, que uma obra notvel 
fora construda.
      Bem, do ponto de vista material, as duas mulheres haviam se sado muito bem. Se se aposentassem agora, ambas teriam assegurado uma boa renda para o resto da 
vida. A Srta. Bulstrode ficava imaginando se Chaddy iria querer se aposentar quando ela assim o fizesse. Provavelmente no. Provavelmente, para ela o colgio era 
o seu lar. Continuaria, dedicada e leal, para apoiar a sucessora da Srta. Bulstrode.
      J que a Srta. Bulstrode tomara a deciso... precisava haver uma sucessora. Primeiramente, associada, para juntas dirigirem o colgio e depois faz-lo sozinha. 
Saber quando se retirar... esta era uma das grandes sabedorias da vida. Partir quando o poder comea a declinar, quando o pulso firme comea a afrouxar, antes de 
se sentir o incio do cansao, a falta de vontade de enfrentar um esforo contnuo.
      A Srta. Bulstrode terminou de corrigir as redaes e notou que a filha da Sra. Upjohn possua imaginao frtil. Jennifer era inteiramente desprovida de imaginao, 
mas demonstrava rara percepo dos fatos. Mary Vyse,  evidente, era do tipo acadmico, dotada de excelente memria. Mas que garota montona! Montona... novamente 
esta palavra. Bulstrode afastou-a de seu pensamento e chamou sua secretria.
      Comeou a ditar cartas.
      CARA LADY VALENCE: 
      Jane teve problemas com os ouvidos. Anexo relatrio mdico... etc.
      CARA BARONESA VON EISENGER:
      Certamente que poderemos providenciar para que Hedwig v  pera na ocasio em que Hellstern fizer o papel de Isolda...
      Uma hora passou com rapidez. A Srta. Bulstrode raramente parava para conversar. O lpis de Ann Shapland corria sobre o papel.
      Uma tima secretria, pensou a Srta. Bulstrode. Melhor do que Vera Lorrimer. Garota cansativa, a Vera. Abandonou seu cargo to subitamente. Esgotamento nervoso, 
dissera ela. Algo a ver com um homem, pensou a Srta. Bulstrode resignadamente. Normalmente a causa era um homem.
 Isto  tudo  falou a Srta. Bulstrode, ao ditar a ltima palavra. Soltou um suspiro de alvio.
      Tantas coisas cansativas para fazer  comentou.  Escrever para pais  como alimentar cachorros famintos. Oferea-lhes qualquer insignificncia que os acalme.
      Ann riu. A Srta. Bulstrode olhou-a com aprovao.
       O que a fez escolher o trabalho de secretria?
 No sei exatamente. No tinha nenhuma inclinao especial por nada em particular e este  o tipo de trabalho que quase todo mundo pega.
       No acha montono?
 Creio que tenho tido sorte. Tive vrios trabalhos diferentes. Trabalhei durante um ano para Sir Mervyn Todhunter, o arquelogo, em seguida trabalhei para 
Sir Andrew Peters da Shell. Fui secretria, por algum tempo, de Monica Lord, atriz... aquilo foi realmente fantstico! Ela sorriu da lembrana.
 H muito disto entre as jovens hoje em dia  observou a Srta. Bulstrode.  Toda esta mudana incessante.  Seu tom era de reprovao.
 Na realidade, no posso fazer nada por muito tempo seguido. Tenho me invlida. Ela se torna... bem... um tanto difcil de tempos em tempos. E ento preciso 
voltar para casa e tomar conta dela.
       Entendo.
 Mas independente disto receio que no pararia quieta em lugar nenhum. No possuo o dom da continuidade. Acho que mudanas tornam tudo muito menos montono.
 Montono...  murmurou Bulstrode, atingida mais uma vez pela palavra fatal.
      Ann olhou-a surpresa.
 No se importe comigo  falou a Srta. Bulstrode.  que s vezes uma palavra em especial parece surgir a toda hora. O que voc acharia de ser professora? 
 indagou com certa curiosidade.
       Detestaria  respondeu Ann com franqueza.
       Por qu?
       Acho terrivelmente montono... Oh, desculpe. 
      Ela parou desanimada.
 Ensinar no  nem um pouco montono  afirmou a Srta. Bulstrode com entusiasmo.  Pode ser a coisa mais excitante do mundo. Sentirei uma falta imensa quando 
me aposentar.
 Mas certamente...  Ann a encarou.  A senhora est pensando em se aposentar?
 Sim, est decidido. Oh, devo continuar por mais um ano... ou mesmo dois.
       Mas... por qu?
 Porque dei o melhor de mim mesma a este colgio e retirei dele o melhor. No quero o segundo melhor.
       O colgio continuar?
       Oh, sim. Tenho uma boa sucessora.
       A Srta. Vansittart, suponho?
 Ento voc pensou nela automaticamente? A Srta. Bulstrode olhou-a fixamente.  Isto  interessante.
 Receio que, na verdade, eu ainda no houvesse pensado nisto. Apenas ouvi as professoras comentando. Creio que ela se sairia muito bem... seguindo exatamente 
a sua tradio. Tem uma personalidade marcante,  bonita e possui muita presena. Imagino que isto seja importante, no ?
 Sim, . Estou certa de que Eleanor Vansittart  a pessoa indicada.
 Ela prosseguir onde a senhora parou  comentou Ann enquanto recolhia seu material.
      Mas ser isto o que eu quero? pensou Bulstrode consigo mesma quando Ann se retirou. Continuar onde eu parei?  justamente isto que Eleanor far. Nenhuma experincia 
nova, nada revolucionrio. No foi deste modo que fiz de Meadowbank o que  hoje. Eu me arrisquei. Enfrentei um sem-nmero de pessoas. Desafiei e persuadi, recusando-me 
a seguir os padres de outros colgios. No  assim que eu quero que continue? Algum que traga vida nova ao colgio. Alguma personalidade dinmica... como... sim... 
Eileen Rich.
      Mas Eileen no tinha idade suficiente, no possua experincia o bastante. Entretanto ela era estimulante, sabia ensinar. Tinha idias. Nunca seria montona. 
Bobagem, era preciso tirar aquela palavra da cabea. Eleanor Vansittart no era montona...
      Ergueu os olhos quando a Srta. Chadwick entrou.
       Oh, Chaddy!  exclamou.  Que bom ver voc! 
      A Srta. Chadwick pareceu um pouco surpresa.
       Por qu? H algum problema?
 O problema sou eu mesma. No sei o que est acontecendo comigo.
       Isto no  do seu feitio, Honria.
       Sim, no . Como esto correndo as coisas, Chaddy?
       Muito bem, creio.  A Srta. Chadwick parecia um tanto insegura.
      A Srta. Bulstrode precipitou-se.
       Ora, vamos! Fale claro. O que h de errado?
 Nada. Realmente nada mesmo, Honria.  apenas...  A Srta. Chadwick franziu a testa parecendo um tanto perplexa.  Oh,  somente uma sensao. Mas, na verdade, 
no  nada concreto. As alunas novas so agradveis. No gosto muito da Mademoiselle Blanche. Entretanto tambm no gostava de Genevieve Depuy.  dissimulada.
      A Srta. Bulstrode no deu muita ateno  crtica. Chaddy sempre acusava as professoras de Francs de serem dissimuladas.
 No  uma boa professora  observou a Srta. Bulstrode.  E  de admirar, pois suas referncias so timas.
 Os franceses no sabem ensinar. Falta disciplina  disse a Srta. Chadwick. E realmente esta tal de Springer  um pouco demais para o meu gosto. Muito saltitante 
e agitada.
       Ela  boa no seu trabalho.
       Sim,  do primeiro time.
 Professoras novas sempre perturbam  comentou a Srta. Bulstrode.
 Tem razo  concordou Chadwick ansiosa.  Estou certa de que no  nada mais do que isto. A propsito, o novo jardineiro  bastante jovem. Isto  to raro 
hoje em dia! No parece existir nenhum jardineiro jovem.  uma pena que seja to bonito. Teremos que manter os olhos bem abertos.
s duas senhoras balanaram a cabea em sinal de entendimento. Sabiam, melhor do que ningum, a devastao causada por um rapaz bonito nos coraes de garotas 
adolescentes.

CAPTULO 7
FOLHAS AO VENTO
 NADA MAL, meu rapaz  disse o velho Briggs, relutante. Nada mal. Expressava a sua aprovao ao trabalho de seu novo ajudante. No  conveniente, pensou Briggs, 
deixar um jovem muito satisfeito consigo mesmo.
 Cuidado  continuou  para no fazer as coisas apressadamente. V com calma,  o que lhe digo.  a calma que funciona.
      O jovem percebeu que o seu desempenho havia sido comparado um tanto favoravelmente demais com o ritmo de trabalho de Briggs.
 Deste lado  prosseguiu Briggs  colocaremos algumas dlias. Ela no gosta de dlias... mas no dou ateno. As mulheres tm seus caprichos, entretanto, 
se a pessoa no der importncia, dez contra um como jamais notam nada. Embora tenha que reconhecer que ela  do tipo observador. Seria de se esperar que j tivesse 
bastante com que se preocupar dirigindo um estabelecimento como este.
      Adam compreendeu que ela, que aparecia to freqentemente na conversa de Briggs, era a Srta. Bulstrode.
 E quem era a pessoa com quem voc falava ainda a pouco?  indagou Briggs desconfiado.  Quando voc se encaminhava para o viveiro de mudas?
       Oh, era apenas uma das alunas  respondeu Adam.
 Ah, era uma destas namoradeiras, no ?  bom tomar cuidado, meu rapaz. No se envolva com elas, sei do que estou falando. Conheci garotas deste tipo durante 
a primeira guerra mundial e se naquela poca eu soubesse o que sei hoje, teria mais cuidado. Entendeu?
 No havia maldade nenhuma  retrucou Adam, assumindo um ar mal-humorado.  Ela estava apenas passando tempo e me perguntou o nome de umas plantas.
 Ah  disse Briggs,  mas tome cuidado. A sua posio aqui no lhe permite falar com nenhuma das alunas. Ela no iria gostar.
       Eu no estava fazendo nada de errado e nem disse que devesse.
 No estou afirmando o contrrio, meu jovem. Entretanto, um bando de jovens presas aqui com nada alm que uma professora de desenho para distrair-lhes o pensamento... 
bem,  melhor tomar cuidado.  s isto. Ah, l vem aquela mulher novamente. Vai querer alguma coisa complicada, aposto,
      A Srta. Bulstrode aproximava-se a passos rpidos.  Bom dia, Briggs  cumprimentou ela.  Bom dia... er...
       Adam, senhora.
 Ah, sim, Adam. Bem, parece que voc fez um bom trabalho com esta cova. A cerca de arame em volta da quadra de tnis est cedendo, Briggs.  bom cuidar disto.
       Est bem, Madame. Ser providenciado.
       O que est plantando a?
       Bem, eu pensei em...
 No quero dlias  falou a Srta. Bulstrode sem dar-lhe tempo de terminar a frase.  Quero crisntemos!  e partiu bruscamente.
 Aparecendo aqui... dando ordens  reclamou Briggs.  No que no seja observadora. Percebe logo se a pessoa faz ou no o trabalho direito. E lembre-se do 
que eu disse e tome cuidado, meu rapaz. Cuidado com estas jovens namoradeiras!
 Se ela encontrar algum defeito em mim, sei muito bem o que faria  disse Adam irritado.  H muito trabalho por a.
 Ah. Isto  bem prprio dos jovens de hoje em dia. No ouvem conselhos de ningum. Apenas digo-lhe para tomar cuidado.
      Adam continuou mal-humorado, mas abaixou-se e voltou, mais uma vez, ao trabalho.
      A Srta. Bulstrode encaminhava-se de volta ao prdio do colgio. Sua expresso estava um tanto carregada.
      A Srta. Vansittart vinha em direo oposta.
       Que tarde quente  reclamou a Srta. Vansittart.
 Sim, o ar est muito carregado.  A Srta. Bulstrode franziu a testa.  J reparou naquele jovem... o novo jardineiro?
       No, no em especial.
 Parece-me... bem... um tipo estranho  comentou a Srta. Bulstrode pensativa.  No  do tipo que se v por a.
       Talvez tenha vindo de Oxford e queira ganhar um dinheirinho.
        bonito. As garotas j repararam.
       O problema de sempre.
      A Srta. Bulstrode sorriu.  Combinar liberdade e superviso rgida...  isto que voc quer dizer, Eleanor?
       Sim.
       Conseguiremos.
 Sim,  claro. Voc nunca teve um escndalo em Meadowbank, teve?
 Chegamos perto por uma ou duas vezes  respondeu Bulstrode. Ela riu.  No h nunca um momento montono dirigindo-se um colgio  continuou.  Voc acha 
a vida aqui montona, Eleanor?
 Nem um pouco. Acho o meu trabalho muito estimulante e gratificante. Deve se sentir muito orgulhosa e feliz com o grande sucesso que conseguiu.
 Creio que me sa bem  disse a Srta. Bulstrode pensativa.   claro que nada  exatamente como se imagina a princpio...
 Diga-me, Eleanor  falou Bulstrode de repente.  Se ao invs de mim, voc estivesse dirigindo este colgio, que mudanas voc faria? No faa cerimnia em 
falar. Estou interessada em ouvir a sua opinio.
 No creio que gostaria de fazer qualquer mudana  respondeu Eleanor Vansittart.  Parece-me que o esprito do lugar e de toda a organizao  perfeita.
       Voc continuaria com o mesmo sistema?
       Sim. No acredito que possa ser melhorado.
      A Srta. Bulstrode ficou calada por um momento. Pensava consigo mesma: Fico imaginando se ela disse isto para me agradar. Nunca se conhece as pessoas, por mais 
prxima que se possa ter estado durante anos.  certo que ela no pode achar isto realmente. Qualquer pessoa, por menor que seja seu esprito criativo, deseja fazer 
modificaes.  verdade, entretanto, que no seria de muito tato dizer isto. E tato  uma coisa muito importante com as alunas, e com as professoras. Eleanor certamente 
possui tato.
      Em voz alta disse:  Contudo deve sempre haver adaptaes, no acha? Refiro-me s mudanas de idias e s condies de vida em geral.
 Oh, isto sim  concordou a Srta. Vansittart.  A pessoa deve, como se costuma dizer, acompanhar o tempo. Mas  seu colgio, Honria, voc o fez o que , 
e sua tradio  a sua essncia. Tradio  muito importante, no acha?
      A Srta. Bulstrode no respondeu. Estava suspensa na iminncia de palavras irrevogveis. A oferta de uma sociedade estava parada no ar. Embora a Srta. Vansittart, 
com seu modo bem educado, parecesse nada notar, deveria estar consciente do fato. A Srta. Bulstrode no sabia realmente o que a estava detendo. Por que lhe desagradava 
tanto se comprometer? Provavelmente, admitiu tristemente, porque detestava a idia de abrir mo do poder. Secretamente, desejava ficar; queria continuar dirigindo 
o colgio. Mas, por certo, ningum poderia ser uma sucessora de maior valor do que Eleanor. To segura, to digna de confiana.  lgico que quanto a isto tambm 
o era a querida Chaddy... to digna de confiana quanto algum poderia ser. E, entretanto, ela no conseguia imaginar Chaddy como diretora de um colgio de projeo.
 Afinal o que eu quero?  disse Bulstrode para si mesma.  Como estou sendo cansativa. Realmente, at agora, a indeciso nunca havia sido um de meus defeitos.
      Um sino tocou a distncia.
 Minha aula de alemo  disse a Srta. Vansittart.  Preciso ir.  Encaminhou-se num passo rpido mas elegante em direo s dependncias escolares. Seguindo-a 
mais devagar, a Srta. Bulstrode quase tropea em Eileen Rich que vinha apressada.
 Oh, desculpe-me, Srta. Bulstrode. No a tinha visto.  Seu cabelo, como de costume, estava se soltando do coque mal arrumado. A Srta. Bulstrode, mais uma 
vez, notou os ossos feios, porm interessantes, de seu rosto. Era uma jovem estranha, ansiosa e de forte personalidade.
       Voc tem aula agora?
       Sim. De ingls.
 Voc gosta de lecionar, no gosta?  perguntou a Srta. Bulstrode.
       Adoro.  a coisa mais fascinante deste mundo.
       Por qu?
      Eileen ficou esttica. Passou as mos nos cabelos. Franziu a testa esforando-se para pensar.
 Que interessante! No me lembro de jamais ter pensado no porqu. Por que algum gosta de ensinar? Ser que faz com que a pessoa se sinta importante e superior? 
No, no... no  nada disto. No, creio que  como pescar. No se sabe o que se vai apanhar, o que se vai tirar do fundo do mar.  a qualidade do resultado obtido. 
 to excitante quando se consegue!  lgico que no acontece com muita freqncia.
      A Srta. Bulstrode balanou a cabea concordando. Estava certa! Aquela garota tinha algo!
 Suponho que, algum dia, voc dirigir o seu prprio colgio?  disse ela.
 Oh, espero que sim. Espero que sim.  o que desejo acima de tudo.
 Voc tem suas prprias idias de como um colgio deve ser dirigido, no tem?
 Suponho que todo mundo tenha suas idias  respondeu Eileen Rich.  Atrevo-me a dizer que muitas delas so fantsticas e que poderiam no dar certo. Seria 
um risco,  claro. Mas algum precisaria tentar. Eu teria que aprender por experincia prpria. O terrvel  que no se pode ir pelas experincias dos outros, no 
?
 Na verdade, no  concordou a Srta. Bulstrode.  Na vida a pessoa tem que cometer seus prprios erros.
 Isto est certo quanto  vida  disse Eileen Rich.  Na vida a pessoa pode se recuperar e comear tudo de novo. Com os braos cados ao longo do corpo, cerrou 
os punhos. Sua expresso era sria. Ento, de repente, relaxou. Porm, se um colgio ficar desmoralizado, no  assim to fcil recomear.
 Se dirigisse um colgio como Meadowbank  indagou a Srta. Bulstrode  voc faria mudanas... experincias?
      Eileen parecia embaraada.  Isto... isto  uma coisa tremendamente difcil de se responder.
 Voc quer dizer que faria. No tenha receio em dar a sua opinio.
 Suponho que sempre se deseje usar as prprias idias  opinou Eileen Rich.  No digo que funcionassem. Poderiam no dar certo.
       Mas valeria a pena correr o risco?
 Sempre vale a pena correr o risco, no acha? Quero dizer, se se tem bastante certeza de alguma coisa.
 Voc no  contra se levar uma vida perigosa. Entendo...  disse a Srta. Bulstrode.
 Creio que sempre levei uma vida perigosa.  Uma sombra passou sobre o seu rosto.  Preciso ir. Devem estar me esperando.  Saiu apressada.
      A Srta. Bulstrode seguiu-a com o olhar. Ainda estava parada, perdida em seus pensamentos, quando a Srta. Chadwick a encontrou.
 Ah! A est. Estvamos procurando por voc em todos os lugares. O Professor Anderson acabou de telefonar. Quer saber se pode vir apanhar Meros no prximo 
fim de semana. Est ciente de que, assim no incio do semestre,  contra o regulamento, porm surgiu uma viagem inesperada para um lugar chamado... er... Azure Basin.
 Azerbaijin  corrigiu a Srta. Bulstrode automaticamente, com sua mente ainda perdida em pensamentos.
 No tem bastante experincia  murmurou para si mesma.  Este  o risco. O que disse, Chaddy?
      A Srta. Chadwick repetiu o recado.
      Mandei a Srta. Shapland dizer que lhe telefonaramos depois, e pedi que ela a procurasse.
      Diga que est bem  respondeu a Srta. Bulstrode.  Reconheo que se trata de uma ocasio excepcional.
      Chadwick olhou-a atentamente.
       Est preocupada, Honria?
 Sim, estou. No sei o que se passa em minha mente. E isto no costuma acontecer... me perturba. Sei o que gostaria de fazer... mas entregar a diretoria deste 
colgio para algum sem a experincia necessria no me parece justo.
 Gostaria que voc desistisse desta idia de se aposentar. Voc pertence a isto aqui. Meadowbank precisa de voc.
       Meadowbank representa muito para voc, no , Chaddy?
 No existe colgio como este em lugar nenhum da Inglaterra  afirmou a Srta. Chadwick.  Podemo-nos orgulhar, voc e eu, de o termos fundado.
      A Srta. Bulstrode passou o brao carinhosamente em torno de seu ombro.
 Podemos sim, Chaddy. Quanto a voc, pode estar certa de que  o conforto da minha vida. No h nada a respeito de Meadowbank que voc no saiba. Gosta disto 
aqui tanto quanto eu. E isto quer dizer muito, minha querida.
      A Srta. Chadwick corou de satisfao. Era to raro Honria Bulstrode quebrar a sua reserva.
      
II
      
 Simplesmente no posso jogar com esta coisa horrvel. No presta.
      Jennifer atirou a raqueta no cho, desanimada.
       Oh, Jennifer, que estardalhao voc faz!
  o balano.  Jennifer apanhou-a novamente e fez alguns movimentos, experimentando-a.  Ela no est bem balanceada.
  muito melhor do que esta minha coisa velha.   Jlia comparou sua raqueta.  A minha parece uma esponja. Oua s o barulho dela.  Agitou sua raqueta. 
 Pretendia mudar as cordas mas mame acabou se esquecendo.
 Mesmo assim, prefiro a sua do que a minha.  Jennifer segurou-a e tentou algumas jogadas com ela.
 Bem, eu prefiro a sua. A ento eu realmente poderia acertar alguma jogada. Se voc quiser, eu troco.
       Est bem, vamos trocar.
      As duas garotas arrancaram o pequeno adesivo onde seus nomes estavam impressos e tornaram a colar, trocando as raquetas.
 Eu no vou trocar de novo  preveniu Jlia.  Sendo assim, no adianta dizer que no gosta da minha velha esponja.
      
III
      
      Adam assobiava alegremente enquanto prendia a tela de arame em volta da quadra de tnis. A porta do Pavilho de Esportes abriu-se e Mademoiselle Blanche, a 
professora de Francs, olhou para fora. Pareceu assustada ao ver Adam. Hesitou por um momento e, em seguida, voltou para dentro.
 O que ser que ela andou aprontando?  disse Adam para si mesmo. Jamais ter-lhe-ia ocorrido que Mademoiselle Blanche pudesse estar aprontando alguma coisa, 
se no fosse pelo jeito dela. Estava com uma aparncia de culpa que, de pronto, serviu para levantar suspeitas em sua mente. Logo em seguida, tornou a sair, fechando 
a porta atrs de si e parando para falar com Adam quando passou por ele.
       Vejo que consertou a tela.
       Sim, senhorita.
 As quadras de esporte, a piscina e tambm o Pavilho so magnficos. Oh, le sport. Do muita importncia aos esportes aqui na Inglaterra, no  verdade?
       Sim, creio que sim, senhorita.
 Voc joga tnis?  Seus olhos avaliaram-no de um modo definitivamente feminino e neles havia um leve convite. Ocorreu a Adam que a Mademoiselle Blanche era 
uma professora de Francs um tanto imprpria para Meadowbank.
       No  mentiu ele.  No jogo tnis. No tenho tempo.
       Ento joga cricket?
 Oh, bem, eu jogava cricket quando garoto. A maioria dos rapazes jogam.
 No tenho tido muito tempo para andar por a  disse a Srta. Blanche.  Somente hoje, que o dia est to bonito,  que me animei para conhecer melhor o Pavilho 
de Esportes. Quero escrever para uns amigos meus na Frana que so donos de um colgio.
      Mais uma vez, Adam ficou um pouco cismado. Parecia muita explicao desnecessria. Era quase como se Mademoiselle Blanche quisesse se desculpar pela sua presena 
ali no Pavilho de Esportes. Mas por que ela faria isto? Tinha todo o direito de ir aonde bem entendesse dentro da propriedade do colgio. E certamente no havia 
nenhuma necessidade de dar satisfaes a um simples ajudante de jardineiro. Isto levantou ainda mais suspeitas em sua mente. O que estivera aquela jovem fazendo 
ali?
      Olhou pensativo para Mademoiselle Blanche. Talvez fosse bom saber um pouco mais a respeito dela. Propositalmente e com muita habilidade suas maneiras mudaram. 
Continuavam respeitosas, mas no tanto. Permitiu que seus olhos dissessem a ela que a considerava urna jovem atraente.
 A senhorita deve achar um tanto montono trabalhar num colgio de moas.
       , no me diverte muito.
       Mas suponho que tenha seus dias de folga?
      Houve uma ligeira pausa. Era como se ela se debatesse consigo mesma. Ento sentiu, com ligeiro pesar, que a distncia que havia entre eles no tinha sido alterada.
 Oh, sim! Tenho meus dias livres. As condies de trabalho aqui so excelentes.  Ela fez um pequeno gesto de cumprimento com a cabea.  Bom dia.  Afastou-se 
em direo a casa.
 Na minha opinio, voc andou aprontando alguma coisa...  disse Adam para si mesmo.
      Esperou at que ela desaparecesse e ento, abandonando o trabalho, foi at o Pavilho e olhou para dentro. Aparentemente no havia nada fora do lugar.  Mesmo 
assim  disse ele para si mesmo  continuo achando que ela pretendia algo.
      Ao sair deparou inesperadamente com Ann Shapland.
       Sabe onde a Srta. Bulstrode est?  indagou ela.
 Acho que voltou para o prdio do colgio. Ainda h pouco estava falando com Briggs.
      Ann estava com uma expresso carregada.
       O que voc estava fazendo no Pavilho de Esportes?
      Adam foi tomado de surpresa. Maldita mente desconfiada que ela tem!  pensou. Ento, com uma leve insolncia na voz falou:  Achei que gostaria de dar uma 
olhada. No h mal em olhar, h?
       Voc no deveria estar trabalhando?
 Estou quase acabando de pregar a tela de arame em volta da quadra de tnis.  Virou-se olhando para o edifcio atrs dele.  Isto aqui  novo, no ? Deve 
ter custado uma fortuna. As jovens aqui tm tudo do melhor, no  mesmo?
       Elas pagam para isto  respondeu Ann secamente.
      Segundo soube, pagam um preo exorbitante  retrucou Adam.
      Sentiu um desejo que ele prprio no entendia de ferir ou aborrecer aquela jovem. Era sempre to fria, to auto-suficiente. Ele realmente gostaria de v-la 
zangada.
      Ann porm no lhe deu esta satisfao. Simplesmente falou:
  melhor voc acabar de pregar a tela  e encaminhou-se para o colgio. No meio do caminho diminuiu o passo, olhou para trs e viu que Adam estava ocupado 
com o seu trabalho. Em seguida olhou para o Pavilho de Esportes de maneira intrigada.
      

CAPTULO 8
ASSASSINATO
EM SUA NOITE DE PLANTO, na Delegacia de Polcia de Hurst St. Cyprian, o Sargento Green bocejava. O telefone tocou e ele atendeu. Um momento depois sua atitude mudou 
por completo. Comeou a escrever rapidamente numa folha de papel.
 Sim. Meadowbank? Sim... e o nome? Soletre, por favor, S-P-R-I-N-G-E-R? Sim? Springer. Sim, por favor, cuide para que ningum mexa em nada. Uma pessoa ir 
para a imediatamente.
      Metodicamente e com rapidez, comeou a dar andamento a vrias providncias a serem tomadas.
 Meadowbank?  disse o Inspetor de Polcia Kelsey, quando a sua vez chegou.   o colgio de moas, no ? Quem foi assassinado?
 Morte de uma professora de Ginstica  falou Kelsey, pensativo.  Parece ttulo de livro de mistrio de livraria de estao de estrada de ferro.
 Quem o senhor acha que poderia t-la matado?  perguntou o sargento.  Parece meio estranho.
 Mesmo as professoras de Ginstica tm vida amorosa  disse o Inspetor Kelsey.  Onde foi que disseram que o corpo foi encontrado?
 No Pavilho de Esportes. Suponho que este  um nome pomposo para o ginsio.
 Pode ser  disse Kelsey.  Morte de uma professora de Ginstica na quadra de esportes... Soa como um crime altamente atltico, no  mesmo? Voc disse que 
ela levou um tiro?
       Sim.
       Encontraram o revlver?
       No.
 Interessante  comentou o Inspetor Kelsey e, tendo reunido a sua equipe, partiu para cumprir o seu dever.
      
II
      
      A porta de Meadowbank estava aberta deixando passar a luz que vinha de dentro. Ali o Inspetor Kelsey foi recebido pela prpria Srta. Bulstrode. Ele a conhecia 
de vista, assim como era conhecida por quase todas as pessoas da redondeza. At mesmo neste momento de confuso e incerteza, a Srta. Bulstrode permanecia imperturbvel, 
em comando da situao e de seus subordinados.
       Inspetor Kelsey, Madame  apresentou-se.
 O que o senhor gostaria de fazer em primeiro lugar, Inspetor Kelsey? Deseja ir ate o Pavilho de Esportes ou ouvir os detalhes do ocorrido?
 O mdico est comigo  respondeu Kelsey.  Se a senhora tivesse a gentileza de mostrar a ele e a mais dois dos meus homens onde est o corpo, poderamos 
ento trocar algumas palavras.
 Certamente. Venha at  minha sala. Srta. Rowan, por favor, mostre ao mdico e aos outros cavalheiros o caminho  acrescentou.  L no Pavilho tem uma pessoa 
cuidando para que nada seja tocado.
       Obrigado, Madame.
      Kelsey acompanhou a Srta. Bulstrode at sua sala.  Quem encontrou o corpo?
 A Srta. Johnson, a supervisora. Uma de nossas alunas estava com dor de ouvido e a Srta. Johnson levantou-se para cuidar dela. Foi ento que percebeu que 
as cortinas no estavam puxadas direito e, indo ajeit-las, observou que havia luz no Pavilho de Esportes, o que no deveria acontecer  uma hora da madrugada  
terminou a Srta. Bulstrode secamente.
       Onde est a Srta. Johnson agora?  perguntou Kelsey.
       Est  sua disposio caso o senhor deseje v-la.
       Daqui a pouco. Por favor, continue, Madame.
 A Srta. Johnson acordou uma de nossas professoras, a Srta. Chadwick. Decidiram ir investigar. Quando saam pela porta lateral, ouviram um tiro. Correram 
o mais rpido que podiam em direo ao Pavilho de Esportes. Chegando l...
      O inspetor a interrompeu.  Obrigado, Srta. Bulstrode. Se, como a senhora disse, a Srta. Johnson est disponvel, ouvirei a outra parte da histria diretamente 
dela. Mas antes, porm, talvez a senhora possa me dizer alguma coisa a respeito da mulher assassinada.
       Seu nome  Grace Springer.
       Trabalhava aqui h muito tempo?
 No. Comeou este semestre. A antiga professora de Ginstica saiu para assumir um posto na Austrlia.
       E o que a senhora sabia sobre a Srta. Springer?
 Suas referncias so excelentes  informou a Srta. Bulstrode.
       A senhora no a conhecia antes de vir para c?
       No.
 Tem alguma idia, por mais vaga que seja, do que poderia ter ocasionado esta tragdia? Ela era uma pessoa triste? Tinha alguma ligao amorosa infeliz?
      A Srta. Bulstrode balanou a cabea.  Nada de que eu tenha conhecimento. Posso dizer  continuou ela  que me parece muito improvvel.  No era este tipo 
de mulher.
 As pessoas surpreendem muito quando se trata deste assunto  disse o Inspetor Kelsey sombriamente.
       Gostaria que eu fosse buscar a Srta. Johnson agora?
 Por favor. Quando acabar de ouvir a Srta. Johnson irei at o ginsio, ou o... como  que o chamam... o Pavilho de Esportes.
 Trata-se de um prdio adicional que foi construdo este ano  explicou a Srta. Bulstrode.  Fica junto  piscina e contm uma quadra de tnis e outras dependncias. 
Lugar para as raquetas de tnis, tacos de hquei, bastes e outros apetrechos esportivos e ainda uma sala para secar as roupas de banho.
 Havia algum motivo para a Srta. Springer estar no Pavilho quela hora da noite?
       Nenhum  afirmou a Srta. Bulstrode com segurana.
       Muito bem, Srta. Bulstrode. Agora falarei com a Srta. Johnson.
      A Srta. Bulstrode retirou-se e voltou trazendo consigo a supervisora. Para acalm-la, depois da descoberta do corpo, haviam lhe dado uma dose razovel de brandy. 
O resultado havia sido um pouco mais de eloqncia.
 Este  o Inspetor Kelsey  apresentou a Srta. Bulstrode.  Acalme-se, Elspeth, e conte a ele exatamente o que aconteceu.
  horrvel!  disse  Srta. Bulstrode.  Horrvel mesmo! Uma coisa como esta nunca me havia acontecido. Nunca! Eu no conseguia acreditar, no conseguia 
mesmo! Logo a Srta. Springer!
      O Inspetor Kelsey era um homem perspicaz. Sempre disposto a desviar seu curso normal de rotina se uma observao lhe parecesse incomum e digna de ser observada.
 Parece-lhe...  disse ele  muito estranho que tenha sido justamente a Srta. Springer a pessoa assassinada?
 Bem, sim, inspetor. Ela era to... bem, to forte, entende. To enrgica. O tipo de mulher que se imagina agarrando um ladro de um golpe s.
 Ladres? Hum...  fez Kelsey.  Havia alguma coisa para ser roubada no Pavilho de Esportes?
 Bem, no; no vejo o que poderia ser. Roupas de banho, material de esporte,  claro.
 O tipo de coisa que um ladro comum levaria  concordou Kelsey.  Mas acho que dificilmente valeria a pena arrombar um lugar por isto. A propsito, foi arrombamento?
 Bem, na verdade, no me lembrei de verificar  respondeu a Srta. Johnson.  Quero dizer, a porta estava aberta quando chegamos l e...
       No houve arrombamento  informou a Srta. Bulstrode.
 Entendo  disse Kelsey.  Foi usada uma chave.  Olhou para a Srta. Johnson.  A Srta. Springer era uma pessoa querida?  perguntou.
 Bem, realmente no sei dizer. Afinal de contas ela est morta.
 Ento a senhora no gostava dela  disse Kelsey com argcia, ignorando os sentimentos mais delicados da Srta. Johnson.
 No acredito que algum pudesse gostar muito dela  explicou.  Era uma pessoa direta demais. No se incomodava em contradizer os outros claramente. Era 
eficiente e levava seu trabalho muito a srio, no  mesmo, Srta. Bulstrode?
       Certamente  concordou a Srta. Bulstrode. 
      Kelsey retornou ao assunto original.
       Agora, Srta. Johnson, vamos ouvir o que aconteceu.
 Jane, uma de nossas alunas, estava com dor de ouvido. Acordou com uma forte crise e foi me procurar. Dei-lhe um remdio e ao lev-la de volta para a cama, 
vi que as cortinas da janela estavam batendo e achei que talvez fosse melhor, para variar, que a janela no ficasse aberta j que o vento estava soprando naquela 
direo.  lgico que as meninas sempre dormem com as janelas abertas. Algumas vezes temos dificuldades com as estrangeiras, porm sempre insisto para que...
 Isto agora no vem ao caso  interrompeu a Srta. Bulstrode.  Nossas regras gerais de higiene no interessariam ao Inspetor Kelsey.
 No, no,  claro que no  desculpou-se a Srta. Johnson.  Bem, como estava dizendo, fui fechar a janela e qual no foi minha surpresa ao ver que havia 
luz no Pavilho de Esportes. Dava para ver distintamente, no podia estar enganada. Parecia se mover.
 Quer dizer que no era uma lmpada acesa e sim a luz de uma tocha ou de uma lanterna?
 Sim, sim, deve ter sido isto. Pensei imediatamente:  Meu Deus, o que ser que algum est fazendo l a esta hora da noite?   evidente que no pensei em 
ladres. Teria sido uma idia fantasiosa demais.
       Em que a senhora pensou?  indagou Kelsey.
      A Srta. Johnson lanou um olhar para a Srta. Bulstrode.
 Bem, realmente no me recordo de ter tido nenhuma idia em particular. Quero dizer... bem, quero dizer que podia pensar...
      A Srta. Bulstrode a interrompeu.  Creio que a Srta. Johnson suspeitou de que alguma de nossas alunas pudesse ter ido at l se encontrar com algum. Estou 
certa, Elspeth?
      A Srta. Johnson engoliu em seco.  Bem, sim, esta idia realmente passou pela minha cabea mas apenas por um momento. Talvez uma de nossas garotas italianas. 
As garotas estrangeiras so muito mais precoces do que as inglesas.
 No seja to preconceituosa  disse a Srta. Bulstrode.  Temos tido vrias garotas inglesas tentando manter encontros inconvenientes. Foi muito natural lhe 
ocorrer este pensamento e, provavelmente,  o que me teria ocorrido.
       Continue  falou o Inspetor Kelsey.
 Ento achei melhor  prosseguiu a Srta. Johnson  acordar Chadwick e pedir-lhe para ir comigo ver o que se estava passando.
 Por que a Srta. Chadwick?  perguntou Kelsey.  Algum motivo especial?
 Bem, eu no desejava incomodar a Srta. Bulstrode  explicou ela.  Receio que seja uma espcie de hbito nosso, sempre procurar a Srta. Chadwick se no queremos 
perturbar a Srta. Bulstrode. Sabe, a Srta. Chadwick est aqui h muito tempo e tem muita experincia.
 Bem, de qualquer modo, a senhora foi at a Srta. Chadwick e a acordou. Correto?
 Sim. Ela concordou que deveramos ir at l imediatamente. No perdemos tempo nos vestindo, apenas colocamos um casaco e samos pela porta lateral. E foi 
a que ouvimos um tiro vindo do Pavilho. Ento corremos o mais depressa que podamos. Fizemos a bobagem de no levar uma lanterna e ficou difcil de enxergar por 
onde andvamos. Tropeamos uma ou duas vezes, mas chegamos l depressa. A porta estava aberta. Acendemos a luz e...
      Kelsey a interrompeu.  Ento no havia nenhuma luz quando as senhoras alcanaram a porta? Nenhuma lanterna ou algo assim?
 No. O lugar estava em completa escurido. Acendemos a luz e l estava ela. Ela...
 Est bem  falou o Inspetor Kelsey gentilmente.  No  necessrio descrever mais nada. Agora irei at l e verei por mim mesmo. No encontraram ningum 
no caminho.
       No.
       Nem ouviram algum fugindo?
       No. No ouvimos nada.
 Algum mais escutou o tiro no prdio do colgio?  perguntou Kelsey olhando para a Srta. Bulstrode.
      Ela negou com a cabea.  No. No que eu saiba. Ningum me disse ter ouvido. O Pavilho de Esportes fica um pouco distante e no creio que o tiro pudesse 
ser ouvido daqui.
       Talvez de um dos quartos que do para o Pavilho de Esportes?
 Acho difcil, a no ser que a pessoa estivesse esperando por tal coisa. Estou certa de que no poderia ser suficientemente alto para acordar algum.
 Bem, obrigado  agradeceu o Inspetor Kelsey.  Agora vou at o Pavilho de Esportes.
       Irei com o senhor  disse a Srta. Bulstrode.
 Querem que eu v tambm?  perguntou a Srta. Johnson.  Se quiserem, eu irei. De nada adianta fugir das coisas, no ? Sempre fui da opinio de que a pessoa 
deve encarar seja l o que for, e...
 Obrigado  disse Kelsey.  No  preciso, Srta. Johnson. No desejo exp-la a maior tenso.
  tudo to terrvel!  lamentou a Srta. Johnson.  E faz com que me sinta pior por saber que no gostava muito dela. Na verdade, ontem  noite mesmo tivemos 
uma discusso na sala de reunies. Eu afirmei que ginstica demais era ruim para algumas garotas... as mais frgeis. A Srta. Springer disse que isto era pura bobagem, 
que eram justamente estas as que mais precisavam de exerccios. Dava-lhes maior vigor e fazia delas novas mulheres. Retruquei dizendo que ela no sabia tudo embora 
pudesse pensar que sim. Afinal de contas, tive treinamento especializado e entendo muito mais sobre fragilidade e doena do que a Srta. Springer, embora no tenha 
dvida de que a Srta. Springer sabia tudo a respeito de barras paralelas, acrobacias e tnis. Oh, Deus! Agora que penso no que aconteceu, desejaria que no tivesse 
falado daquele jeito. Suponho que a pessoa sempre se sinta assim depois que uma coisa terrvel acontece. Realmente sinto-me culpada.
 Agora, sente-se aqui, minha querida  disse a Srta. Bulstrode, acomodando-a no sof.  Fique a e descanse. E no d importncia a nenhuma discusso insignificante 
que possa ter tido. A vida seria muito montona se concordssemos uns com os outros em todos os assuntos.
      A Srta. Johnson sentiu-se balanando a cabea e, em seguida, bocejou. A Srta. Bulstrode acompanhou Kelsey at o saguo.
 Dei-lhe uma boa dose de brandy  explicou ela.  Fez com que ficasse um pouco eloqente demais. Creio, porm, que no estava confusa, estava?
 No  garantiu Kelsey.  Prestou uma declarao bastante clara do que aconteceu.
      A Srta. Bulstrode indicou-lhe o caminho pela porta lateral.
       Foi por aqui que a Srta. Johnson e a Srta. Chadwick saram?
 Sim. D diretamente para o caminho ladeado de rododendros que leva ao Pavilho de Esportes.
      O inspetor carregava uma potente lanterna e logo chegaram ao prdio onde, agora, as luzes brilhavam.
        um belo prdio  disse Kelsey apreciando.
 Custou um bom dinheiro. Mas podemos pagar  acrescentou ela serenamente. 
      A porta aberta mostrava uma sala de bom tamanho. L havia armrios com o nome das garotas impresso. No final da sala, uma prateleira para raquetas de tnis 
e outra para bastes. Uma porta lateral levava para os chuveiros e vestirios. Kelsey deu uma parada antes de entrar. Dois de seus homens haviam estado trabalhando. 
O fotgrafo acabara de terminar a sua tarefa e o outro homem, que estava ocupado colhendo impresses digitais, ergueu a cabea e falou:  o senhor pode atravessar 
a sala. No tem problema nenhum. Ainda no terminamos este canto aqui.
      Kelsey encaminhou-se at onde o mdico da polcia estava ajoelhado junto ao corpo O mdico levantou os olhos quando Kelsey se aproximou.
 Ela foi atingida a uns dois metros de distncia  informou. A bala penetrou no corao. A morte deve ter sido instantnea.
       H quanto tempo foi?
       H uma hora aproximadamente.
      Kelsey balanou a cabea. Deu a volta e olhou para a figura alta da Srta. Chadwich que estava parada sria encostada numa parede como um co de guarda. Tinha 
cerca de 55 anos, calculou ele; testa ampla, boca obstinada, cabelo grisalho desalinhado, nenhum trao de histeria. O tipo de mulher, pensou ele, com quem se pode 
contar num momento de crise embora pudesse ser negligente na vida do dia-a-dia.
       Srta. Chadwick?  disse ele.
       Sim.
       A senhora veio com a Srta. Johnson e juntas descobriram o corpo?
       Sim. Ela estava exatamente como agora. Estava morta.
       E a que horas foi isto?
 Olhei o relgio quando a Srta. Johnson me acordou. Faltavam dez para a uma.
      Kelsey balanou a cabea. Isto combinava com a hora que a Srta. Johnson tinha dado. Olhou pensativo para a mulher morta. Seu cabelo ruivo brilhante era curto. 
Tinha o rosto sardento, com o queixo projetado para a frente e uma silhueta esbelta e musculosa. Usava saia xadrez com uma suter pesada e escura. Estava com mocassins, 
sem meias.
       Algum sinal da arma?  indagou Kelsey.
      Um dos homens balanou a cabea.  Nenhum sinal, senhor.
       H uma lanterna ali no canto.
       Alguma impresso digital?
       Sim. Da morta.
 Ento era ela quem estava com a lanterna  disse Kelsey pensativo. Veio at aqui com uma lanterna... por qu?  Perguntou em parte para si mesmo, em parte 
para seus homens, para a Srta. Bulstrode e  Srta. Chadwick. Finalmente pareceu se concentrar nesta ltima.  Tem alguma idia?
      A Srta. Chadwick negou com a cabea.  Nenhuma. Suponho que ela possa ter deixado alguma coisa aqui... algo que esquecera  tarde ou  noitinha... e tenha 
vindo buscar. Mas faz-lo no meio da noite me parece inexplicvel.
 Para ela fazer isto deveria ser algo muito importante  comentou Kelsey.
      Ele olhou em torno da sala. Nada parecia fora do lugar, com exceo da prateleira de raquetas de tnis que havia no canto. Esta parecia ter sido violentamente 
puxada para frente. Vrias raquetas estavam cadas no cho.
  lgico  disse a Srta. Chadwick  que ela pode ter visto luz aqui, como a Srta. Johnson viu mais tarde, e ter vindo investigar. Isto me parece o mais provvel.
 Acho que tem razo  concordou Kelsey.  Existe apenas um pequeno problema. Viria ela sozinha?
       Sim  respondeu a Srta. Chadwick sem hesitao.
 Entretanto a Srta. Johnson foi acordar a senhora  lembrou Kelsey.
 Eu sei  disse Chadwick  e  isto o que faria se . tivesse visto luz aqui. Teria acordado a Srta. Bulstrode ou a Srta. Vansittart, ou alguma outra pessoa. 
Mas a Srta. Springer, no. Sentir-se-ia bastante segura. Na verdade, teria preferido agarrar o ladro sozinha.
 Outro ponto...  disse o inspetor.  A senhora saiu pela porta lateral com a Srta. Johnson. A porta estava aberta?
       Sim, estava.
       Provavelmente deixada aberta pela Srta. Springer.
       Esta parece a concluso lgica  falou a Srta. Chadwick.
 Ento presumimos  disse Kelsey  que a Srta. Springer tenha visto luz no ginsio... ou Pavilho de Esporte, seja l como as senhoras o chamam... veio investigar 
e a pessoa que aqui estava atirou nela.  Virou-se para a Srta. Bulstrode, parada imvel junto  porta.  Isto lhe parece correto?  perguntou.
 Nem um pouco  respondeu a Srta. Bulstrode.  Concordo com o senhor quanto  primeira parte. Digamos que a Srta. Springer tenha sado para averiguar por 
conta prpria. Mas que a pessoa que aqui estava tivesse atirado nela... Isto me parece completamente errado. Se havia alguma pessoa, este algum no deveria estar 
aqui e o mais provvel seria que fugisse, ou que pelo menos tentasse. Por que motivo algum viria aqui com um revlver a esta hora da noite?  simplesmente ridculo, 
isto sim:  Ridculo! No h nada neste local para ser roubado, certamente nada pelo qual valesse a pena cometer-se um assassinato.
 A senhora acha mais vivel a hiptese de a Srta. Springer ter perturbado algum encontro?
 Esta  a explicao mais natural e razovel  opinou a Srta. Bulstrode.  Contudo no explica o fato do assassinato. As garotas do meu colgio no costumam 
sair por a carregando revlveres e no parece muito provvel que qualquer jovem com quem elas fossem se encontrar trouxesse um consigo.
      Kelsey concordou.  Sim, teria, no mximo, um canivete. H uma outra alternativa  prosseguiu ele.  Digamos que a Srta. Springer tenha vindo aqui se encontrar 
com um homem...
      A Srta. Chadwick soltou um risinho inesperado.
       Oh, no  disse ela.  No a Srta. Springer.
 No me refiro necessariamente a um encontro amoroso  explicou o inspetor secamente.  Estou sugerindo que o assassinato tenha sido premeditado, que algum 
tinha a inteno de matar a Srta. Springer, que combinaram um encontro neste lugar e atiraram nela.
      

CAPTULO 9
UM GATO ENTRE OS POMBOS
      CARTA de Jennifer Sutcliffe  sua me.
      QUERIDA MAME:
      Ontem houve um assassinato aqui. A vtima foi a Srta. Springer, a professora de Ginstica. Aconteceu no meio da noite e a polcia veio investigar. Esta manh 
fizeram perguntas a todo mundo.
      A Srta. Chadwick disse-nos para no comentarmos o caso com ningum, mas achei que voc gostaria de saber.
                                                      Com carinho,
      JENNIFER
      
II
      
      Meadowbank era um estabelecimento de bastante importncia para merecer ateno especial do Chefe de Polcia. Enquanto as investigaes de rotina eram feitas, 
a Srta. Bulstrode no ficou inativa. Telefonou para um influente jornalista e para o Secretrio de Justia, ambos seus amigos pessoais. Como resultado destas manobras, 
muito pouco a respeito do acontecimento havia aparecido na Imprensa. Uma professora de Ginstica havia sido encontrada morta no ginsio do colgio. Levara um tiro, 
se por acidente ou no, ainda no havia sido esclarecido. A maioria das notcias sobre o ocorrido continha quase que uma nota de desculpa, como se fosse uma gafe 
extrema de qualquer professora de Ginstica se permitir ser assassinada em tais circunstncias.
      Ann Shapland teve um dia ocupado anotando cartas para pais. A Srta. Bulstrode no se deu ao trabalho de dizer s alunas para ficarem caladas a respeito do 
acontecimento. Sabia que isto seria perda de tempo. Era certo que relatos mais ou menos lgubres seriam apresentados aos pais, ou tutores, ansiosos. Ela pretendia 
que o seu prprio relatrio, equilibrado e racional, da tragdia, chegasse a eles ao mesmo tempo.
      Naquela mesma tarde reuniu-se com o Sr. Stone, o Chefe de Polcia, e o Inspetor Kelsey. A polcia concordou plenamente em ter a imprensa abafada o mais possvel. 
Possibilitava-os continuar as investigaes com calma e sem interferncia.
 Lamento muito tudo o que est acontecendo, Srta. Bulstrode, lamento realmente  disse o Chefe de Polcia. Suponho que seja uma coisa ruim para a senhora.
 Assassinato  uma coisa ruim para qualquer colgio  respondeu a Srta. Bulstrode. Mas agora no adianta ficarmos nos estendendo sobre isto. No tenho dvida 
de que vamos superar este incidente, como j superamos outras tempestades. Espero apenas que o assunto seja rapidamente esclarecido.
       No vejo por que no  disse Stone. Olhou para Kelsey.
      Kelsey ento falou:  Ficar mais fcil quando soubermos alguma coisa do passado da vtima.
       O senhor acha mesmo?  perguntou a Srta. Bulstrode secamente.
       Algum pode ter planejado mat-la  sugeriu Kelsey.
      A Srta. Bulstrode no respondeu.
 O senhor acha que tem ligao com este lugar?  perguntou o Chefe de Polcia.
 Na verdade  isto que o Inspetor Kelsey pensa  disse a Srta. Bulstrode. Est apenas tentando poupar meus sentimentos.
 Realmente acho que o crime est ligado a Meadowbank  falou o inspetor devagar.  Afinal de contas, a Srta. Springer tinha dias de folga como todas as outras 
professoras. Se quisesse, poderia ter marcado encontro com algum em qualquer local que desejasse. Por que escolher o ginsio no meio de noite?
 A senhora tem alguma objeo a que se faa uma busca nas dependncias do colgio?  perguntou o Chefe de Polcia.
       Nenhuma. Suponho que o senhor esteja procurando um revlver?
       Sim. Um pequeno revlver de fabricao estrangeira.
 Fabricao estrangeira  repetiu-a Srta. Bulstrode pensativa.
 A senhora tem conhecimento de que algum do seu quadro de empregados, ou alguma de suas alunas, possua um revlver?
 No que seja do meu conhecimento  respondeu Bulstrode.  Quanto s minhas alunas, estou bastante certa de que no possuem nenhuma arma. Seus pertences so 
examinados quando chegam aqui e tal coisa certamente teria sido notada e, posso afirmar, causando muitos comentrios. Mas, por favor, Inspetor Kelsey, faa exatamente 
como desejar. Notei que seus homens andaram procurando pelos jardins.
      O Inspetor Kelsey concordou com a cabea.
      Ele prosseguiu.  Gostaria de interrogar toda a sua equipe. Algum pode ter ouvido algum comentrio vindo da Srta. Springer que nos sirva de pista. Ou pode 
ter observado algum comportamento estranho da parte dela.
      Fez uma pausa e continuou.  O mesmo pode ser aplicado s alunas.
      A Srta. Bulstrode falou:  Planejei uma palestra com as garotas esta noite depois das oraes. Perguntarei se alguma tem conhecimento de qualquer coisa que 
possa estar relacionada com a morte da Srta. Springer. E se assim for, deve revel-lo.
       tima idia  disse o Chefe de Polcia.
 Mas o senhor deve se lembrar  observou a Srta. Bulstrode  de que uma ou outra garota pode querer se fazer de importante exagerando algum incidente, ou 
chegando mesmo a inventar algum. Garotas costumam fazer coisas estranhas. Espero que o senhor esteja acostumado a lidar com esta forma de exibicionismo.
 J me deparei com isto antes  disse o Inspetor Kelsey.  Agora  acrescentou,  por favor, d-me uma lista das pessoas que trabalham aqui; professoras e 
empregados.
      
III
      
       Inspecionei todos os armrios do Pavilho, senhor.
       E no encontrou nada?  disse Kelsey.
 No, senhor, nada de importncia. Em alguns havia coisas engraadas, mas nada que nos interesse.
       Nenhum deles estava trancado, estava?
 No, mas se quiser podem ser trancados. Havia chaves nas fechaduras, entretanto estavam todos abertos.
      Pensativo, Kelsey olhou para o cho vazio. As raquetas de tnis e os bastes haviam sido recolocados ordenadamente nas prateleiras.
 Ah, bem  disse ele,  agora vou at o prdio do colgio dar prosseguimento aos interrogatrios.
       O senhor no acha que foi um trabalho interno?
 Pode ter sido  respondeu Kelsey.  Ningum possui um libi, exceto as duas professoras, Chadwick e Johnson, e a menina que estava com dor de ouvido. Teoricamente, 
todo mundo estava na cama dormindo, entretanto no h ningum para testemunhar isto. Todas as garotas e naturalmente tambm as professoras tm quartos individuais. 
Qualquer uma delas, incluindo a prpria Srta. Bulstrode, poderia ter sado e seguido a Srta. Springer at aqui. Ento, depois de mat-la, ter-se esgueirado calmamente 
por entre os arbustos at a porta lateral e estar confortavelmente de volta  cama quando o alarma foi dado. O motivo  que  difcil de se descobrir  disse Kelsey 
 o porqu. A no ser que esteja acontecendo alguma coisa por aqui de que ns nem desconfiamos, no parece existir nenhum motivo.
      Saiu do Pavilho e encaminhou-se lentamente de volta ao prdio principal. Embora j tivesse passado de seu horrio de trabalho, o velho Briggs, o jardineiro, 
continuava cuidando de um canteiro de flores midas. Ergueu-se quando o inspetor passou.
       O senhor trabalha at tarde  comentou Kelsey com um sorriso.
 Ah!  disse Briggs.  Os jovens no sabem o que  jardinagem. Chegar s oito horas e largar s cinco!... isto  o que eles pensam que .  preciso estudar 
o tempo. Certos dias nem  necessrio vir ao jardim, mas em outros pode-se trabalhar das sete da manh s oito da noite. Isto se voc amar o lugar e tiver orgulho 
de sua aparncia.
      O senhor pode se orgulhar disto aqui  elogiou Kelsey.  Ultimamente no tenho visto nenhum lugar to bem tratado quanto este.
 O senhor est certo  concordou Briggs.  Mas eu tenho sorte. Tenho um jovem forte para trabalhar comigo. E tambm dois garotos, porm estes no so l grande 
coisa. A maioria dos meninos e dos rapazes hoje em dia no querem fazer este tipo de trabalho. Preferem as fbricas, ou o servio de escritrio. No gostam de sujar 
as mos com um pouco de terra honesta. Mas como j disse, tenho sorte. Tenho um bom ajudante trabalhando para mim, que veio oferecer seu servio espontaneamente.
       Recentemente?  indagou o Inspetor Kelsey.
 No incio do semestre  informou Briggs.  Seu nome  Adam, Adam Goodman.
       No me lembro de t-lo visto por aqui.
 Ele hoje me pediu folga  disse Briggs.  Eu concordei. No parecia haver muito o que fazer com toda esta gente andando de um lado para o outro.
 Algum deveria ter-me falado sobre ele  disse Kelsey vivamente.
       O que quer dizer com falado sobre ele?
 Ele no consta da minha lista  explicou o inspetor.  Das pessoas empregadas aqui, quero dizer.
 Ah, bem, o senhor pode v-lo amanh. No que eu acredite que ele tenha alguma coisa para lhe contar.
       Nunca se sabe  falou o inspetor.
      Um jovem saudvel havia se oferecido para trabalhar no comeo do semestre? Kelsey teve a impresso de que ali, pela primeira vez, se deparava com algo um pouco 
fora do comum.
      
IV
      
      Como de hbito, as alunas lotavam o saguo para as oraes. Levantando a mo, a Srta. Bulstrode impediu que se retirassem.
 Tenho algo para lhes dizer. A Srta. Springer, como todas sabem, foi assassinada ontem  noite no Pavilho de Esportes. Se alguma de vocs, na semana passada, 
ouviu ou viu algo... qualquer coisa que as tenha deixado intrigadas e que diga respeito  Srta. Springer, ou qualquer coisa que a prpria Srta. Springer possa ter 
dito sobre si mesma e que vocs considerem importante, eu gostaria de saber. Podem me procurar, esta noite, no meu escritrio.
 Oh  suspirou Jlia Upjohn, enquanto as meninas se retiravam, como eu gostaria que soubssemos de alguma coisa.  Mas no sabemos, no , Jennifer?
       No  respondeu Jennifer.   claro que no.
 A Srta. Springer sempre me pareceu um tipo to comum  falou Jlia com tristeza  comum demais para ser assassinada de modo misterioso.
 No vejo nada de to misterioso assim  falou Jennifer.  Apenas um ladro.
 Roubando nossas raquetas de tnis, suponho?  disse Jlia com sarcasmo.
 Talvez algum estivesse fazendo chantagem com ela  sugeriu a outra garota, esperanosa.
       A respeito de qu?  perguntou Jennifer.
      Porm no conseguiram pensar em nenhum motivo para se chantagear a Srta. Springer.
      
V
      
      O Inspetor Kelsey comeou o interrogatrio com a Srta. Vansittart. Uma bonita mulher, pensou ele, analisando-a. Tinha possivelmente uns 40 anos, ou um pouco 
mais. Era alta, bem feita, cabelos grisalhos arrumados com gosto. Possua dignidade e compostura, com uma certa percepo de sua prpria importncia. Ela fazia lembrar 
um pouco a prpria Srta. Bulstrode; era o tipo exato de uma professora. Mesmo assim, refletiu ele, a Srta. Bulstrode tinha algo que a Srta. Vansittart no possua. 
A Srta. Bulstrode tinha o dom do inesperado. Ele achava que a Srta. Vansittart jamais seria uma pessoa de surpresas.
      Perguntas e respostas seguiram a rotina habitual. De fato, a Srta. Vansittart no havia visto nada, no percebera nada. A Srta. Springer havia sido excelente 
em seu trabalho. Sim, um pouco brusca em suas maneiras, mas no de forma excessiva. Sua personalidade no era muito atraente. Todavia isto realmente no tinha muita 
importncia no caso de uma professora de Ginstica. Na verdade, era bem melhor no ter professoras de personalidade atraente. Impedia que as alunas se tornassem 
sentimentais em relao s mestras. A Srta. Vansittart, no tendo trazido nenhuma contribuio de importncia, retirou-se.
 No vi, no ouvi, no falei. Como os trs macaquinhos  observou o Sargento Percy Bond que auxiliava o Inspetor Kelsey em sua tarefa.
      Kelsey sorriu.   isto mesmo, Percy.
 H alguma coisa em professoras que me deixa de mau humor  falou o sargento.  Tenho horror a elas desde que era menino. Conheci uma que era uma peste. To 
arrogante e pretensiosa que nunca se sabia o que estava tentando ensinar.
      A prxima professora a se apresentar foi Eileen Rich. Feia como o diabo, foi a primeira impresso do Inspetor Kelsey. Depois modificou sua opinio; ela possua 
uma certa atrao. Ele comeou suas perguntas rotineiras, porm as respostas no foram to rotineiras quanto havia esperado. Depois de dizer no, que no notara 
nada, que no ouvira nenhum comentrio especial a respeito da Srta. Springer, ou nada que a prpria Srta. Springer houvesse dito, a prxima resposta de Eileen Rich 
no foi o que ele previra. Ele perguntara:  A senhorita sabe de algum que a odiasse?
 Oh, no  respondeu Eileen Rich de pronto.  Ningum poderia. Sabe, acho que este era o seu drama. O fato de no ser uma pessoa que algum pudesse odiar.
       O que exatamente quer dizer com isto, Srta. Rich?
 Quero dizer que ela no era uma pessoa que algum desejasse destruir. Tudo que ela era e fazia era superficial.  certo que ela incomodava os outros. Freqentemente 
havia troca de palavras speras entre ela e outras pessoas, entretanto isto nada significava. Nada de profundo. Estou certa de que ela no foi morta por ela mesma, 
se o senhor entende o que quero dizer.
       No estou bem certo de que entendo, Srta. Rich.
 Quero dizer que se acontecesse algo como um assalto de banco, ela poderia muito bem ser a caixa que leva um tiro, porm seria como caixa e no como Grace 
Springer. Ningum a amaria ou a odiaria o bastante a ponto de querer acabar com ela. Acho que provavelmente, mesmo sem pensar no assunto, percebia isto e por este 
motivo era to intrometida. Sabe, encontrando falhas, impingindo regras e descobrindo o que as pessoas faziam de errado e as delatando.
       Espionando?  perguntou Kelsey.
 No, no exatamente espionando  refletiu Eileen Rich.  Ela no andaria nas pontas dos ps, escutando atrs das portas, ou qualquer coisa deste tipo. Todavia, 
se notasse que alguma coisa estava acontecendo, que no conseguia compreender, investigava com bastante determinao at chegar ao fundo do problema. E acabava por 
descobrir.
 Entendo.  Ele ficou calado por um momento.  A senhorita no gostava muito dela, gostava, Srta. Rich?
 Acho que nunca me preocupei com ela. Era apenas uma professora de Ginstica. Oh! Que coisa horrvel de se dizer de algum. Apenas isto... apenas aquilo. 
Porm era assim que ela se sentia em relao ao seu trabalho. Era um trabalho do qual se orgulhava em executar bem. Contudo no o achava divertido. No ficava entusiasmada 
ao descobrir uma garota que pudesse ser muito boa em algum esporte, ou realmente boa no tnis. No se alegrava nem se sentia triunfante com a descoberta.
      Kelsey olhou-a com curiosidade. Uma jovem estranha esta a, pensou ele.
 A senhorita parece ter sua idia formada a respeito da maioria das coisas, Srta. Rich  observou ele.
       Sim. Creio que tenho.
       H quanto tempo est em Meadowbank?
       Apenas h um ano e meio.
       Nunca aconteceram problemas antes?
       Em Meadowbank?  Ela parecia assustada.
       Sim.
       Oh, no. At este semestre, tudo sempre correu muito bem.
      Kelsey partiu para o ataque.
 O que tem andado errado neste semestre? No est se referindo ao assassinato, est? Refere-se a outra coisa...
 Eu no...  ela parou.  Sim, talvez sim... mas  tudo muito vago.
       Continue.
 A Srta. Bulstrode no tem andado feliz ultimamente  disse Eileen lentamente.  O senhor no notaria. No creio que mais ningum tenha percebido. Entretanto 
eu notei. E ela no  a nica a se sentir triste. Mas no  isto que o senhor quer saber, ? Falo apenas dos sentimentos das pessoas. O tipo de coisa que acontece 
quando se est confinada a um pequeno grupo e se pensa muito numa s coisa. O senhor quer saber se, neste semestre, h algo que parece no estar certo.  isto?
 Sim  respondeu Kelsey.   sim,  isto. Ento, que me diz?
 Acho que realmente existe algo errado aqui  disse Eileen devagar.   como se houvesse algum entre ns que no pertencesse a este lugar.  Olhou para ele 
sorrindo, quase chegou a rir, e falou:  Um gato entre os pombos,  esta a espcie de sensao que eu tenho. Ns somos os pombos, todas, e o gato est entre ns. 
Mas no conseguimos ver o gato.
       Isto  muito vago, Srta. Rich.
 Sim, no ? Parece uma enorme tolice. Eu mesma posso perceber isto. Suponho que o que realmente quero dizer  que existe alguma coisa, algum detalhe, que 
notei, mas no sei definir.
       A respeito de alguma pessoa em particular?
 No, eu j lhe disse,  apenas isto. No sei quem ; s posso resumir o que eu sinto dizendo que tem algum aqui que... de algum modo...  falso. Algum... 
no sei dizer quem... que me faz sentir inquieta. No quando estou olhando para ela, mas sim quando olha para mim. Porque  a que aparece o que me perturba, seja 
l o que for. Oh, estou ficando cada vez mais incoerente. E, de qualquer maneira,  apenas uma sensao. No  o que o senhor deseja. No se trata de uma evidncia.
 No  concordou Kelsey.  No  uma evidncia. Ainda no. Entretanto  interessante e, se a sua sensao se tornar mais definida, Srta. Rich, ficaria satisfeito 
em tomar conhecimento.
      Ela balanou a cabea.  Sim, porque  muito srio, no ? Quero dizer, o fato de algum ter sido assassinado... no sabemos por que... e o assassino pode 
estar a milhas de distncia ou, por outro lado, pode estar aqui mesmo no colgio. E, se for assim, a pistola, o revlver, ou seja l o que for, deve estar aqui tambm. 
Isto no  muito agradvel, no ?
      Retirou-se fazendo um ligeiro cumprimento com a cabea. O Sargento Bond disse:   maluca... ou o senhor no acha?
 No  respondeu Kelsey.  No acho que seja maluca. Creio que  o que se costuma chamar de pessoa sensitiva. Como as pessoas que sabem quando h um gato 
na sala mesmo antes de t-lo visto. Se ela tivesse nascido numa tribo africana, provavelmente seria uma feiticeira.
 Do tipo das que saem por a farejando o mau, no  isto?  disse o Sargento Bond.
 Isto mesmo, Percy  respondeu Kelsey. E  exatamente isto que estou tentando fazer agora. Ningum me apresentou nenhum fato concreto e assim sendo tenho 
que ir por a farejando as coisas. Bem, mande entrar a professora francesa.

CAPTULO 10
UMA HISTRIA FANTSTICA
MADEMOISELLE ANGLE BLANCHE deveria ter uns 35 anos. No usava nenhuma maquiagem. O cabelo estava bem arrumado, porm de uma forma que no lhe assentava bem. Vestia 
um casaco e uma saia de corte austero.
      Era seu primeiro semestre em Meadowbank, explicou ela, e no estava certa se desejava permanecer no seguinte.
 No  agradvel trabalhar-se num colgio onde ocorrem assassinatos  disse ela em tom reprovador.
      E tambm parecia no existir nenhum alarme contra ladres no prdio do colgio... e isto era muito perigoso.
 No h nada aqui de muito valor para atrair ladres, Mademoiselle Blanche.
      Mademoiselle Blanche encolheu os ombros.
 Como se pode saber? Algumas das garotas que estudam neste colgio so de famlias muito ricas. Podem ter em seu poder alguma coisa de muito valor. Talvez 
o ladro tenha conhecimento do fato e venha at aqui por achar um local muito fcil de ser assaltado.
 Mas no caso de uma garota possuir algo de valor, certamente no o guardaria no ginsio.
 Como  que o senhor pode saber?  perguntou Mademoiselle. L esto os seus armrios, no esto?
 Apenas para guardar seus apetrechos de ginstica e coisas deste tipo.
 Ah, sim, isto  o que se supe. Porm uma garota poderia esconder qualquer coisa na ponta de um sapato de tnis, ou embrulh-la numa suter velha, ou num 
leno.
       Que tipo de coisa, Mademoiselle Blanche?
      Mademoiselle Blanche, entretanto, no tinha idia do que poderia ser.
 Mesmo os pais mais indulgentes no entregariam s suas filhas colares de brilhantes para trazerem para o colgio  afirmou o inspetor.
      Mademoiselle tornou a encolher os ombros.
 Talvez seja algo de um tipo diferente de valor... digamos, um escaravelho, ou algo que um colecionador pagaria muito dinheiro para possuir. Uma das meninas 
 filha de um arquelogo.
      Kelsey sorriu.  Sinceramente, no acho que isto seja provvel. Mademoiselle.
      Ela encolheu os ombros.  Ah, bem, estou apenas dando uma sugesto.
 A senhora j lecionou em algum outro colgio na Inglaterra, Mademoiselle Blanche?
 No norte da Inglaterra, h algum tempo atrs. Lecionei principalmente na Sua e na Fiana. Na Alemanha tambm. Pensei em vir para a Inglaterra a fim de 
aprimorar meu ingls. Tenho uma amiga aqui. Ela adoeceu e disse-me para vir ocupar o seu posto, pois a Srta. Bulstrode ficaria contente em contratar algum rapidamente. 
Ento eu vim. Entretanto no gosto muito deste lugar. Como j lhe disse, no creio que v continuar.
       Por que a senhora no gosta daqui?  insistiu Kelsey.
 No gosto de lugares onde h tiroteios  respondeu Mademoiselle Blanche.  E as crianas no so obedientes.
       Elas no so exatamente crianas, so?
 Algumas se comportam como bebs, outras poderiam bem ter uns 25 anos. Aqui podemos encontrar de todos os tipos. Gozam de liberdade excessiva. Prefiro um 
estabelecimento com mais disciplina.
       A senhora conhecia bem a Srta. Springer?
 Praticamente no a conhecia. Era mal educada e eu conversava com ela o menos possvel. Era toda feita de ossos e sardas e tinha uma voz estridente. Como 
a caricatura de uma mulher inglesa. Freqentemente tratava-me com grosseria e eu no gostava disto.
       Por que motivo era rude com a senhora?
 No gostava que eu fosse ao seu Pavilho de Esportes. Era assim que ela parecia se sentir a respeito do lugar... ou sentia, quero dizer... era o seu Pavilho 
de Esportes. Fui l um dia porque estava curiosa. Era um prdio novo e eu ainda no o havia visitado. Acho-o muito bem construdo e equipado e estava somente dando 
uma olhada. Ento a Srta. Springer apareceu e falou:  O que est fazendo aqui? Voc no tem nada que estar aqui!  Ela disse isto para mim... para mim, uma professora! 
O que pensava que eu fosse, uma estudante?!
 Sim, sim, estou certo de que deve ter sido muito irritante  disse Kelsey acalmando-a.
 Tinha os modos de um cavalo, essa  a verdade. Em seguida gritou:  No v embora levando a chave.  Ela conseguira me perturbar. Quando eu abrira a porta, 
a chave havia cado e eu a apanhara no cho. E por causa dos insultos da Srta. Springer. esqueci-me de recoloc-la. E ento resolve gritar comigo como se pensasse 
que eu pretendia roubar a chave. A sua chave, suponho, como o seu Pavilho de Esportes.
 Isto parece um tanto estranho, no?  comentou Kelsey.  Quero dizer, que se sentisse assim em relao ao ginsio. Como se fosse propriedade sua, como se 
temesse que algum encontrasse algo que escondera por l.
      Falou assim, tentando uma insinuao, entretanto Angle Blanche apenas riu.
 Esconder alguma coisa no Pavilho de Esportes... o que  possvel se esconder num lugar como aquele? O senhor acha que ela escondia suas cartas de amor? 
Tenho certeza de que jamais lhe escreveram uma! As outras professoras, pelo menos, so educadas. A Srta. Chadwick  antiquada, meticulosa, perturba um pouco. A Srta. 
Vansittart  muito gentil, grand dame, simptica. A Srta. Rich  um pouco maluca, porm amigvel. E as professoras mais jovens so bastante agradveis.
      Aps mais algumas perguntas sem importncia, Angle Blanche foi dispensada.
  cheia de melindres  observou Bond.  Todos os franceses so assim.
 De qualquer modo foi interessante  comentou Kelsey.  Ficamos sabendo que a Srta. Springer no gostava de gente rondando seu ginsio... Pavilho de Esportes... 
no sei bem como chamar aquele negcio. Agora, por qu?
 Talvez achasse que a mulher francesa a estivesse espionando  sugeriu Bond.
 Bem, mas por que ela pensaria assim? Quero dizer, a no ser que tivesse algo para esconder, que importncia teria que Angle Blanche a espionasse?
       Quem falta ainda a ser interrogada?
 As duas professoras mais jovens, a Srta. Blake e a Srta. Rowan, e a secretria da Srta. Bulstrode.
      A Srta. Blake era jovem e cheia de vivacidade, com um rosto redondo e bem-humorado. Ensinava Botnica e Fsica. Nada tinha para declarar que pudesse ajudar. 
Vira poucas vezes a Srta. Springer e no tinha a menor idia do que poderia ter causado sua morte.
      A Srta. Rowan, como convinha a algum dono de um diploma de psicologia, tinha pontos de vista a expressar. Era muito provvel, disse ela, que a Srta. Springer 
tivesse cometido suicdio.
      O Inspetor Kelsey levantou as sobrancelhas.
       Por que motivo? Ela era uma pessoa infeliz?
 Era agressiva  explicou a Srta. Rowan, inclinando-se para a frente e olhando com ansiedade atravs de suas grossas lentes.  Muito agressiva. Considero 
isto significativo. Era um mecanismo de defesa para esconder um sentimento de inferioridade.
 Tudo que ouvi at agora  disse o Inspetor Kelsey apontam-na como uma pessoa muito segura de si.
 Segura demais  retrucou a Srta. Rowan sombriamente.  E muitas das coisas que falou sustentam a minha opinio.
       Como o que, por exemplo?
 Ela se referiu ao fato de as pessoas no serem o que parecem. Mencionou que no ltimo colgio onde trabalhara havia desmascarado algum. A diretora, entretanto, 
fora preconceituosa, recusando-se a ouvir o que ela descobrira. E tambm vrias outras professoras tinham ficado contra ela. Sabe o que isto significa, inspetor? 
 Por pouco a Srta. Rowan no cai da cadeira, ao se inclinar para a frente, agitada. Mechas de cabelo escuro caam sobre seu rosto. Os primeiros sintomas de um complexo 
de perseguio.
      O Inspetor Kelsey, educadamente, disse  Srta. Rowan que ela poderia estar certa em sua suposio, mas que entretanto ele no poderia aceitar a hiptese de 
suicdio, a no ser que ela, Srta. Rowan, pudesse explicar como a Srta. Springer conseguira atirar em si mesma de uma distncia de pelo menos dois metros, e depois 
ter feito com que o revlver desaparecesse em pleno ar.
      A Srta. Rowan retrucou azedamente que a polcia era bem conhecida por seu preconceito contra a psicologia.
      Ela ento lanou um olhar para Srta. Shapland.
      Bem, Srta. Shapland, falou o Inspetor Kelsey notando com satisfao a aparncia eficiente e bem arrumada.  Que esclarecimentos a senhorita poderia nos oferecer?
 Absolutamente nenhum, lamento. Tenho minha prpria sala e raramente vejo as professoras. Tudo isto  inacreditvel.
       Inacreditvel, como?
 Bem, primeiro o fato de a Srta. Springer ter sido assassinada. Comentam que algum arrombou o ginsio e que ela foi l ver quem era. Acho que at a est 
tudo certo, mas quem iria querer arrombar um ginsio?
 Garotos, talvez, alguns jovens da redondeza que desejavam se apossar de algum tipo de equipamento esportivo, ou algum que o fez por simples farra.
 Se  assim, no posso deixar de pensar que a Srta. Springer teria dito o seguinte:  Ora essa, o que vocs esto jazendo aqui? Saiam j.  e eles teriam 
sado.
 Alguma vez lhe pareceu que a Srta. Springer adotava alguma atitude especial em relao ao Pavilho de Esportes?
      Ann Shapland pareceu intrigada.  Atitude especial?
 Refiro-me a ela consider-lo como territrio seu e de no gostar que outras pessoas entrassem l.
 Que eu saiba, no. Por que ela agiria assim?  apenas parte das dependncias do colgio.
 A senhorita nunca percebeu nada? No notou que se fosse l ela ficaria ressentida com a sua presena... algo deste tipo?
      Ann Shapland balanou a cabea.  No fui l mais do que umas duas vezes. No tenho tempo. Nestas ocasies, fui levar recado da Srta. Bulstrode para alguma 
aluna. Apenas isto.
 No sabia que a Srta. Springer havia desaprovado o fato de Mademoiselle Blanche ter ido l?
 No, no ouvi nada a este respeito. Oh, sim, creio que sim. Mademoiselle Blanche estava magoada com alguma coisa, mas ela  um tanto sensvel, o senhor sabe. 
Tem a histria de ela ter entrado, certa ocasio, na sala de desenho e ter ficado ressentida com algo que a professora lhe dissera.  lgico que ela no tem muito 
o que fazer... refiro-me a Mademoiselle Blanche. Ensina apenas uma matria... Francs, e lhe sobra bastante tempo livre. Acho que...  ela hesitou  acho que talvez 
ela seja uma pessoa um tanto curiosa.
 Acredita ser possvel que quando Mademoiselle esteve no Pavilho de Esportes mexesse em algum armrio?
 Nos armrios das garotas? Bem, no acho impossvel. Seria uma maneira de se distrair.
       A Srta. Springer tambm tinha um armrio s dela?
        claro que sim.
 Se Mademoiselle Blanche fosse apanhada mexendo no armrio da Srta. Springer, ento posso acreditar que a a Srta. Springer realmente ficaria aborrecida?
       Certamente que ficaria.
 A senhorita no sabe nada sobre a vida particular da Srta. Springer?
 Creio que ningum sabe  respondeu Ann.  Ser que tinha alguma?
 E no h mais nada... nada ligado ao Pavilho de Esportes, por exemplo, que a senhorita no me contou?
       Bem...  Ann hesitou.
       Sim, Srta. Shapland, fale.
 No  nada importante  disse Ann lentamente.   que certo dia vi um dos jardineiros... no o Briggs, o outro, o rapaz, saindo do Pavilho e ele no tinha 
nada que estar l. Provavelmente tratava-se apenas de curiosidade da parte dele... ou talvez de uma desculpa para se afastar um pouco do trabalho. Ele deveria estar 
pregando uma tela de arame em volta da quadra de tnis. No creio que, na realidade, isto seja importante.
 Contudo a senhorita no se esqueceu  assentou Kelsey. Por qu?
 Acho que...  ela franziu a testa.  Sim, porque seu jeito era um pouco estranho. Desafiante. E ele falou com sarcasmo a respeito do dinheiro gasto com as 
garotas.
       Ah, este tipo de atitude... entendo.
       No acredito que isto seja de relevncia.
       Provavelmente no, mas mesmo assim vou anotar o fato.
 Voltas e mais voltas sem se sair do lugar  disse Bond quando Ann se retirou.  Sempre a mesma coisa. Pelo amor de Deus, espero que os empregados nos revelem 
alguma coisa.
      Porm conseguiram muito pouco destes.
 No adianta me perguntar nada, moo  falou a Sra. Gibbons, a cozinheira.  Primeiro porque no consigo ouvir o que diz e segundo porque no sei de nada. 
Ontem  noite fui dormir e tive um sono muito pesado. No ouvi nada da confuso. Ningum me acordou para contar nada. Ela parecia ofendida. S soube esta manh.
      Kelsey berrou algumas perguntas e conseguiu umas poucas respostas que nada diziam.
      A Srta. Springer comeara a trabalhar ali naquele semestre e no era to querida quanto a Srta. Jones que anteriormente ocupava o cargo. A Srta. Shapland tambm 
era novata, mas era uma jovem simptica. Mademoiselle Blanche era como todas as francesas... pensava que as outras professoras eram contra ela e permitia que as 
alunas a tratassem com desrespeito durante as aulas.  Entretanto, no  chorona  admitiu a Sra. Gibbons. Em algumas escolas que estivera, as professoras de Francs 
costumavam chorar um bocado.
      A maioria das empregadas domsticas era diarista. Havia somente uma outra empregada que dormia no colgio. Esta tambm mostrou desconhecimento de fatos, embora 
capaz de ouvir o que lhe falavam. No sabia de nada. A Srta. Springer era um pouco rspida. Nada sabia a respeito do Pavilho de Esportes nem do que era guardado 
l e jamais vira algo parecido com um revlver.
      Esta torrente de informaes vazias foi interrompida pela Srta. Bulstrode.  Uma das alunas gostaria de falar com o senhor, Inspetor Kelsey  disse ela.
      Kelsey olhou-a vivamente.   mesmo? Ela sabe de alguma coisa? 
 Quanto a isto tenho as minhas dvidas  respondeu a Srta. Bulstrode.  Mas  melhor o senhor falar com ela pessoalmente.  uma de nossas alunas estrangeiras. 
Princesa Shaista... sobrinha do Emir Ibrahim. Talvez esteja propensa a imaginar que  bem mais importante do que o  na realidade. O senhor entende?
      Kelsey balanou a cabea de modo afirmativo. A Srta. Bulstrode ento se retirou e uma garota morena de estatura mdia entrou.
      Olhou-os com seus olhos amendoados.
       Os senhores so da polcia?
 Sim  disse Kelsey sorrindo.  Somos da polcia. Por favor, sente-se e conte-nos o que sabe a respeito da Srta. Springer.
       Sim, vou contar.
      Sentou-se, inclinou-se para a frente e baixou a voz dramaticamente.
 Existem pessoas vigiando este lugar. No se mostram s claras, mas esto a.
      Ela balanou a cabea de modo significativo.
      O inspetor percebeu o que a Srta. Bulstrode havia querido dizer. Aquela garota estava dramatizando... e se divertindo com aquilo.
       E por que motivo estariam vigiando o colgio? 
       Por minha causa. Querem me raptar.
      Seja l o que Kelsey estivesse esperando ouvir, no era bem aquilo. Levantou as sobrancelhas.
       Por que iriam querer rapt-la?
 Para conseguir o resgate,  claro. Fariam meus pais pagarem muito dinheiro.
 Er... bem...  possvel  disse Kelsey duvidando.  Mas... er... supondo que isto seja verdade, o que tem a ver com a morte da Srta. Springer?
 Ela deve t-los descoberto  explicou Shaista.  Talvez lhes tenha dito que descobrira algo. Talvez os tenha ameaado. Ento  possvel que lhe tenham prometido 
dinheiro em troca de seu silncio. E, acreditando neles, foi at o Pavilho de Esportes onde ficara combinado que o dinheiro seria entregue. E ento a mataram.
 Mas certamente a Srta. Springer jamais aceitaria dinheiro de chantagem.
 O senhor acha que  muito divertido ser professora... professora de Ginstica?  Shaista falava com desdm.  O senhor no acha que seria bem melhor ter 
dinheiro, viajar, poder fazer o que se tem vontade? Especialmente algum como a Srta. Springer que no era bonita, e para quem os homens nem olhavam? No acha que 
o dinheiro poderia atra-la mais do que qualquer outra pessoa?
 Bem... er...  disse o Inspetor Kelsey  no sei bem o que dizer. Nunca lhe haviam apresentado este ponto de vista antes.
 Isto  apenas... er... idia sua?  perguntou.  A Srta. Springer nunca mencionou nada a voc?
 A Srta. Springer nunca dizia nada alm de Abaixa, levanta!, Mais depressa! e No pare!  disse Shaista com ressentimento.
 , acredito. Bem, ser que toda esta histria de rapto no  imaginao sua?
      Na mesma hora, Shaista ficou aborrecida.
 O senhor no compreende nada. Meu primo era o Prncipe Ali Yusuf de Ramat. Ele morreu na revoluo, ou pelo menos quando fugia dela. Estava combinado que 
quando eu crescesse me casaria com ele. Sendo assim, o senhor pode ver que sou uma pessoa importante. Talvez sejam os comunistas. Talvez no pretendam raptar-me 
e sim me assassinar!
      O Inspetor Kelsey parecia cada vez mais incrdulo.
      - Isto me parece um pouco forado, no acha?
 O senhor pensa que tais coisas no podem acontecer? Garanto-lhe que podem. Os comunistas so muito perversos. Todo mundo sabe disto.
      Como ele ainda parecia duvidar, ela prosseguiu:
       Talvez pensem que eu saiba onde esto as pedras preciosas.
       De que est falando?
 Meu primo possua pedras preciosas de muito valor. Assim tambm como seu pai. Minha famlia sempre teve uma reserva de pedras preciosas escondida. Para casos 
de emergncia, o senhor entende.
      Ela fez com que parecesse uma coisa trivial. 
      Kelsey a encarou.
 Mas o que  que isto tudo tem a ver com voc, ou com a Srta. Springer?
 Eu j lhe disse. Talvez pensem que eu saiba onde esto as pedras preciosas. E pretendam me prender para me obrigar a falar.
       E, por acaso, voc sabe onde elas esto?
 No,  claro que no sei. Desapareceram durante a revoluo. Vai ver que os malvados dos comunistas as roubaram, mas tambm pode ser que no.
       A quem elas pertencem?
 Agora que meu primo morreu, pertencem a mim. No h mais homens na famlia dele. Minha tia, a me dele, est morta. Ali Yusuf gostaria que eu ficasse com 
elas. Se no tivesse morrido, eu me teria casado com ele.
       Era este o combinado?
       Eu teria que me casar com ele. Ele era meu primo, entende?
       E ao se casar com ele, voc herdaria as jias?
 No, eu ganharia jias novas. Do Cartier de Paris. As outras continuariam guardadas para casos de emergncia.
      O Inspetor Kelsey piscou os olhos e deixou que este sistema de seguro para emergncias  moda oriental penetrasse na sua conscincia.
      Shaista continuava com grande animao.
 Acho que foi isto que aconteceu. Algum levou as pedras para fora de Ramat. Talvez uma pessoa boa, talvez m. Uma pessoa boa traria as pedras para mim e 
diria:  So suas.  e eu lhe daria uma recompensa.
      Balanou a cabea satisfeita, desempenhando o seu papel.
       Uma atriz e tanto!  pensou o inspetor.
 Mas se fosse uma pessoa m  prosseguiu Shaista  ficaria com as jias e as venderia. Ou viria at mim e diria:  O que voc me daria em troca se eu as trouxesse 
para voc?  e se valesse a pena, ele as traria... mas caso contrrio, no.
       Mas na realidade, ningum lhe falou nada, no ?
       No  admitiu Shaista. 
      O Inspetor Kelsey decidiu-se.
 Sabe  disse ele suavemente  acho que voc est falando um monte de bobagens.
      Shaista lanou-lhe um olhar furioso.
 S lhe contei o que sabia. Apenas isto  respondeu ela de mau-humor.
       Sim... bem,  muita gentileza sua, e no vou me esquecer.
      Levantou-se e abriu a porta para ela sair.
 Contos das mil-e-uma-noites, no ? Rapto e jias fabulosas  disse ele tornando a se sentar.  Que ir em seguida? 

CAPTULO 11
ENTREVISTA
QUANDO O INSPETOR KELSEY voltou  delegacia, o sargento era servio informou-lhe: O Sr. Adam Goodman est lhe aguardando, senhor.
       Adam Goodman? Oh, sim. O jardineiro.
      Um jovem havia se levantado respeitosamente. Era alto, moreno e bem apessoado. Usava calas de brim desbotado presas por um cinto velho e uma camisa de peito 
aberto de um azul muito vivo.
       Fui informado de que o senhor desejava me ver...
      Sua voz era rouca e, como a de muitos jovens de hoje em dia, ligeiramente rude.
      Kelsey disse simplesmente:  Exato. Venha at  minha sala.
 Eu so sei nada sobre o crime  afirmou Adam Goodman mal-humorado.  No tenho nada a ver com isto. Ontem  noite estava em casa dormindo.
      Kelsey meramente balanou a cabea sem externar opinio.
      Sentou-se  sua mesa e fez meno para que o jovem se sentasse na cadeira em frente. Um jovem policial vestido  paisana, que os seguira discretamente, acomodou-se 
a pouca distncia.
 Bem, ento voc  Goodman  disse o Inspetor Kelsey olhando para as anotaes sobre a mesa  Adam Goodman!
       Sim, senhor. Porm gostaria de primeiro lhe mostrar isto.
      As maneiras de Adam mudaram. No havia mais rudeza nem mau-humor.
      Estava calmo e respeitoso. Tirou algo do bolso e entregou ao inspetor. O Inspetor Kelsey ergueu ligeiramente as sobrancelhas ao ler o papel. Em seguida levantou 
a cabea.
       No vou precisar de voc, Barber  disse ele.
      O discreto jovem policial levantou-se e saiu. Conseguiu no parecer surpreso embora estivesse.
 Ah!  exclamou Kelsey. Olhou para Adam com curiosidade e interesse.  Ento esta  a sua verdadeira identidade. Gostaria de saber que diabo voc est...
 Fazendo num colgio de moas?  o jovem completou a frase para ele. Sua voz ainda continuava respeitosa, porm ele no pde deixar de sorrir.  Certamente 
 a primeira vez que tenho uma misso deste tipo. No pareo um jardineiro?
 No como os que eu vejo por este lados. Normalmente so pessoas bastante idosas. Voc entende alguma coisa sobre jardinagem?
 Bastante. Tenho uma dessas mes com mania de jardinagem. Cuidou para que eu me tornasse um valioso ajudante seu.
 E o que, exatamente, est acontecendo em Meadowbank... para traz-lo  cena?
 Na verdade, no sabemos se est acontecendo alguma coisa em Meadowbank. Minha misso  a de um observador a distncia, ou era... at ontem  noite. Assassinato 
de uma professora de Ginstica!... No  bem de um currculo colegial.
 Mas pode acontecer  disse o Inspetor Kelsey. Suspirou.  Qualquer coisa pode acontecer... em qualquer lugar. Aprendi isto. Mas devo admitir que este caso 
 um tanto fora de rotina. O que haver por trs disto?
      Adam contou-lhe. Kelsey escutou-o com interesse.
 Cometi uma injustia com aquela garota  comentou ele.  Mas voc deve admitir que parece fantstico demais para ser verdade. Pedras preciosas no valor de 
quase um milho de libras. A quem voc disse que elas pertenciam?
 Esta  uma boa pergunta. Para respond-la, seria preciso um bando de advogados internacionais trabalhando nisto e provavelmente teriam opinies discordantes. 
O caso poderia ser analisado de vrios ngulos. H trs meses atrs, elas pertenciam  sua Alteza, o Prncipe Ali Yusuf de Ramat. Mas e agora? Se elas aparecessem 
em Ramat, tornar-se-iam propriedade do atual Governo, e tomariam todas as providncias para que assim fosse. Existe tambm a possibilidade de Ali Yusuf t-las deixado 
em testamento para algum. Neste caso, muito dependeria de se poder provar a legalidade do documento. Podem tambm pertencer  famlia dele. Mas a verdadeira essncia 
da questo  que, se por acaso acontecesse de o senhor ou eu encontrarmos as pedras preciosas na rua e se as guardssemos em nossos bolsos, para todos os efeitos, 
nos pertenceriam. Quero dizer, duvido que exista algum mecanismo legal que pudesse tir-las de ns. Poderiam tentar,  lgico, porm a complexidade das leis internacionais 
 incrvel...
 Quer dizer que falando de um ponto de vista prtico,  achar e guardar?  perguntou o Inspetor Kelsey. Balanou a cabea reprovando.  Isto no  muito bom 
 disse afetadamente.
 No  concordou Adam com firmeza.  No  nada bom. E  preciso levar em conta tambm que existe um bando de pessoas atrs delas. Todas, pessoas sem escrpulos. 
As histrias se espalham, o senhor sabe: pode ser um boato, pode ser verdade, mas o que se conta  que as pedras foram levadas para fora de Ramat pouco antes de 
a revoluo estourar. Existe uma dzia de histrias diferentes de como foi feito.
 Mas por que Meadowbank? Por causa da Princesa das mil-e-uma-noites?
 A Princesa Shaista, prima em primeiro grau de Ali Yusuf. Sim. Algum pode tentar entregar-lhe os bens, ou ento se comunicar com ela. Do nosso ponto de vista, 
h algumas pessoas suspeitas rondando as proximidades. Uma tal Sra. Kolinsky, por exemplo, que est no Grande Hotel.  membro proeminente do que poderia ser descrito 
como Riff-Raff Internacional, Ltda. Nada que diga respeito  polcia, tudo estritamente dentro da lei, tudo honesto; contudo,  uma pessoa perita em recolher informaes. 
H tambm uma mulher que danava num cabar em Ramat. Obtivemos a informao de que ela andou trabalhando para um certo governo estrangeiro. No sabemos onde se 
encontra agora, nem mesmo que cara tem, mas existe um boato de que ela pode estar por esta parte do mundo. Parece, no , como se tudo estivesse se concentrando 
em torno de Meadowbank? E ontem  noite a Srta. Springer  assassinada.
      Kelsey balanou a cabea pensativo.
 Uma confuso e tanto  observou ele. Lutou por um momento com seus sentimentos.  A pessoa v este tipo de coisa no cinema... um exagero...  o que se pensa... 
no pode acontecer na realidade. E no acontece... no no curso natural.
 Agentes secretos, roubo, violncia, assassinato, traio  concordou Adam.  Tudo absurdo... porm este lado da vida existe.
       Mas no em Meadowbank.
      Estas palavras foram arrancadas do Inspetor Kelsey.
       Percebo o que quer dizer  falou Adam  lesa-majestade.
      Ficaram calados por uns instantes e, em seguida, o Inspetor Kelsey perguntou:  O que voc acha que aconteceu ontem  noite?
      Adam no se apressou em responder e, quando falou, disse devagar:  Springer estava no Pavilho de Esportes no meio da noite? Por qu? Temos que comear por 
a. De nada adianta nos indagarmos quem a matou at que tenhamos decidido por que motivo estava l, quela hora da noite. Podemos dizer que, apesar de sua vida impecvel 
e esportiva, ela no estava conseguindo conciliar o sono, e ento levantou-se, olhou pela janela e viu uma luz no Pavilho de Esportes... a janela do quarto dela 
d naquela direo?
      Kelsey concordou com a cabea.
 Sendo uma jovem valente e destemida, resolveu sair para investigar. Ela perturbou algum que l estava... fazendo o qu? Ns no sabemos. Mas era uma pessoa 
desesperada o bastante para atirar para matar.
      Mais uma vez Kelsey concordou com a cabea.
  deste modo que tambm estamos analisando o caso  disse ele.  E quanto a esta ltima parte, tenho pensado nela o tempo todo. Ningum atira para matar... 
ou vem armado para tal, a no ser...
 A no ser que esteja atrs de algo muito importante. Concordo! Este  o caso que poderamos chamar de a Inocente Springer... morta no cumprimento do dever. 
Mas existe uma outra possibilidade. Springer como resultado de informaes particulares consegue um emprego em Meadowbank, ou  designada por seus chefes por suas 
qualificaes. Espera por uma noite propcia, e ento sai escondida para o Pavilho de Esportes... (novamente tropeamos numa pergunta... por qu?) Algum a segue... 
ou espera por ela... algum carregando um revlver e pronto para us-lo... Mas novamente por qu? Para qu? Alis, que diabo h com este Pavilho de Esportes? No 
 o tipo do lugar que algum pense em usar para esconder alguma coisa.
 No havia nada escondido l, posso-lhe garantir. Fizemos uma revista minuciosa nos armrios das garotas e tambm no da Srta. Springer. Encontramos apenas 
material esportivo de todo tipo, tudo normal e dentro dos regulamentos. E  um prdio novo em folha. L no havia nada que parecesse com jias.
 O que quer que fosse, pode ter sido levado. Pelo assassino,  claro  observou Adam.  A outra possibilidade e que o Pavilho de Esportes tenha sido usado 
como um lugar para um encontro... pela Srta. Springer, ou por uma outra pessoa.  um lugar bem jeitoso para isto. Fica a uma distncia razovel do prdio do colgio. 
No longe demais. E se algum fosse visto indo para l, uma explicao simples poderia ser dada, que se pensou ter avistado uma luz, etc., etc. Digamos que a Srta. 
Springer tenha ido l se encontrar com algum... houve um desentendimento e ela levou um tiro. Ou, uma outra hiptese, a Srta. Springer viu algum saindo do colgio, 
seguiu esta pessoa, intrometeu-se em algo que no devia ver ou ouvir.
 No a conheci viva  disse Kelsey,  mas pelo que dizem dela, tenho a impresso de que talvez fosse uma mulher bisbilhoteira.
 Acho esta a explicao mais provvel  concordou Adam.  A curiosidade matou o gato. Sim, creio que isto explica o porqu do Pavilho de Esportes.
       Mas se foi um encontro, ento...  Kelsey fez uma pausa.
      Adam balanou a cabea com firmeza.
 Sim. Parece que h algum naquele colgio que merece ateno especial. Um gato entre os pombos,  isto.
 Um gato entre os pombos  repetiu Kelsey, impressionado com a frase. Hoje a Srta. Rich, uma das professoras, falou algo assim.
      Refletiu por uns minutos.
 Neste semestre, entraram trs novas auxiliares para a equipe da Srta. Bulstrode. Shapland, a secretria, Blanche, a professora de Francs, e,  claro, a 
prpria Srta. Springer. Esta est morta e fora de questo. Se existe um gato entre os pombos, parece-me que uma dessas duas seria a mais provvel.  Olhou para Adam. 
 Alguma idia, sobre qual delas poderia ser?
      Adam pensou.
 Certo dia, encontrei Mademoiselle Blanche saindo do Pavilho de Esportes. Estava com uma expresso de culpa como se tivesse andado fazendo algo que no devesse. 
Mesmo assim, no todo, acho que apostaria na outra. Na Shapland. Tem sangue frio e inteligncia. Se eu fosse o senhor, investigaria cuidadosamente os seus antecedentes. 
Por que diabo est rindo?
      Kelsey estava sorrindo.
 Ela suspeitava de voc  disse ele.  Pegou voc saindo do Pavilho de Esportes... e achou que havia algo de estranho em seu jeito.
 Ora, que diabo!  Adam estava indignado.  Que audcia a dela.
      O Inspetor Kelsey reassumiu sua maneira autoritria.
 O fato,  que  disse ele  por aqui temos muito respeito por Meadowbank.  um excelente colgio. E a Srta. Bulstrode  uma tima pessoa. Quanto mais cedo 
resolvermos isto, melhor para o colgio. Queremos esclarecer tudo e entregar a Meadowbank um atestado de bom comportamento.
      Fez uma pausa enquanto olhava pensativo para Adam.
 Acho que teremos que contar  Srta. Bulstrode quem voc . Ela guardar silncio... no receie quanto a isto.
      Adam refletiu por um instante. Em seguida balanou a cabea.
 Sim  concordou.  Acho que, nessas circunstncias,  mais ou menos inevitvel.

CAPTULO 12
LMPADAS NOVAS POR VELHAS
A SRTA. BULSTRODE tinha uma outra qualidade que demonstrava sua superioridade sobre a maioria das mulheres. Sabia ouvir.
      Ouviu em silncio o Inspetor Kelsey e Adam. O mximo que fez foi levantar uma sobrancelha. Em seguida, pronunciou uma nica palavra:  Notvel.
      A senhora  que  notvel, pensou Adam, mas no exprimiu a sua opinio em voz alta.
 Bem  disse a Srta. Bulstrode indo, como de costume, direto ao ponto.  O que querem que eu faa?
      O Inspetor Kelsey pigarreou.
 Achamos que a senhora deveria estar plenamente informada... para o bem do colgio.
      A Srta. Bulstrode fez um gesto concordando.
 Naturalmente  disse ela.  O colgio  minha maior preocupao. Tem que ser. Sou responsvel pelo bem-estar e segurana de minhas alunas e, num grau menor, 
por todos aqueles que trabalham comigo. E agora gostaria de acrescentar que, quanto menos publicidade houver em torno da morte da Srta. Springer, melhor para mim. 
Este  um ponto de vista puramente egosta... embora ache meu colgio importante por si mesmo... no apenas para mim. E compreendo perfeitamente bem que, se para 
os senhores for necessrio haver publicidade total, ento tero que ir adiante. Mas ser preciso?
 No  respondeu o Inspetor Kelsey.  Eu diria que, neste caso em particular, quanto menos publicidade melhor. O inqurito ser adiado e espalharemos que 
achamos que se trata de assunto local. Ladres... ou delinqentes juvenis, como os chamamos hoje em dia... com revlveres... uns irresponsveis no uso do gatilho. 
Normalmente carregam canivetes, porm alguns destes rapazes, vez ou outra, conseguem arranjar revlveres. A Srta. Springer os surpreendeu. Atiraram nela. Isto  
o que eu gostaria que fosse espalhado... a ento poderamos trabalhar com tranqilidade. Na Imprensa, apenas o que no puder ser evitado. Mas  evidente que Meadowbank 
 famoso.  notcia. E assassinato em Meadowbank  notcia quente.
 Creio que posso ajud-lo nesta parte  disse a Srta. Bulstrode com deciso.  Tenho prestgio com pessoas que ocupam altos postos.
      Ela sorriu e citou alguns nomes. Estes incluam o Secretrio do Interior, dois magnatas da Imprensa, um bispo, o Ministro da Educao.  Farei o que for possvel. 
 Olhou para Adam.  Concorda?
      Adam respondeu rapidamente:
 Sim,  claro. Sempre gostamos das coisas feitas com discrio.
 O senhor vai continuar como meu jardineiro?  indagou a Srta. Bulstrode.
 Se a senhora no fizer objeo. Permita-me ficar exatamente onde quero. E posso estar de olho no que se passa.
      Desta vez a Srta. Bulstrode realmente ergueu as sobrancelhas.
 Espero que o senhor no esteja esperando por um outro assassinato.
       No, no.
 Fico satisfeita em saber disto. Duvido que algum colgio pudesse sobreviver a dois assassinatos num s semestre.
      Ela se dirigiu para Kelsey.
 Os senhores j terminaram com o Pavilho de Esportes?  muito inconveniente no podermos us-lo.
 J terminamos nosso trabalho. De nossa parte est liberado. Seja por que motivo o crime foi cometido, no h nada l agora que nos possa ajudar.  apenas 
um Pavilho de Esportes com seus equipamentos usuais.
       No encontraram nada nos armrios das garotas? 
      O Inspetor Kelsey sorriu.
 Bem, uma coisa ou outra... uma cpia de um livro francs, chamado Candide... com... er... ilustraes. Um livro caro.
 Ah  exclamou a Srta. Bulstrode.  Ento  l que ela o guarda. Giselle dAubray, suponho?
      O respeito de Kelsey pela Srta. Bulstrode aumentou.
 Nada lhe escapa, no  Srta. Bulstrode? A senhora est sempre a par de tudo  disse ele.
 Candide no lhe trar nenhum mal  observou a Srta. Bulstrode.  Trata-se de um clssico.  lgico que certos tipos de pornografia eu apreendo. Agora volta 
a minha pergunta inicial. Os senhores aliviaram o meu pensamento a respeito da publicidade ligada ao colgio. E o colgio pode ajud-los de alguma forma? Eu posso 
ajud-los?
 No momento, penso que no. A nica coisa que desejo  perguntar-lhe se, neste semestre, alguma coisa lhe causou inquietao? Algum incidente? Ou alguma pessoa?
      A Srta. Bulstrode ficou calada por uns instantes. Ento, falou vagarosamente:  Literalmente, a resposta : no sei.
      Adam falou apressado:  A senhora tem a sensao de que algo est errado?
 Sim. Apenas isto. Nada definido. No posso apontar ningum, ou nenhum incidente... a no ser...
      Ficou em silncio por um momento e, em seguida, disse:
 Sinto... senti na ocasio... que havia perdido algo que no deveria ter perdido. Deixe-me explicar.
      Relatou resumidamente o pequeno incidente com a Sra. Upjohn e a lamentvel e inesperada chegada de Lady Vernica.
      Adam estava interessado.
 Vamos esclarecer bem isto, Srta. Bulstrode. A Sra. Upjohn olhando pela janela, a janela da frente, que d para o passeio, reconheceu algum. No h nada 
de estranho nisso. A senhora tem mais de cem alunas e  bastante natural que a Sra. Upjohn tenha visto alguma me, pai ou parente que conhecesse. Porm a senhora 
est segura de que ela ficou surpresa em reconhecer esta pessoa... na verdade, era algum que ela no esperava encontrar em Meadowbank.
       Sim, foi exatamente esta a impresso que tive.
 E ento, pela janela que d para o lado oposto, a senhora viu a me de uma de suas alunas em estado de embriaguez e isto desviou completamente sua ateno 
do que a Sra. Upjohn estava falando.
      A Srta. Bulstrode concordou com a cabea.
       Ela falou durante alguns minutos? 
       Sim.
 E quando sua ateno voltou-se para ela, estava falando a respeito de espionagem, do servio secreto que fizera durante a guerra, antes de se casar?
       Sim.
 Pode ser que tenha ligao  disse Adam pensativo.  Algum que ela conhecera durante a guerra. Um dos pais, ou parentes de uma de suas alunas, ou poderia 
ser alguma de suas professoras.
       Acho isto difcil  contestou a Srta. Bulstrode.
       Mas no impossvel.
  melhor entrarmos em contato com a Sra. Upjohn o mais rpido possvel  disse Kelsey.  A senhora tem o endereo dela, Srta. Bulstrode?
  lgico. Mas creio que no momento se encontra no estrangeiro. Espere, vou verificar.
      Apertou o boto da campainha de sua mesa duas vezes. Ento, impaciente, foi at  porta e chamou uma garota que estava passando.
       Por favor, Paula, diga a Jlia Upjohn para vir at aqui.
       Pois no, Srta. Bulstrode.
  melhor eu me retirar antes que a garota chegue  observou Adam.  No pareceria natural eu estar presente aos interrogatrios do inspetor. Para todos os 
efeitos, ele me chamou aqui para ver se conseguia arrancar alguma coisa de mim. Tendo se certificado de que, pelo menos por enquanto, no conseguia, mandou que eu 
sasse.
 Retire-se e lembre-se de que estou de olho em voc  rosnou Kelsey com um sorriso.
 A propsito  falou Adam, dirigindo-se  Srta. Bulstrode enquanto parava  porta,  tem algum problema se eu abusar um pouco da minha posio aqui? Se, digamos, 
me tornar um pouco mais amigvel com algumas de suas professoras?
       Com qual delas?
       Bem... com Mademoiselle Blanche, por exemplo.
       Mademoiselle Blanche? O senhor acha que ela...?
       Acho que se sente um tanto entediada aqui.
       Ah!  A Srta. Bulstrode mostrou uma expresso grave.
       Talvez o senhor tenha razo. Mais algum?
 Farei tentativas com todas elas  respondeu Adam alegremente.  Se a senhora perceber que algumas alunas esto se comportando tolamente, escapando para encontros 
no jardim, por favor acredite que minhas intenes so estritamente as de um investigador.
       O senhor acha que as garotas podem saber de alguma coisa?
 Todo mundo sempre sabe de alguma coisa  afirmou Adam.  Mesmo que seja algo que no dem muita importncia.
       O senhor pode estar certo.
      Bateram na porta e a Srta. Bulstrode falou:  Entre. 
      Jlia Upjohn apareceu, bastante ofegante.
       Entre, Jlia.
      O Inspetor Kelsey disse:  Pode ir agora, Goodman. Volte para o seu trabalho.
 Eu lhe falei que no sabia de nada  disse Adam mal-humorado.  Maldita Gestapo.
 Desculpe-me por estar to ofegante, Srta. Bulstrode  disse Jlia.  Vim correndo l da quadra de tnis.
 Est bem. Queria apenas lhe perguntar o endereo de sua me... isto , como posso entrar em contato com ela?
 Oh! A senhora ter que escrever para tia Isabel. Mame est viajando.
      Tenho o endereo de sua tia. Porm preciso entrar em contato com sua me pessoalmente.
 No sei como a senhora vai conseguir  falou Jlia franzindo a testa.  Mame foi para Anatlia de nibus.
       De nibus?  surpreendeu-se a Srta. Bulstrode. 
      Jlia balanou a cabea firmemente.
 Ela gosta deste tipo de coisa  explicou.  E  claro que  extremamente barato. Um pouco desconfortvel, mas mame no liga para isto. Entretanto, acho 
que daqui a umas trs semanas mais ou menos ela poder ser alcanada em Varr.
 Sim, entendo. Diga-me, Jlia, alguma vez sua me mencionou ter visto aqui algum que conhecera no tempo que trabalhara durante a guerra?
 No, Srta. Bulstrode, acho que no. No, estou certa que no.
       Sua me trabalhou para o Servio Secreto, no foi?
 Oh, sim. Acho que mame adorou. No que me parea muito excitante. Ela nunca explodiu nada. Ou foi presa pela Gestapo. Ou teve as unhas arrancadas. Ou algo 
assim. Trabalhou na Sua, e acho... ou foi em Portugal?
      Jlia acrescentou se desculpando:  A pessoa fica um pouco entendida ouvindo todas estas histrias de guerra, e receio que nem sempre eu preste a ateno devida.
       Bem, obrigado, Jlia.  s isto.
 Realmente!  exclamou a Srta. Bulstrode quando Jlia saiu.  Ir para Anatlia de nibus.  A criana falou como se estivesse dizendo que sua me houvesse 
apanhado o nibus 73 para Marshall e Snelgrove.
      
II
      
      Balanando sua raqueta, Jennifer afastou-se da quadra de tnis, mal-humorada. O nmero de saques errados que ela havia dado aquela manh tinham-na deixado 
deprimida.  claro que, com aquela raqueta, no podia esperar grande coisa, mas parecia que ultimamente ela perdera o controle total de seu saque. Seu golpe de esquerda, 
entretanto, sem dvida alguma, tinha melhorado bastante. Seu treinamento com Springer havia ajudado muito. Por vrias razes, era uma pena que Springer estivesse 
morta.
      Jennifer levava o tnis muito a srio. Era uma das coisas com que ela se preocupava.
       D licena?
      Jennifer levantou os olhos, assustada. Uma mulher bem vestida, de cabelos louros, carregando um pacote comprido e achatado, estava parada a poucos metros dela. 
Jennifer ficou imaginando por que razo no teria visto antes a mulher vindo em sua direo. No lhe ocorreu que ela poderia ter estado escondida atrs de uma rvore 
ou dos rododendros e, simplesmente, ter sado detrs deles. Tal idia jamais teria ocorrido a Jennifer, afinal por que motivo uma mulher estaria escondida atrs 
de rododendros e de repente apareceria?
      Falando com ligeiro sotaque americano, a mulher disse:  Ser que me poderia informar onde eu posso encontrar uma garota chamada...  ela consultou um pedao 
de papel
       Jennifer Sutcliffe.
      Jennifer ficou surpresa.
       Eu sou Jennifer Sutcliffe.
 Ora, vejam s! Isto  o que eu chamo de coincidncia. Num colgio grande como este, acontecer de eu estar procurando uma garota e me deparar justamente com 
ela. E ainda dizem que tais coisas no acontecem.
 Suponho que algumas vezes aconteam  respondeu Jennifer, desinteressada.
 Eu precisava vir hoje por estes lados almoar com alguns amigos prosseguiu a mulher  e ontem, num coquetel, por acaso, comentei com sua tia que viria... 
ou foi com sua madrinha? Tenho uma pssima memria. Ela me disse o seu nome e eu tambm me esqueci. Mas de qualquer modo o que interessa  que ela me perguntou se 
eu poderia vir aqui e entregar-lhe uma nova raqueta de tnis. Disse que voc estava querendo uma.
      O rosto de Jennifer se iluminou. Parecia um milagre, nada menos que isto.
 Deve ter sido minha madrinha, a Sra. Campbell. Chamo-a de Tia Gina. No teria sido a tia Rosamund nunca. Ela jamais me d nada, a no ser uns miserveis 
10 xelins no Natal.
       Sim, lembro-me agora. Era este seu nome, Campbell. 
      Entregou o embrulho. Jennifer o apanhou avidamente. Soltou uma exclamao de prazer ao retirar a raqueta da caixa.
 Oh,  uma maravilha!  exclamou ela.  Esta  uma raqueta boa de verdade. H muito tempo que eu desejava uma nova. Ningum pode jogar decentemente se no 
tiver uma raqueta em boas condies.
       , acho que tem razo.
       Muito obrigado por traz-la  disse Jennifer agradecida.
 No foi trabalho nenhum. Tenho apenas que confessar que me senti um pouco encabulada. Colgios sempre me deixam assim. Tantas garotas. Oh, a propsito, pediram-me 
para levar a sua velha raqueta de volta.
      Apanhou a raqueta que Jennifer tinha deixado cair no cho.
 Sua tia... no... madrinha... disse que iria mandar trocar as cordas. Est precisando, no est?
 No creio que valha a pena  respondeu Jennifer, sem prestar muita ateno.
      Continuava experimentando o balano e a firmeza do seu novo tesouro.
 Mesmo assim, uma raqueta extra  sempre til  observou sua nova amiga.  Oh, nossa  olhou o relgio.   muito mais tarde do que eu pensava. Preciso ir.
 A senhora tem... a senhora quer que eu chame um txi? Posso telefonar...
      No. Obrigado, minha querida. Meu carro est perto do porto. Deixei-o l para no ter que manobrar num lugar apertado. Adeus. Tive muito prazer em conhec-la. 
Espero que tenha gostado da raqueta.
      Ela praticamente correu pelo passeio em direo ao porto. Jennifer tornou a cham-la.
       Muito obrigado.
      Ento, exultante, saiu  procura de Jlia.
       Olhe  ela exibiu a raqueta com movimentos exagerados.
       Ora essa! Onde foi que voc a arrumou?
 Minha madrinha mandou para mim. Tia Gina. Ela no  minha tia, mas  assim que eu a chamo.  assustadoramente rica. Imagino que mame tenha lhe contado sobre 
o fato de que vivo reclamando de minha raqueta.  maravilhoso, no ? No posso esquecer-me de escrever agradecendo.
       Espero que sim  aconselhou Jlia.
 Bem, voc sabe como as pessoas se esquecem das coisas, vez ou outra. At de coisas que pretendem realmente fazer. Olhe, Shaista  acrescentou quando esta 
ltima estava vindo em direo delas.  Ganhei uma raqueta nova. No  uma beleza?
 Deve ter custado muito dinheiro  comentou Shaista examinando-a com respeito. Gostaria de jogar tnis bem.
       Voc sempre se atrapalha com a bola.
 Nunca sei em que direo a bola vai vir  disse Shaista distrada.  Antes de voltar para casa, preciso ir a Londres mandar fazer um short realmente bonito. 
Ou ento um traje de tnis como o que a campe americana, Ruth Allen, usa. Acho muito elegante. Talvez mande fazer os dois  sorriu com prazer antecipado.
 Shaista nunca pensa em nada a no ser em roupas  observou Jlia com desdm, depois que ela se afastou.  Voc acha que algum dia ficaremos assim?
 Pode ser  respondeu Jennifer desanimada.  Mas ser terrivelmente aborrecido.
      Entraram no Pavilho de Esportes, agora oficialmente liberado pela polcia, e Jennifer guardou cuidadosamente a sua raqueta no armrio.
       No  linda?  disse ela, afagando-a carinhosamente.
       O que voc fez com a raqueta antiga?
       Oh, ela a levou.
       Quem?
 A mulher que trouxe esta aqui. Encontrou com tia Gina num coquetel e ela lhe pediu que me entregasse esta raqueta nova, j que vinha para estes lados. Tia 
Gina tambm disse para ela apanhar a minha antiga para trocar as cordas.
       Oh, entendo.  Mas Jlia estava franzindo a testa.
       O que a Bully queria com voc?  indagou Jennifer.
 Bully? Oh, nada de especial. Apenas o endereo da mame. Mas no momento ela no tem nenhum porque est viajando de nibus por algum lugar da Turquia. Jennifer... 
preste ateno.  sua raqueta no precisava mudar as cordas.
       Oh, precisava sim, Jlia. Estava uma esponja,
 Eu sei. Porm, na realidade, aquela era a minha raqueta. Ns trocamos, lembra-se? Era a minha raqueta que precisava de conserto. A sua, a que me pertence 
agora, j teve suas cordas trocadas. Voc mesma disse que a sua me mandaria trocar antes de vocs viajarem.
 Sim,  verdade  Jennifer parecia um pouco surpresa.  Oh, bem, creio que a mulher... seja l quem for... eu deveria ter perguntado o seu nome, mas estava 
to fascinada... ela simplesmente viu que precisava de conserto.
 Mas voc disse que ela falou que foi a sua tia Gina quem dissera que precisava trocar as cordas. E a sua tia Gina no poderia ter falado nada, j que isto 
no era necessrio.
 Oh, bem...  Jennifer parecia impaciente.  Suponho... suponho...
       Supe o qu?
 Talvez tia Gina apenas imaginou que se eu desejava uma raqueta nova, era porque a outra precisava de cordas novas. De qualquer jeito, que importncia tem 
isto?
 Creio que no tem importncia  respondeu Jlia devagar.  Mas acho estranho, Jennifer.  como... como a troca de lmpadas novas por velhas. A histria de 
Aladim, lembra-se?
      Jennifer riu.
 Imagine esfregar a minha velha raqueta... quero dizer, a sua velha raqueta e aparecer um gnio. Se voc esfregasse uma lmpada e um gnio aparecesse, o que 
voc pediria a ele, Jlia?
 Uma poro de coisas  Jlia respirou extasiada.  Um gravador, um cachorro pastor alemo, ou um dinamarqus, cem mil libras, um vestido de cetim preto, 
e... Oh, um bocado de outras coisas. E voc?
 Realmente no sei  respondeu Jennifer.  Agora que tenho esta raqueta maravilhosa, no desejo mais nada.

CAPTULO 13
A CATSTROFE
O TERCEIRO FIM DE SEMANA aps o incio do semestre seguiu o seu curso normal. Era o primeiro fim de semana que os pais tinham permisso para levarem suas filhas 
a sair. Como resultado, Meadowbank ficou praticamente deserto.
      Neste domingo, em especial, ficariam apenas vinte garotas para o almoo. Parte do quadro de empregados tinha o dia de semana de folga, retornando no domingo 
 noite ou na segunda-feira de manh cedo. Nesta ocasio especial, a prpria Srta. Bulstrode estava disposta a se ausentar durante o fim de semana. Isto no era 
comum, pois ela no costumava se afastar do colgio durante o perodo escolar. Entretanto tinha seus motivos. Iria hospedar-se na casa da Duquesa de Welshain em 
Welsington Abbey. A duquesa havia insistido para que fosse e acentuara o fato de que Henry Banks tambm estaria l. Henry Bank era o Presidente da Cmara Estadual. 
Era um importante industrial e havia sido um dos financiadores iniciais do colgio. O convite era portanto quase compulsrio. No que a Srta. Bulstrode permitisse 
ser comandada se assim no o desejasse. Mas nas atuais circunstncias aceitava o convite com satisfao. No era, de modo algum, indiferente a duquesas, e a Duquesa 
de Welshain era uma pessoa influente e suas filhas haviam sido mandadas para Meadowbank. Estava tambm particularmente satisfeita por ter a oportunidade de falar 
com Henry Banks a respeito do futuro do colgio e tambm de apresentar sua verso sobre a recente e trgica ocorrncia.
      Devido s conexes influentes de Meadowbank, o assassinato da Srta. Springer tinha sido conduzido pela imprensa com muito tato. Havia se transformado mais 
numa triste fatalidade, do que num crime misterioso. Fora dada a impresso, embora no tenha sido falado abertamente, de que possivelmente algum ladro arrombara 
o Pavilho de Esportes e que a morte da Srta. Springer fora mais acidental do que planejada. Fora informado vagamente que vrios jovens haviam sido convocados a 
comparecerem  delegacia para prestar declaraes. A prpria Srta. Bulstrode estava ansiosa para abrandar qualquer impresso desagradvel que, por acaso, as notcias 
pudessem ter causado nestes dois influentes patronos do colgio.
      Sabia que desejavam discutir a respeito de boato existente sobre a sua prxima aposentadoria. Tanto a duquesa quanto Henry Banks estavam aflitos para persuadi-la 
a permanecer no seu cargo. Agora era a hora, sentia a Srta. Bulstrode, de ressaltar as qualidades de Eleanor Vansittart, de mostrar a pessoa maravilhosa que ela 
era e de como estava habilitada para dar prosseguimento s tradies de Meadowbank.
      Na manh de sbado, a Srta. Bulstrode estava terminando de ditar a correspondncia para Ann Shapland, quando o telefone tocou. Ann atendeu.
  o Emir Ibrahim, Srta. Bulstrode. Chegou a Claridge e gostaria de vir apanhar Shaista amanh.
      A Srta. Bulstrode apanhou o fone de sua mo e teve uma rpida conversa com o secretrio do Emir. Shaista estaria pronta a qualquer momento a partir das onze 
e meia da manh de domingo, disse ela. A garota deveria estar de volta ao colgio s oito da noite.
      Desligou e disse:  Gostaria que os orientais tivessem o hbito de notificar com um pouco mais de antecedncia. Estava combinado que amanh Shaista sairia 
com Giselle dAubray. Agora ter que ser cancelado. Terminamos as cartas?
       Sim, Srta. Bulstrode.
 timo, ento posso partir de conscincia tranqila. Bata-as a mquina e despache-as. Ento voc tambm estar livre para o fim de semana. S vou precisar 
de voc segunda-feira na hora do almoo.
       Obrigada, Srta. Bulstrode.
       Divirta-se, minha cara. 
       Vou me divertir  disse Ann.
       Algum rapaz? 
 Bem... sim  Ann ficou levemente ruborizada.  Nada srio, entretanto.
 Pois deveria ser. Se voc pretende se casar, no deixe para muito tarde.
       Oh, ele  apenas um velho amigo. Nada de emocionante.
 Emoo nem sempre  uma boa base para uma vida matrimonial  preveniu a Srta. Bulstrode.  Chame a Srta. Chadwick, sim?
      A Srta. Chadwick entrou apressada.
 O Emir Ibrahim, tio de Shaista, vem busc-la amanh, Chaddy. Se vier pessoalmente, diga-lhe que ela est fazendo bom progresso.
       Ela no  muito brilhante  observou a Srta. Chadwick.
  intelectualmente imatura  concordou a Srta. Bulstrode.  Porm, em outros aspectos, possui mente extraordinariamente amadurecida. Algumas vezes, conversando, 
bem poderia passar por uma mulher de 25 anos de idade. Creio que  por causa da vida sofisticada que tem levado. Paris, Teer, Cairo, Istambul e todo o resto. Neste 
nosso pas, temos tendncia a manter nossos filhos crianas por muito tempo. Consideramos uma vantagem quando dizemos:  Ela ainda  uma criana.  Mas isto no 
 uma virtude.  uma grave desvantagem na vida.
 Acho que neste ponto no concordo muito com voc, minha querida  disse a Srta. Chadwick.  Vou contar a Shaista sobre seu tio. Aproveite bem o fim de semana 
e no se preocupe com nada.
 Oh! No vou me preocupar  garantiu a Srta. Bulstrode.  Na verdade,  uma tima oportunidade para deixar Eleanor Vansittart responsvel pelo colgio e ver 
como se sai. Com voc e ela encarregada disto aqui nada poder sair errado.
       Realmente espero que no. Vou procurar Shaista.
 Shaista pareceu surpresa e nem um pouco satisfeita em saber que seu tio havia chegado a Londres.
 Ele quer vir me buscar amanh?  resmungou.  Mas, Srta. Chadwick, est tudo combinado para eu sair com Giselle dAubray e sua me!
       Receio que ter que ficar para um outro dia.
 Mas eu preferia sair com Giselle  disse Shaista contrariada.  Meu tio no  nada divertido. Come e depois ronca.  tudo muito aborrecido.
 Voc no deve falar assim. No  delicado  repreendeu Chadwick.  Pelo que sei, seu tio ficar na Inglaterra apenas uma semana e  natural que deseje v-la.
 Talvez tenha arranjado um novo casamento para mim  disse Shaista com o seu rosto se iluminando.  Se for assim, ser divertido.
 Se for este o caso, sem dvida ele lhe dir. Contudo, voc ainda  muito jovem para se casar. Precisa antes completar sua educao.
       Educao  uma coisa muito enjoada  disse Shaista.
      
II
      
      A manh de domingo amanheceu brilhante e serena. A Srta. Shapland havia partido no sbado logo aps a Srta. Bulstrode. A Srta. Johnson, a Srta. Rich e a Srta. 
Blake, domingo de manh.
      A Srta. Vansittart, a Srta. Chadwick, a Srta. Rowan e Mademoiselle Blanche haviam ficado responsveis pelo colgio.
 Espero que as garotas no falem demais  disse a Srta. Chadwick, duvidando.  A respeito da pobre Srta. Springer, quero dizer.
 Vamos torcer  disse Eleanor Vansittart  para que todo este caso seja logo esquecido.  E acrescentou:  Se algum dos pais tocar no assunto comigo, vou 
desencoraj-los. Creio que o melhor ser adotar uma atitude firme. 
      As dez horas as garotas foram  igreja acompanhadas da Srta. Vansittart e da Srta. Chadwick. Quatro meninas catlicas foram levadas por Angle Blanche para 
assistirem  missa. Ento, por volta das onze horas, os carros comearam a chegar. A Srta. Vansittart, elegante e refinada, estava parada no saguo. Cumprimentava 
as mes com um sorriso, entregava-lhes suas filhas e habilmente desviava qualquer referncia  recente tragdia.
  terrvel  dizia ela.  Sim, terrvel demais, porm a senhora compreende, no queremos falar sobre isto aqui. Todas estas cabecinhas jovens...  uma lstima 
elas terem que participar deste assunto.
      Chaddy tambm estava no local cumprimentando velhos conhecidos entre os pais. discutindo planos para os feriados e falando de maneira carinhosa a respeito 
de vrias meninas.
 Acho que tia Isabel bem poderia ter vindo me buscar para um passeio  falou Jlia que, juntamente com Jennifer, estava com o rosto grudado na janela de uma 
das salas de aula, olhando o movimento de chegada e partida l fora no ptio.
 Mame vem me apanhar no prximo fim de semana  disse Jennifer.  Papai ia receber algumas pessoas importantes este fim de semana e ela ento no pde vir 
hoje.
 L vai Shaista  mostrou Jlia.  Toda enfeitada a caminho de Londres.
      Olha s o salto do sapato dela! Aposto que a velha Johnson no gosta nada daquilo.
      Um motorista uniformizado abriu a porta de um enorme Cadillac. Shaista entrou e o carro se afastou.
 Voc pode vir comigo no prximo fim de semana, se quiser  convidou Jennifer.  Disse  mame que tinha uma amiga que eu gostaria de levar.
 Eu adoraria  respondeu Jlia.  Olhe para Vansittart desempenhando o seu papel.
       Ela  extremamente fina, no acha?  perguntou Jennifer.
 No sei por que, mas de algum modo ela faz com que eu tenha vontade de rir  disse Jlia.   uma espcie de cpia da Srta. Bulstrode, no ? Uma cpia muito 
boa; mas  como Joyce Grenfell, ou alguma outra pessoa fazendo uma imitao.
 L est a me de Pamela  mostrou Jennifer.  Trouxe os garotos. No sei como todos eles cabem naquele minsculo Morris Minor.
       Vo fazer um piquenique. Olhe quantas cestas.
 O que vamos fazer esta tarde?  perguntou Jennifer.  Acho que no preciso escrever para mame esta semana, j que vou v-la na prxima.
 Voc  muito negligente quando se trata de escrever cartas, Jennifer.
       Nunca consigo pensar em algo para dizer.
 Pois eu consigo  disse Jlia.  Posso pensar num bocado de coisas para contar  acrescentou desanimada:  mas no momento no h ningum para quem eu possa 
escrever.
       E sua me?
 Eu j lhe disse que viajou para Anatlia de nibus. E no se pode escrever cartas para pessoas que andam de nibus por aqueles lados. Pelo menos no o tempo 
todo.
       Para onde voc manda as cartas quando escreve?
 Oh, para consulados aqui e ali. Ela me deixou uma lista. Istambul o primeiro, depois Ancara e, em seguida, um nome engraado.  Acrescentou:  Fico imaginando 
por que motivo Bully estaria to ansiosa para entrar em contato com mame? Pareceu-me bastante perturbada quando lhe disse onde ela estava.
 No deve ser nada com voc  disse Jennifer.  Voc no fez nada errado, fez?
 Que eu saiba, no  respondeu Jlia.  Talvez ela quisesse lhe contar a respeito de Springer.
 Por que ela haveria de querer? disse Jennifer.  Acredito que ficaria extremamente satisfeita se houvesse, pelo menos, uma me que no soubesse sobre o caso 
de Springer.
 Voc acha que as mes seriam capazes de pensar que suas filhas tambm poderiam ser assassinadas?
 No creio que minha me seja assim to tola, porm ficou bastante perturbada com esta histria.
 Se voc me perguntar  falou Jlia, de modo meditativo,  eu lhe digo que existe muitas coisas que no nos revelaram a respeito de Springer.
       Que tipo de coisas?
 Bem, coisas estranhas parecem estar acontecendo. Como a sua nova raqueta de tnis.
 Oh, ia-me esquecendo de lhe contar  disse Jennifer.  Escrevi  tia Gina agradecendo e, esta manh, recebi uma carta dela dizendo-se muito contente por 
eu ter ganho uma raqueta nova, mas que entretanto no fora ela quem a mandara.
 Eu bem que lhe falei que aquela histria da raqueta era esquisita  disse Jlia triunfante.  E sua casa tambm foi assaltada, no foi?
       Sim, mas no levaram nada.
 Isto torna tudo ainda mais interessante  comentou Jlia.  Acho  acrescentou pensativa  que provavelmente em breve teremos um segundo assassinato.
       Ora, Jlia, por que haveria um segundo assassinato?
 Bem, nos livros, normalmente, h um segundo assassinato. O que eu acho, Jennifer,  que voc deve tomar cuidado para que no seja voc a prxima vtima.
 Eu?  disse Jennifer, surpresa.  Por que algum iria querer me matar?
 Porque, de algum modo, voc est envolvido nisto tudo  respondeu Jlia.  Semana que vem, voc precisa arrancar mais informaes de sua me, Jennifer. Talvez, 
em Ramat, algum tenha entregue a ela um documento secreto.
       Que tipo de documento secreto?
 Oh, como  que posso saber  disse Jlia.  Planos ou frmulas para uma nova bomba atmica. Alguma coisa deste tipo.
      Jennifer no parecia convencida.
      
III
      
      A Srta. Vansittart e a Srta. Chadwick estavam na sala de reunies quando a Srta. Rowan entrou perguntando:
 Onde est Shaista? No a encontro em lugar algum. O carro do Emir acabou de chegar para apanh-la.
 O qu?  Chaddy ergueu os olhos surpresa.  Deve haver algum engano. O carro do Emir veio busc-la a uns quarenta e cinco minutos atrs. Eu mesma a vi entrar 
nele e partir. Foi uma das primeiras a sair.
      Eleanor Vansittart encolheu os ombros.  Suponho que tenham encomendado dois carros ao mesmo tempo.
      Saiu e ela mesma foi falar com o motorista.  Deve haver algum engano  disse ela.  A jovem partiu para Londres h uns 45 minutos.
      O motorista parecia surpreso.  Se a senhora assim o diz, ento acho que deve ter havido algum equvoco  falou ele.  Deram-me claras instrues para vir 
a Meadowbank buscar a jovem.
       Creio que s vezes podem acontecer mal-entendidos.
 O motorista dava a impresso de estar imperturbvel e nada surpreendido.
 Acontece sempre  disse ele  recados telefnicos anotados e esquecidos. Este tipo de coisa. Porm, na nossa firma, nos orgulhamos de no cometermos enganos. 
 claro, se assim posso dizer, que com estes cavalheiros orientais nunca se sabe o que pode acontecer. Algumas vezes trazem um squito com eles e as ordens so dadas 
duas, ou at mesmo trs vezes. Suponho que neste caso foi o que aconteceu.
      Manobrou seu carro com habilidade e se afastou.
      A Srta. Vansittart ficou um pouco indecisa por um ou dois minutos, mas concluiu que no havia nada com que se preocupar. Ento comeou a antever com satisfao 
uma tarde tranqila.
      Depois do almoo, as poucas alunas que haviam permanecido no colgio escreveram cartas ou passearam pelos jardins. Jogaram umas partidas de tnis e a piscina 
estava bastante concorrida. A Srta. Vansittart levou sua caneta e o bloco de cartas para a sombra de uma rvore. Quando o telefone tocou s quatro e meia foi a Srta. 
Chadwick quem o atendeu.
  do Colgio Meadowbank?  Era a voz de um jovem ingls bem educado.   a Srta. Bulstrode?
 A Srta. Bulstrode no est. Quem est falando? Aqui  a Srta. Chadwick.
 Oh,  a respeito de uma de suas alunas. Estou falando de Claridge, da sute do Emir Ibrahim.
       Oh, sim?  a respeito de Shaista?
 Sim. O Emir est um tanto aborrecido por no ter recebido nenhum recado.
       Recado? Por que ele deveria receber algum?
 Bem, para informar que Shaista no poderia vir, ou que no viria.
       No iria! O senhor quer dizer que ela ainda no chegou a?
 No, asseguro-lhe que no. Quer dizer que ela no est em Meadowbank?
 Exato. Um carro veio busc-la esta manh... Oh, acho que por volta das onze e meia!
 Isto  muito estranho porque no h o menor sinal dela.  melhor eu telefonar para a firma que fornece carros para o Emir.
 Oh, Deus!  exclamou a Srta. Chadwick.  Espero que no tenha havido um acidente.
 Ora, no vamos pensar o pior  disse o jovem alegremente.  Acho que se tivesse ocorrido um acidente a senhora j saberia, ou ento ns j teramos conhecimento. 
Se eu fosse a senhora, no me preocuparia.
      Mas a Srta. Chadwick estava preocupada.
       Acho muito estranho  disse ela.
       Suponho que...  o jovem hesitou.
       Sim  disse a Srta. Chadwick.
 Bem, no  o tipo de coisa que eu v sugerir ao Emir, mas somente entre a senhora e eu, no havia... ... bem, nenhum namorado rondando por a, havia?
       Certamente que no!  afirmou a Srta. Chadwick com dignidade.
 Bem, podia ser que houvesse... mas... bem... com estas garotas nunca se sabe, no  mesmo? A senhora ficaria surpresa com as coisas com que eu j me deparei.
 Posso garantir-lhe que algo deste gnero  totalmente impossvel.
 Mas seria mesmo impossvel? Pode-se ter certeza tratando-se de garotas?
      Recolocou o fone no gancho e, um tanto de m vontade, saiu  procura da Srta. Vansittart; No havia motivo para acreditar que a Srta. Vansittart estivesse 
mais capacitada do que ela para lidar com a situao, entretanto, sentiu necessidade de consultar algum. A Srta. Vansittart falou de imediato:  O segundo carro?
      As duas se olharam.
 Voc acha  disse Chaddy devagar  que deveramos notificar a polcia?
 A polcia no  falou Eleanor Vansittart com a voz alterada.
       Sabe, ela disse que algum estava tentando rapt-la.
       Rapt-la? Bobagem!  disse a Srta. Vansittart asperamente .
       Voc no acha...  a Srta. Chadwich era persistente.
 A Srta. Bulstrode deixou-me encarregada do colgio  disse Eleanor Vansittart  e certamente no vou permitir nada disto. No queremos mais encrencas com 
a polcia.
      A Srta. Chadwick olhou-a sem afeio. Pensou que a Srta. Vansittart estava sendo imprevidente e tola. Retornou ao prdio do colgio e fez uma ligao para 
a casa da Duquesa Welsham. Infelizmente todos haviam sado.
      

CAPTULO 14
A INSNIA DA SRTA. CHADWICK
A SRTA. CHADWICK estava inquieta. Virava-se de um lado para outro na cama contando carneirinhos e empregando outros mtodos famosos para invocar o sono. Tudo em 
vo.
s oito da noite quando Shaista ainda no voltara e continuavam sem notcias dela, a Srta. Chadwick, tomando o problema em suas mos, telefonou para o Inspetor 
Kelsey. Ficou aliviada em ver que ele no levara o caso muito a srio. Ela podia deixar tudo por conta dele, garantiu. Seria fcil verificar um possvel acidente. 
Depois disto, ele se comunicaria com Londres. Seria feito tudo que fosse necessrio. Talvez a prpria garota estivesse se divertindo. Aconselhou a Srta. Chadwick 
a comentar o menos possvel a respeito do assunto. Deixasse que pensassem que Shaista havia passado a noite com seu tio em Claridge.
 A ltima coisa que a senhora ou a Srta. Bulstrode desejariam seria mais publicidade  afirmou Kelsey.   muito pouco provvel que a garota tenha sido raptada. 
Sendo assim, no se preocupe, Srta. Chadwick. Deixe tudo por nossa conta.
      Mas a Srta. Chadwick estava preocupada.
      Deitada na cama, insone, sua mente ia de possvel rapto at assassinato.
      Assassinato em Meadowbank. Era terrvel. Inacreditvel. Meadowbank. A Srta. Chadwick amava Meadowbank. Talvez o amasse mais at do que a prpria Bulstrode, 
embora de um modo um tanto diferente. Fora um empreendimento to arriscado e corajoso. Acompanhando fielmente a Srta. Bulstrode nesta perigosa empreitada, mais de 
uma vez suportara o pnico, supondo que tudo falhasse. Na verdade, no havia comeado com um capital muito grande. E se no tivessem sucesso... se o emprstimo fosse 
retirado... A Srta. Chadwick possua a mente ansiosa e sempre conseguia arranjar inmeros motivos. A Srta. Bulstrode havia sentido prazer na aventura, no perigo 
de tudo aquilo, mas Chaddy no. Algumas vezes, num momento de angstia, ela rogara para que Meadowbank fosse dirigido dentro de uma linha mais convencional. Seria 
mais seguro, insistia. Porm a Srta. Bulstrode no se interessava por segurana. Possua sua prpria viso do que um Colgio deveria ser e seguia esta linha sem 
medo. E havia sido premiada por sua audcia. Mas oh, que alvio para Chaddy quando o sucesso se tornou um fato concreto! Quando, finalmente, Meadowbank ficara organizado, 
estabelecido com segurana, como uma grande instituio inglesa. Fora ento que seu amor por Meadowbank fluiu mais fortemente. Dvidas, medos, ansiedades, tudo isto 
desaparecera. Paz e prosperidade haviam chegado. Ela se aninhou como um gatinho, na segurana de Meadowbank.
      Ficara bastante perturbada quando a Srta. Bulstrode comeou a falar em se aposentar. Aposentar-se agora... quando estava tudo organizado! Que loucura!
      Bulstrode falara em viajar e a respeito de tudo que havia no mundo para ser visto. Chaddy no se impressionava com isso. Nada, lugar nenhum, poderia ser, nem 
de longe, to bom quanto Meadowbank. Sempre tivera a impresso de que nada seria capaz de afetar o bem-estar de Meadowbank. Entretanto, agora... Assassinato!
      Uma palavra to feia e violenta... vinda do mundo l fora como uma tempestade descontrolada.
      Assassinato... uma palavra associada pela Srta. Chadwick apenas a garotos delinqentes armados de canivetes, ou a mdicos perversos envenenando suas esposas. 
Mas assassinato ali... num colgio... e no num colgio qualquer... em Meadowbank. Era incrvel.
      A Srta. Springer... a pobre Srta. Springer, naturalmente no fora sua culpa, porm, irracionalmente, Chaddy sentia que, de alguma forma, deveria ter sido por 
alguma falha de sua parte. Ela no conhecia as tradies de Meadowbank. Era uma mulher sem tato. Deveria, de algum modo, ter provocado o assassinato. A Srta. Chadwick 
rolou na cama, virou o travesseiro, disse:  Devo parar de pensar nisto tudo. Talvez seja melhor eu me levantar e tomar uma aspirina. Vou tentar contar at cinqenta...
      Antes de chegar aos cinqenta, sua mente, mais uma vez, voltara ao mesmo caminho. Preocupaes. Ser que tudo isso... e talvez tambm o rapto... acabaria nos 
jornais? Ser que os pais, ao lerem, se apressariam em tirar suas filhas do colgio...
      Oh, Deus, era preciso se acalmar e dormir. Que horas seriam? Acendeu a luz e olhou o relgio... quinze para uma! Fora por volta desta hora que a Srta. Springer... 
No, ela no iria pensar mais naquilo. E que besteira da Srta. Springer ir ao Pavilho de Esportes daquele jeito, sozinha, sem chamar ningum!
 Oh, nossa!  disse a Srta. Chadwick.  Preciso tomar uma aspirina.
      Levantou-se e foi at o armrio do banheiro. Com um gole dgua tomou duas aspirinas. Na volta, afastou a cortina da janela e olhou para fora. Fez isto mais 
para se tranqilizar do que por qualquer outro motivo. Queria estar segura de que nunca mais haveria luz no Pavilho de Esportes no meio da noite.
      Mas havia.
      Num minuto, Chaddy entrou em ao. Enfiou os ps num sapato, apanhou um casaco pesado, pegou sua lanterna, saiu do quarto apressada e desceu as escadas. Condenara 
a Srta. Springer por no ter procurado ajuda antes de sair para investigar, mas a ela tambm no ocorrera isto. Estava apenas ansiosa para ir ao Pavilho descobrir 
quem era o intruso. Mas, na verdade, parou para apanhar uma arma... talvez no muito adequada e, em seguida, passou pela porta lateral e percorreu apressada o caminho 
atravs dos arbustos. Estava sem flego, entretanto, completamente decidida. Somente quando afinal chegou  porta, ela reduziu o passo e tomou cuidado para mover-se 
sem fazer barulho. A porta estava ligeiramente aberta. Empurrou-a mais ainda e olhou para dentro.

II

      Mais ou menos na hora em que a Srta. Chadwick se levantara da cama  procura de aspirina, Ann Shapland, muito atraente, num vestido preto, estava sentada numa
mesa no Le Nid Sauvage comendo suprme de galinha e sorrindo para o jovem sua frente. Querido Dennis, pensou Ann consigo mesma, sempre to exatamente igual. 
isto que eu simplesmente no conseguiria suportar se me casasse com ele. Mesmo assim, ele  um amor. Em voz alta, comentou:  Como isto aqui  divertido, Dennis.
 uma mudana gloriosa.
       Que tal o novo emprego?  perguntou Dennis.
       Bem, na realidade, at que estou gostando.
       No me parece bem o seu gnero de trabalho.
      Ann riu.  Seria difcil definir o que faz meu gnero. Gosto de variedade, Dennis.
 Jamais consegui entender por que voc desistiu do seu trabalho com o velho Sir Mervyn Todhunter.
 Bem, a causa principal foi o prprio Sir Mervyn Todhunter. A ateno que ele me dispensava estava comeando a aborrecer sua mulher. E faz parte da minha 
poltica nunca criar casos com esposas. Elas so capazes de fazer muito mal, sabia?
       So umas gatas ciumentas  disse Dennis.
 Oh, no, no  bem assim  falou Ann.  Eu estou do lado delas. De qualquer maneira, eu gostava muito mais de Lady Todhunter do que do velho Mervyn. Por 
que est to surpreso com o meu emprego atual?
 Oh, um colgio. Eu diria que voc no tem mentalidade acadmica.
 Eu detestaria ensinar num colgio Detestaria ficar confinada. Agrupada com um bando de mulheres. Mas o trabalho de secretria num colgio como Meadowbank 
 bem divertido.  um local realmente mpar, sabia? E a Srta. Bulstrode  uma mulher rara.  mesmo extraordinria, posso-lhe garantir. Seus olhos cinza atravessam 
a pessoa e ela consegue enxergar at os segredos mais ntimos. E mantm os outros sempre em alerta. Odiaria cometer um erro numa carta que ela me ditasse. Oh, sim, 
ela  realmente algum!
 Gostaria que voc se cansasse de todos estes empregos  disse Dennis.  Sabe, Ann, j  tempo de voc parar com esta troca-troca de emprego e se acomodar.
 Voc  um amor, Dennis  disse Ann de uma maneira no comprometedora.
       Poderamos divertir-nos muito  comentou Dennis.
 Acredito  concordou Ann.  Mas ainda no estou preparada. E, de qualquer modo, voc sabe, tenho minha me.
       Sim, ia mesmo falar com voc a esse respeito.
       A respeito de minha me? O que ia dizer?
 Bem, Ann, voc no ignora o quanto eu a acho maravilhosa. A maneira como voc consegue um trabalho interessante e depois larga tudo e volta para casa a fim 
de cuidar de sua me...
 Sim, vez ou outra,  preciso. Quando ela tem um ataque mais srio.
 Eu sei. Como disse, acho isto formidvel da sua parte. Mas mesmo assim, voc sabe que hoje em dia existem lugares, lugares bons onde... onde pessoas como 
a sua me podem receber boa assistncia e tudo o mais. No se trata de uma priso para lunticos.
       E que custam uma fortuna  disse Ann.
 No, no necessariamente. Ora, at mesmo no Programa de Sade...
      Um tom amargo surgiu na voz de Ann. Sim, lamento dizer que um dia terei que chegar a este ponto. Mas por enquanto tenho uma velhinha muito boa que mora com 
mame e as duas se do muito bem. A maior parte do tempo mame  bastante racional. No momento em que deixa de ser, volto e presto ajuda.
       Ela... ela no... ela nunca se torna...
 No ia dizer violenta, Dennis? Voc possui uma imaginao extremamente lgubre. No, minha me nunca fica violenta. Fica apenas atordoada. Esquece onde est
e quem , e quer dar longas caminhadas. s vezes, ela de repente apanha um trem ou um nibus e vai para algum lugar e... bem,  tudo muito difcil, entende? Certas
ocasies  demais para uma nica pessoa enfrentar. Entretanto,  bastante feliz, mesmo quando est atordoada. E tem horas que chega a ser bastante engraada. Lembro-me
de ela ter dito certa vez:  Ann querida,  realmente muito embaraoso. Eu sabia que ia para o Tibete e l estava eu sentada naquele hotel em Dver, sem a menor
idia de como chegara l. Ento pensei, por que motivo eu estava indo para o Tibete? Acho melhor voltar para casa. E a no consegui me lembrar h quanto tempo eu
sara de casa.  muito constrangedor, querida, quando no se consegue lembrar direito das coisas.  Sabe, mame foi mesmo muito engraada a respeito de tudo aquilo.
O que eu quero dizer  que ela prpria enxerga o lado cmico da situao.
       Na realidade, nunca cheguei a conhec-la  comentou Dennis.
 No encorajo as pessoas a faz-lo  explicou Ann. Isto  uma coisa que acho que se pode fazer pelos seus. Proteg-los da... bem, curiosidade e da piedade.
       No se trata de curiosidade, Ann.
 No, creio que no seu caso no seria. Mesmo assim, seria piedade. E no desejo isto.
       Compreendo o que quer dizer.
 Porm, se voc no pensa que eu me importo de ter que, de tempos em tempos, largar meus empregos e ir para casa por um perodo indefinido, est enganado
 comentou Ann.  Jamais pretendi me envolver profundamente em nada. Nem mesmo quando obtive minha primeira colocao, aps ter terminado o curso de secretariado.
Achei que o negcio era me tornar o mais eficiente possvel no meu trabalho. Ento, se a pessoa  realmente boa no que faz, pode escolher qualquer posto. Tem a oportunidade
de conhecer lugares diferentes e de ver diferentes estilos de vida. No momento, estou conhecendo a vida de um colgio. O melhor colgio visto de dentro! Acho que
ficarei l cerca de um ano e meio.
       Voc jamais se prender a nada, no , Ann?
 No  respondeu ela pensativa.  Acho que no. Creio que sou uma observadora nata. Mais como um comentarista de rdio.
 Voc  to dispersiva  observou Dennis tristemente.  Na verdade, no liga para nada nem para ningum.
       Pode ser que algum dia eu mude  encorajou Ann.
       Compreendo mais ou menos como voc pensa e sente.
       Duvido  disse Ann.
 De qualquer modo, no creio que fique naquele colgio um ano. Vai se sentir entediada com todas aquelas mulheres  opinou Dennis.
 Tem um jardineiro muito bonito  disse Ann. Riu ao ver a expresso de Dennis. Anime-se, estou apenas querendo lhe fazer cimes.
 Que histria  esta sobre uma professora ter sido assassinada?
       Oh, aquilo...  O rosto de Ann tornou-se srio e preocupado.
  tudo muito estranho. Muito estranho mesmo. Foi a professora de Ginstica. Voc conhece bem o tipo. Acho que h muito mais por trs disto do que se pensa.
       No se v envolver em nada desagradvel. 
 Isto  fcil de se dizer. Nunca tive a oportunidade de mostrar o meu talento de detetive. Acho que me sairia muito bem se tentasse.
       Ora, Ann.
 Querido, eu no vou sair por a perseguindo assassinos perigosos. Vou apenas... bem, tirar algumas concluses lgicas. Por qu? Quem? E para qu? Este tipo 
de coisa. Descobri algo muito interessante.
       Ann.
 No fique angustiado. Apenas no parece ter ligao com nada  disse Ann pensativa.  At um determinado ponto tudo se encaixa com perfeio. E ento, subitamente, 
no mais.  Ela acrescentou animada:  Talvez haja um segundo assassinato e isto tornar as coisas um pouco mais claras.
      
      Foi neste exato momento que Srta. Chadwick empurrou a porta do Pavilho de Esportes.
      

CAPTULO 15
O CRIME SE REPETE
 VENHA  chamou o Inspetor Kelsey, ao entrar na sala com o rosto srio.  Aconteceu outro. 
       Outro o qu?  Adam encarou-o firmemente.
       Outro assassinato  disse o Inspetor Kelsey. 
      Encaminhou-se para fora da sala e Adam o seguiu. Tinha estado bebendo cerveja e discutindo vrias probabilidades, quando Kelsey fora chamado ao telefone.
 Quem foi desta vez?  indagou Adam, enquanto seguia o Inspetor Kelsey escada abaixo.
       Outra professora... Srta. Vansittart. 
       Onde?
       No Pavilho de Esportes.
 De novo no Pavilho de Esportes?  disse Adam.  O que h com este lugar?
  melhor voc revist-lo desta vez  disse o Inspetor Kelsey.  Quem sabe a sua tcnica de busca tenha maior sucesso do que a nossa. Tem que haver alguma
coisa naquele Pavilho, caso contrrio, como explicar o fato de os dois assassinatos terem ocorrido l?
      Entraram no carro. Acredito que o mdico chegar antes de ns. Fica mais perto para ele.
      Era como se um pesadelo se repetisse, pensou Kelsey, ao entrar no Pavilho de Esportes, fortemente iluminado. Ali, mais uma vez, havia um corpo no cho com
o mdico ajoelhado a seu lado. Mais uma vez o mdico se levantou.
 Foi morta cerca de meia hora atrs  informou.  Quarenta minutos no mximo.
       Quem a encontrou?  perguntou Kelsey.
      Um dos homens falou:  A Srta. Chadwick.
        aquela mais velha, no ?
 Sim. Ela viu uma luz, veio at aqui e encontrou o corpo. Arrastou-se de volta ao prdio do colgio e depois entrou numa crise nervosa. Foi a supervisora 
quem telefonou, a Srta. Johnson.
 Certo  disse Kelsey.  De que modo ela foi assassinada? Outra vez com um tiro?
      O mdico balanou a cabea.  No. Agora foi com um golpe na nuca. Pode ter sido com um cacetete ou com um saco de areia. Algo deste gnero.
      Um taco de golfe com a cabea de ferro estava cado perto da porta. Era a nica coisa que, naquele local, parecia estar fora do lugar.
      Kelsey apontou naquela direo e perguntou:  Ela no poderia ter sido atingida por aquilo?
      O mdico balanou a cabea.  Impossvel. No h marcas no taco. No; foi seguramente um cacetete de borracha, ou um saco de areia.
       Foi algo... profissional?
 Provavelmente, sim. Fosse quem fosse, desta vez, no pretendia fazer barulho. Chegou por trs da vtima e golpeou-a na nuca. Ela caiu para a frente e possivelmente 
jamais chegou a saber o que a atingira.
       O que estava fazendo quando foi golpeada?
  provvel que estivesse ajoelhada  respondeu o mdico.  Ajoelhada em frente a este armrio.
      O inspetor foi at o armrio e deu uma olhada.  Suponho que este seja o nome da garota  disse ele.  Shaista... deixe ver, esta ... esta  a garota egpcia, 
no ? Sua Alteza, a Princesa Shaista.  Virou-se para Adam.  Parece fazer sentido. Espere um momento, no  esta a jovem que foi dada como desaparecida?
 Exato  confirmou o sargento.  Um carro, que supunham ter sido enviado pelo seu tio que est em Londres, veio busc-la. Ela entrou nele e partiram.
       Nenhuma notcia ainda? 
 Ainda no, senhor. Esquadres de busca esto em ao. E a Scotland Yard j entrou no circuito.
  uma maneira simples e prtica de se raptar algum  disse Adam.  Nenhuma luta, nenhum grito. Tudo o necessrio  saber-se que a garota est aguardando 
um carro que vir busc-la e o que se tem a fazer  apenas assumir a aparncia de um motorista de alta classe e chegar antes do outro carro. A jovem entra sem pensar 
duas vezes e voc pode partir tranqilamente sem que ela tenha a menor suspeita do que est acontecendo.
       Encontraram algum carro?  perguntou Kelsey.
 No tivemos notcia de nenhum  respondeu o sargento .  Como eu disse, a Yard agora est trabalhando no caso. E tambm o Setor Especializado.
 No acredito, nem por um minuto, que consigam tir-la do pas.
       Por que motivo ter sido raptada?  perguntou o mdico .
 S Deus sabe  falou Kelsey desanimado.  Ela me disse que estava com medo de ser raptada e... envergonho-me de confessar que pensei que estivesse apenas 
querendo se exibir.
 Foi o que eu tambm imaginei, quando o senhor me falou no assunto.  comentou Adam.
 O problema  que no sabemos o suficiente  observou Kelsey.  H muitos pontos que no se encaixam.  Olhou em volta.  Bem, parece que no h mais nada 
a fazer aqui. Continuem com o trabalho de rotina, fotografias, impresses digitais, etc.  melhor ir at o prdio do colgio.
      L, foi recebido pela Srta. Johnson que estava tremendo, embora conservasse o autocontrole.
  terrvel, inspetor  disse ela. Duas de nossas professoras assassinadas! A pobre Srta. Chadwick encontra-se num estado lastimvel.
       Gostaria de v-la assim que for possvel.
 O mdico deu-lhe um remdio e ela agora est bem mais calma. Quer que eu o leve at ela?
 Sim, daqui a um minuto. Primeiro, fale-me da ltima vez que a senhora viu a Srta. Vansittart.
 No cheguei a v-la hoje. Estive fora o dia todo. Voltei um pouco antes das onze horas e fui direto para o meu quarto. Fui para a cama.
 A senhora, por acaso, no olhou pela sua janela para o Pavilho de Esportes?
 No, no, nem pensei nisto. Tinha passado o dia com minha irm a quem no via a algum tempo e minha cabea estava repleta de novidades de casa. Tomei um 
banho, fui para a cama, li um livro, apaguei a luz e peguei no sono. A lembrana mais prxima que tenho  a Srta. Chadwick entrando no quarto feito um raio, branca 
como um fantasma e tremendo toda.
       A Srta. Vansittart esteve ausente hoje?
 No, ela ficou aqui. Havia ficado responsvel pelo colgio. A Srta. Bulstrode estava fora.
       Quem mais estava aqui, quero dizer, das professoras? 
      A Srta. Johnson pensou por um momento.  A Srta. Vansittart, a Srta. Chadwick, a professora de Francs, Mademoiselle Blanche, e a Srta. Rowan.
 Entendo. Bem, agora, acho melhor a senhora levar-me at a Srta. Chadwick.
      A Srta. Chadwich estava em seu quarto, sentada numa cadeira. Embora fosse uma noite quente, o aquecedor estava ligado e um cobertor cobria seus joelhos. Seu
rosto plido virou-se para o Inspetor Kelsey.
 Ela est morta... est morta? No h possibilidade de que... de que ela se recupere?
      Kelsey balanou a cabea lentamente.
  horrvel!  disse a Srta. Chadwick.  Com a Srta. Bulstrode ausente!  Ela caiu em pranto.  Isto arruinar o colgio. No posso suportar!... realmente 
no posso suportar.
      Kelsey sentou-se ao seu lado.  Eu sei  disse ele solidrio.  Eu entendo. Foi um choque tremendo para a senhora, mas quero que seja corajosa, Srta. Chadwick 
e me conte tudo que sabe. Quanto mais cedo pudermos descobrir quem  o culpado, menos complicaes e publicidade teremos.
 Sim, sim, eu compreendo. O senhor sabe, eu... fui cedo para a cama porque achei que, para variar, seria bom ter uma longa noite de sono. Entretanto, no 
conseguia dormir. Estava preocupada.
       Preocupada com o colgio?
 Sim. E com o fato de Shaista estar desaparecida. E em seguida comecei a pensar a respeito a Srta. Springer e se... se seu assassinato poderia afetar os pais 
e se por causa disto no mandassem suas filhas de volta no prximo semestre... Estava terrivelmente preocupada com a Srta. Bulstrode. Quero dizer, ela fez este lugar. 
Foi uma realizao magnfica.
 Entendo. Agora, continue falando. A senhora estava preocupada e no conseguia dormir.
 No. Contei carneirinhos e tudo o mais.  Ento, levantei-me e tomei umas aspirinas. Em seguida puxei as cortinas. No sei porque. Acho que foi pelo fato 
de ter estado pensando na Srta. Springer. Ento, vi... vi uma luz no Pavilho
       Que tipo de luz?
 Bem, uma luz que se movia. Quero dizer, acho que devia ser uma lanterna. Era igualzinha  luz que a Srta. Johnson e eu tnhamos visto anteriormente.
       Era exatamente igual?
 Sim, sim, acho que sim. Talvez um pouco mais fraca, no sei bem.
       Sim. Continue.
 E ento  disse a Srta. Chadwick, sua voz tornando-se de repente mais ressonante  resolvi que desta vez eu iria descobrir quem estava l e o que fazia. 
E a vesti um casaco, calcei uns sapatos e sa apressada.
       No pensou em chamar mais ningum?
 No, no pensei. Estava com muita pressa para chegar l. Receava que a pessoa... seja l quem fosse... fugisse.
       Sim. Prossiga, Srta. Chadwick.
 Ento fui o mais depressa que pude. Aproximei-me da porta. Pouco antes de chegar, andei nas pontas dos ps para que... para que eu pudesse me aproximar sem 
ser percebida. Cheguei l. A porta no estava trancada... apenas encostada e eu empurrei-a ligeiramente. Olhei e... e l estava ela. Cada de bruos, morta!...
      Comeou a tremer toda.
 Sim, sim, Srta. Chadwick, est bem. A propsito, havia um taco de golfe no cho. Foi a senhora quem o levou? Ou foi a Srta. Vansittart?
 Um taco de golfe? No me lembro. Oh, sim, acho que o apanhei no hall. Leveio-o comigo no caso de... bem, no caso de ter que us-lo. Quando vi Eleanor acho 
que simplesmente deixei-o cair. Ento, no sei como, voltei para casa e procurei a Srta. Johnson. Oh! Eu no posso suportar! No posso... isto ser o fim de Meadowbank!
      A voz da Srta. Chadwick elevou-se histrica. A Srta. Johnson aproximou-se.
 Descobrir dois assassinatos  demais para qualquer pessoa  afirmou a Srta. Johnson.  Principalmente para algum na idade dela.  O senhor no vai querer 
lhe fazer mais nenhuma pergunta, vai?
      O Inspetor Kelsey balanou a cabea.
      Descendo as escadas, notou, num depsito, uma pilha de antigos sacos de areia e baldes. Ainda da poca da guerra. Um pensamento inquietante ocorreu-lhe. O 
de que no precisaria, forosamente, ter sido um profissional com um cacetete quem golpeara a Srta. Vansittart. Algum do colgio, algum que no queria arriscar-se 
com o barulho de um tiro pela segunda vez, e que, muito provavelmente, depois do primeiro assassinato, se desfizera do revlver incriminador, poderia ter se servido 
de uma arma de aparncia inocente, mas mortal... e, possivelmente, at mesmo recolocando-a depois no lugar. 

CAPTULO 16
O MISTRIO DO PAVILHO DE ESPORTES
 MINHA CABEA EST FERIDA, mas no se curva  disse Adam para si mesmo.
      Ele olhava para a Srta. Bulstrode. Jamais admirara tanto uma mulher.
      De tempos em tempos, o telefone chamava anunciando que mais uma aluna iria ser afastada do colgio.
      A Srta. Bulstrode finalmente tomara uma deciso. Desculpando-se com os policiais, convocou Ann Shapland e ditou um breve comunicado. O colgio ficaria fechado 
at o final do semestre. Os pais que achassem inconveniente ter suas filhas em casa, poderiam, se assim o desejassem, deix-las sob seus cuidados e sua educao 
teria prosseguimento.
       Sim, Srta. Bulstrode.
 Ento comece pelo telefone. Depois providencie para que a nota datilografada seja enviada a todos.
       Pois no, Srta. Bulstrode.
      Ao sair, Ann Shapland parou perto da porta. 
      Enrubesceu e as palavras saram atropeladas.
 Desculpe-me, Srta. Bulstrode. No tenho nada a ver com isto, entretanto a senhora no acha uma pena ser to... to precipitada? Quero dizer... depois de 
passado o primeiro pnico, quando as pessoas tiverem tempo para pensar, certamente no iro querer retirar as garotas do colgio. Sero sensatos e raciocinaro melhor.
      A Srta. Bulstrode encarou-a fixamente.
       Acha que estou aceitando a derrota com muita facilidade?
      Ann corou.
 Sei que a senhora considera audcia de minha parte. Mas... mas, bem, sim, eu acho.
 Fico satisfeita em ver que voc  uma lutadora, minha filha. Entretanto, est muito enganada, No estou aceitando a derrota e sim empregando meu conhecimento 
da natureza humana. Impelindo as pessoas a retirarem suas filhas, forando-as a isto, eles no tero tanta pressa em faz-lo. Pensaro em motivos para deix-las 
ficar. Na pior das hipteses, decidiro deix-las voltar no prximo semestre... se houver um prximo semestre  acrescentou ela, sria.
      Olhou para o Inspetor Kelsey.
 Isto depende do senhor  disse ela.  Esclarea estes assassinatos, prenda o responsvel e tudo ficar bem.
      O Inspetor Kelsey parecia infeliz. Falou:  Estamos fazendo o melhor que podemos. 
      Ann Shapland retirou-se.
  uma moa competente  observou a Srta. Bulstrode.  E leal.
      Isto foi apenas um parntese. Ela pressionou seu ataque.
 O senhor no tem a menor idia de quem pode ter matado minhas duas professoras. A esta altura, o senhor j deveria saber de alguma coisa. E agora, ainda 
por cima, este rapto. Neste ponto eu me culpo. A garota me falou sobre algum querendo rapt-la. Imaginei, que Deus me perdoe, que estivesse querendo se fazer de 
importante. Vejo agora que havia alguma coisa por trs daquilo. Algum deve ter feito alguma insinuao, ou t-la prevenido de alguma coisa... no sei qual dos dois... 
 Ela parou e resumindo:  O senhor no tem nenhuma notcia ?
 Ainda no. Mas quanto a isso, acho que a senhora no deve se preocupar tanto. O caso foi transferido para o Departamento de Investigaes Especiais. Ela 
deve ser encontrada em vinte e quatro horas, trinta e seis, no mximo. H vantagens em este pas ser uma ilha. Todos os portos, aeroportos, etc., esto em alerta. 
E a polcia em cada distrito est vigilante.  bastante fcil raptar algum... manter escondido  que  o problema. Oh, ns a encontraremos! 
 Espero que a encontrem viva  disse a Srta. Bulstrode. sria. Parece que estamos lidando com uma pessoa que no tem o menor escrpulo com a vida humana.
 No se teriam dado ao trabalho de rapt-la se pretendessem dar cabo dela  observou Adam.  Poderiam ter feito isto aqui mesmo com bastante facilidade.
      Ele percebeu que as suas ltimas palavras haviam sido desastrosas. A Srta. Bulstrode lanou-lhe um olhar.
        o que parece  disse ela secamente.
       O telefone tocou. A Srta. Bulstrode atendeu. 
       Sim?
      Ela fez um sinal para o Inspetor Kelsey.
        para o senhor. 
      Adam e a Srta. Bulstrode observaram-no enquanto recebia a chamada. Ele resmungava, anotava uma ou outra palavra, dizendo finalmente:  Entendo. Alderton Priors. 
Isto  em Wallshire. Sim, vamos cooperar. Sim, ento ns continuaremos daqui para a frente.
      Recolocou o fone no gancho e ficou um momento perdido em seus pensamentos. Em seguida, levantou os olhos.
 Esta manh, Sua Alteza recebeu uma nota de resgate. Batido a mquina numa Nova Corona. Posta no correio de Portsmouth. Aposta que  para despistar.
       Quando e como? perguntou Adam.
 Num cruzamento a duas milhas ao norte de Alderton Priors. Fica em Wallshire.  um lugar meio deserto. O envelope contendo o dinheiro dever ser colocado 
sob uma pedra junto  caixa de correio marcada com as letras A A, amanh s duas horas da madrugada.
       Quanto pediram?
 Vinte mil libras.  Ele balanou a cabea.  Parece-me amadorismo.
       O que o senhor vai fazer?  perguntou a Srta. Bulstrode.
      O Inspetor Kelsey olhou para ela. Ele parecia um outro homem. A discrio oficial tomara conta dele.
 A responsabilidade no  minha, Madame  disse ele.  Temos nossos mtodos.
       Espero que eles alcancem sucesso  disse a Srta. Bulstrode.
       Dever ser fcil  falou Adam.
 Amadorismo?  disse a Srta. Bulstrode, prendendo-se  palavra que eles haviam usado.  Eu fico pensando...
      Ento ela falou com firmeza:  E quanto  minha equipe? Em que ficamos? Devo confiar nela ou no?
      Como o Inspetor Kelsey hesitasse, ela disse: O senhor receia que me dizendo quem no est livre de suspeitas, eu demonstraria isto na minha maneira de tratar 
as pessoas. O senhor est enganado. Eu no faria tal coisa.
 No creio que a senhora o fizesse  disse Kelsey.  Mas no posso me arriscar. No parece, visto por alto, que a pessoa que procuramos seja algum daqui 
de dentro. Isto , baseado no que pudemos descobrir a respeito de cada um. Demos especial ateno quelas que so novatas neste semestre: Mademoiselle Blanche, a 
Srta. Springer e a sua secretria, a Srta. Shapland. O passado da Srta. Shapland  completamente limpo.  filha de um general reformado. Ela realmente ocupou os 
cargos que declarou ter ocupado e os seus antigos patres atestam por ela. Alm disto, tem um libi para ontem  noite. Na hora em que a Srta. Vansittart foi assassinada, 
a Srta. Chapland estava com o Sr. Dennis Rathbone numa boate. Ambos so muito conhecidos no local e o Sr. Rathbone  tido como excelente carter. Os antecedentes 
de Mademoiselle Blanche tambm foram verificados. Lecionou num colgio no norte da Inglaterra e em dois colgios na Alemanha e foi dada como timo carter.  tida 
como uma professora de primeira classe.
 No de acordo com os nossos padres  disse a Srta. Bulstrode torcendo o nariz.
 Seu passado na Frana tambm foi verificado. Quanto  Srta. Springer, as coisas j no so to conclusivas. Estudou mesmo onde disse ter estudado. Porm, 
em relao ao tempo em que trabalhou, existem lacunas que no esto plenamente esclarecidas.
 Contudo, j que ela foi assassinada  acrescentou o inspetor  isto parece eximi-la.
 Concordo  disse a Srta. Bulstrode secamente  que tanto a Srta. Springer quanto a Srta. Vansittart so hors de combat como suspeitas. Vamos falar com lgica. 
Apesar de seu passado impecvel, Mademoiselle Blanche  considerada suspeita meramente porque ainda est viva,  isto?
 Ela poderia ter cometido os dois assassinatos. Estava no colgio ontem  noite  observou Kelsey.  Declarou ter ido cedo para a cama e no ter ouvido nada 
at que o alarma foi dado. No h evidncia do contrrio. Nada temos contra ela. Entretanto, a Srta. Chadwick garante que ela  dissimulada.
      A Srta. Bulstrode teve um gesto de impacincia.
 A Srta. Chadwick sempre acha as professoras de Francs dissimuladas. Tem implicao com elas.  Olhou para Adam.  E voc o que acha?
 Acho que ela fica  espreita  respondeu Adam com vagar.  Pode ser apenas uma curiosidade natural. Pode ser algo mais. No consigo me decidir. No me parece 
uma assassina, mas como  que se pode saber?
  justamente isto  disse Kelsey.  H um assassino aqui, um assassino impiedoso que j matou duas vezes... porm  muito difcil de se acreditar que seja 
algum de sua equipe. A Srta. Johnson estava com sua irm ontem  noite em Lineston e, de qualquer modo, ela trabalha com a senhora h sete anos. A Srta. Chadwick 
est aqui desde que a senhora comeou. De qualquer maneira, ambas esto fora de suspeita no caso da morte da Srta. Springer. A Srta. Rich trabalha com a senhora 
h mais de um ano e passou a noite no Hotel Alton Grange, a vinte milhas de distncia daqui. A Srta. Blake encontrava-se com uns amigos em Littleport. A Srta. Rowan 
leciona neste colgio h um ano e tem um passado limpo. Quanto aos empregados, francamente no consigo imaginar nenhum deles como assassino. E alm disso, so antigos 
moradores destas redondezas... 
      A Srta. Bulstrode balanou a cabea, satisfeita. 
 Concordo com o seu raciocnio. No sobra muito, no ? Ento...  Calou-se e fixou um olhar acusador em Adam.  Na realidade, parece que deve ter sido voc.
      Ele abriu a boca, surpreso.
 Estava no lugar ideal  observou ela.  Livre para ir e vir... Boa histria para explicar sua presena aqui. Antecedentes insuspeitos. Entretanto, voc poderia 
ser um traidor.
      Adam recobrou-se.
 Realmente, Srta. Bulstrode  disse ele em tom de admirao.  Tiro-lhe o chapu. A senhora pensa em tudo.
      
II
      
 Minha nossa!  gritou a Sra. Sutcliffe  mesa do caf;  Henry!
      Ela acabara de abrir o jornal. A amplido da mesa estava entre ela e o marido, j que seu convidado de fim de semana ainda no havia se apresentado para a 
refeio.
      O Sr. Sutcliffe, que abrira seu jornal na pgina de assuntos financeiros e estava absorto na mudana imprevista de certas aes, no respondeu.
       Henry!
      O grito estridente chegou at ele. Levantou o rosto, assustado.
       O que houve, Joan?
 O que houve? Outro assassinato. Em Meadowbank. No colgio de Jennifer.
       O qu? Deixe-me ver.
      No dando ateno ao comentrio de sua mulher de que a notcia tambm deveria estar em seu jornal, o Sr. Sutcliffe debruou-se sobre a mesa e arrancou o jornal 
de suas mos.
 Srta. Eleanor Vansittart... Pavilho de Esportes... mesmo local onde a Srta. Springer, a professora de Ginstica... hum... hum... 
 No consigo acreditar  lamuriava-se a Sra. Sutcliffe. Meadowbank! Um colgio to exclusivo! Freqentado pela realeza e tudo o mais...
      O Sr. Sutcliffe amassou o jornal e atirou-o sobre a mesa.
 S h uma coisa a ser feita  disse ele.  Voc vai para l imediatamente tirar Jennifer daquele colgio!
       Voc quer dizer, tir-la de vez?
       Sim, exatamente isto.
 No acha que seria uma atitude um pouco drstica demais? Depois de Rosamund ter sido to boa e conseguido com que Jennifer fosse aceita?
 Voc no ser a nica a tirar a sua filha de l. Breve haver muitas vagas no seu precioso Meadowbank.
       Oh, Henry, voc acha?
 Acho, sim. H algo errado naquele colgio. Traga Jennifer hoje mesmo.
 Sim,  claro... creio que voc tem razo. O que faremos com ela?
 Coloc-la-emos em algum ginsio moderno aqui por perto. Onde no acontecem assassinatos.
 Oh, Henry, mas acontecem. No est lembrado? Houve o caso de um garoto que atirou no professor de Cincias. Saiu a notcia no News of the World da semana 
passada.
 No sei onde a Inglaterra vai parar  comentou o Sr. Sutcliffe.
      Aborrecido, atirou o guardanapo na mesa e transps a sala a passos largos.
      
III
      
      Adam estava sozinho no Pavilho de Esportes. Seus dedos geis remexiam o contedo dos armrios. Era pouco provvel que encontrasse algo onde a polcia havia 
falhado, mas afinal de contas nunca se podia ter certeza. Como Kelsey dissera, cada departamento tinha uma tcnica diferente.
      O que poderia haver neste caro e moderno edifcio para lig-lo com mortes repentinas e violentas? A hiptese de um lugar para encontros, estava fora de cogitao. 
Ningum marcaria um encontro pela segunda vez num local onde j acorrera um assassinato. Ento, retornava-se  idia de que ali havia algo que algum estava procurando. 
Dificilmente seria um cofre de jias. Esta possibilidade parecia estar excluda. No poderia haver nenhum esconderijo secreto, gavetas falsas, etc. E o contedo 
dos armrios era extremamente simples. Possuam seus segredos, mas eram os segredos de uma vida escolar. Fotografias de artistas de cinema, pacotes de cigarro e, 
vez ou outra, um livro de bolso pouco recomendvel. Retornou com especial ateno ao armrio de Shaista. Fora quando ajoelhada diante dele, que a Srta. Vansittart 
havia sido assassinada. O que a Srta. Vansittart esperara encontrar ali? Teria ela encontrado? Teria o criminoso arrancado, seja l o que fosse, da mo da morta, 
conseguido escapar do prdio por apenas uma frao de segundo antes de ser descoberto pela Srta. Chadwick?
      Neste caso, de nada adiantava procurar. O que quer que fosse, j no estava ali.
      O som de passos vindo do lado de fora despertou-o de seus pensamentos. Ele estava de p, no meio da sala, acendendo um cigarro, quando Jlia Upjohn apareceu 
na porta, um pouco hesitante.
       Deseja alguma coisa?  perguntou Adam.
       Estava pensando se poderia pegar a minha raqueta de tnis?
 No vejo porque no  respondeu Adam.  O delegado mandou-me ficar aqui  mentiu ele.  Teve que dar um pulo na delegacia. Disse para eu permanecer aqui 
enquanto estivesse ausente.
       Para ver se ele volta, suponho?  disse Jlia.
       O delegado?
 No. Refiro-me ao assassino. Eles sempre voltam  cena do crime, no  mesmo? Tm que voltar.  uma espcie de compulso.
       Talvez voc tenha razo  concordou Adam.
      Olhou para a srie de raquetas alinhadas na prateleira.  Onde est a sua?
 Debaixo do U  disse Jlia.  L no final. Temos nossos nomes gravados nelas  explicou, mostrando o adesivo quando ele lhe entregou a raqueta.
 Parece um pouco gasta  observou ele.  Mas j deve ter sido uma boa raqueta.
 Posso apanhar tambm a de Jennifer Sutcliffe?  indagou Jlia.
       Esta  nova  disse Adam apreciando-a.
 Novinha em folha  explicou Jlia.  Sua tia mandou para ela.
       Garota de sorte!
 Ela precisa ter uma boa raqueta.  tima no tnis. Aprimorou a sua canhota de uma maneira incrvel. Voc no acha que ele vai voltar? 
      Adam levou algum tempo para compreender.
 Oh, o assassino? No, no creio que seja provvel. Seria um tanto arriscado, no? 
       Voc no acha que os assassinos sentem esta necessidade?
       No, a no ser que eles tenham esquecido alguma coisa.
 Quer dizer, alguma coisa que servisse como pista? Gostaria de encontrar uma. A polcia j encontrou alguma?
       Eles no me contariam. 
       , creio que no contariam. Voc se interessa por crimes?
      Olhou para ele de modo inquisitivo. Ele retribuiu o olhar. Por enquanto, no havia nela nada de mulher. Deveria ter, mais ou menos, a mesma idade de Shaista, 
entretanto seus olhos no continham nada alm de indagao.
 Bem... creio que, at certo ponto, todos ns nos interessamos.
      Jlia balanou a cabea em concordncia. 
 Sim. Tambm acho. Posso pensar em todo tipo de soluo, mas a maioria  absurda demais. Mas  divertido. 
       Voc no gostava da Srta. Vansittart?
 Nunca prestei muita ateno nela. Era legal. Um pouco parecida com a Bull... a Srta. Bulstrode... mas no realmente como ela. Mais como um substituto de 
ator numa pea de teatro. No quero dizer que ache bom ela ter morrido. Lamento muito.
      Saiu carregando as duas raquetas.
      Adam permaneceu olhando em volta do Pavilho.
 Que diabo poderia ter estado escondido aqui?  matutou ele consigo mesmo.
      
IV
      
 Minha nossa!  exclamou Jennifer, permitindo que a bola atirada por Jlia passasse por ela  L est a mame!
      As duas garotas viraram-se para olhar a figura agitada da Sra. Sutcliffe que, acompanhada da Srta. Rich, aproximava-se a passos largos e gesticulando sem parar.
 Mais confuso, aposto  disse Jennifer com resignao.   por causa do assassinato. Voc tem sorte, Jlia, de a sua me estar num nibus em Anatlia.
       Mas tem a tia Isabel.
       As tias no se preocupam da mesma maneira.
 Al, mame  ela falou, quando a Sra. Sutcliffe se aproximou.
 Venha arrumar as suas coisas, Jennifer. Vim para lev-la comigo.
       Para casa?
       Sim.
       Mas... no quer dizer definitivamente. No para sempre?
       Sim. Definitivamente.
 Mas voc no pode fazer isto! Meu tnis tem progredido como nunca. Tenho uma boa chance de ganhar as individuais e talvez. Jlia e eu venamos as duplas, 
embora eu no acredite muito.
       Voc vai voltar comigo para casa hoje mesmo.
       Por qu?
       No faa perguntas.
 Imagino que seja porque a Srta. Springer e a Srta. Vansittart foram assassinadas. Mas ningum matou nenhuma das garotas. Tenho certeza que no iriam querer 
fazer isto. E o Dia dos Esportes  daqui a trs semanas. Acho que vou vencer o salto em distncia e lenho boas possibilidades na corrida de obstculos.
 No discuta comigo, Jennifer. J disse que voc vai voltar para casa hoje. Seu pai faz questo.
       Mas, mame...
      Ao lado de sua me e discutindo com persistncia, Jennifer foi em direo ao prdio do colgio.
      De repente, soltou-se e voltou correndo para a quadra de tnis.
 Adeus, Jlia. Parece que a mame est morrendo de medo. E o papai tambm.  de dar raiva, no ? Adeus, eu lhe escrevo.
       Eu tambm, para lhe contar tudo o que acontecer por aqui.
 Espero que no matem a Chaddy. Preferiria que fosse Mademoiselle Blanche, e voc?
 Eu tambm.  a que menos falta faria. Responda uma coisa, voc reparou como a Srta. Rich estava com um ar hostil?
 Ela no disse uma nica palavra. Est furiosa por mame ter vindo me buscar.
 Talvez consiga impedi-la. Tem muita fora no acha? No  uma pessoa comum.
       Ela me lembra algum comentou Jennifer.
 No acho que ela se parea nem um pouco com qualquer outra pessoa. Ela me d a impresso de ser bastante diferente.
 Oh, sim. Ela  diferente. Quis me referir  aparncia fsica. Porm, a pessoa que eu vi era bastante gorda.
       No consigo imaginar a Srta. Rich gorda.
       Jennifer...  chamou a Srta. Sutcliffe.
 Eu realmente acho os pais uma verdadeira canseira  disse Jennifer de mau-humor.  Sempre criando caso. No sossegam nunca. Acho que voc tem mesmo sorte 
da...
 Eu sei. Voc j falou isto antes. Deixe-me porm lhe dizer que, neste momento, gostaria que mame estivesse bem mais perto e no num nibus em Anatlia.
       Jennifer!...
       J vou...
 Jlia caminhou vagarosamente em direo ao Pavilho de Esportes. Seus passos tornaram-se cada vez mais lentos at que ela parou completamente. Ficou parada, 
com a expresso carregada, perdida em seus pensamentos.
      O sino para o almoo tocou, mas ela mal ouviu. Olhou para a raqueta que estava segurando, deu um ou dois passos e ento, dando a volta, marchou em direo 
ao colgio. Entrou pela porta da frente, o que no era permitido, evitando assim de se encontrar com alguma colega. O hall estava vazio. Subiu as escadas correndo 
e entrou em seu pequeno quarto. Olhou em volta apressada e ento levantou o colcho da cama, enfiando a raqueta por baixo dele. Em seguida, ajeitando ligeiramente 
o cabelo, desceu com um ar grave para a sala de jantar.

CAPTULO 17
A CAVERNA DE ALADIM
NAQUELA NOITE, as garotas foram para a cama mais quietas do que de costume. Um dos motivos era que o nmero estava muito reduzido. Pelo menos trinta haviam ido para 
casa. As outras reagiam de acordo com os seus diversos estados de esprito. Excitao, medo, agitao, alguns risinhos de origem puramente nervosa, e havia tambm 
outras que estavam simplesmente quietas e pensativas.
      Jlia Upjohn subiu calada entre a primeira leva. Entrou em seu quarto e fechou a porta. Ficou parada ouvindo os cochichos, risadas, barulho de passos e boas-noites. 
Ento o silncio desceu sobre o colgio... ou um quase silncio. Vozes abafadas ecoavam a distncia e barulhos de passos de um lado para o outro em direo ao banheiro.
      No havia tranca na porta. Jlia empurrou uma cadeira contra a porta, com a parte superior do encosto segurando a maaneta por baixo. Isto lhe serviria de 
sinal, se algum quisesse entrar. Mas no era provvel que tal acontecesse. Era estritamente proibido s garotas irem ao quarto das outras e a nica pessoa que o 
fazia era a Srta. Johnson, no caso de alguma das meninas estar doente ou sentindo-se mal.
      Jlia foi at  cama, levantou o colcho e apalpou. Retirou a raqueta de tnis e ficou parada por um instante segurando-a. Decidira examin-la naquele momento 
mesmo e no mais tarde. Uma luz aparecendo sob a porta do quarto, quando todas as luzes deveriam estar apagadas, poderia atrair ateno. quela hora era normal a 
luz estar acesa, para se poder trocar de roupa, ou para se ler na cama at s dez e meia se assim se desejasse.
      Ficou parada olhando fixamente para a raqueta. Como poderia haver algo escondido numa raqueta de tnis?
 Mas deve haver  disse Jlia para si mesma,  deve haver. O roubo na casa de Jennifer, a mulher aparecendo com aquela histria tola a respeito de uma raqueta 
nova...
      Somente Jennifer seria capaz de acreditar naquilo, pensou Jlia com desdm.
      No, eram lmpadas novas por velhas, e isto significava, como na histria de Aladim, que havia algo de especial naquela raqueta de tnis. Jennifer e Jlia 
nunca haviam mencionado a ningum que haviam trocado de raquetas... ou, pelo menos, ela, Jlia, jamais mencionara.
      Ento, na verdade, aquela era a raqueta que todos estavam procurando no Pavilho de Esportes. E cabia a ela descobrir porque! Examinou-a cuidadosamente. Olhando-se 
para ela parecia no haver nada de estranho. Era uma raqueta de boa qualidade, embora incmoda de se usar, mas com cordas novas e em timo estado. Jennifer havia 
reclamado do equilbrio.
      O nico lugar onde seria possvel se esconder alguma coisa numa raqueta de tnis era no cabo. Poder-se-ia, pensou ela, cavar o cabo para ali fazer um esconderijo. 
Parecia absurdo demais, entretanto era possvel. Se o cabo tivesse sido alterado, provavelmente afetaria o equilbrio da raqueta.
      Havia um pedao de couro com umas letras gravadas nele que estavam quase apagadas. O couro era apenas colado. E se fosse retirado?
      Jlia sentou-se  mesa, comeou a trabalhar com um canivete conseguindo remover o couro. Dentro, havia um disco de madeira fina. No parecia perfeito. Havia 
marcas em toda volta. Jlia forou com o canivete. A lmina fechou. Tesouras seriam mais eficientes. Ela, finalmente, conseguiu remov-lo. Uma substncia manchada 
de azul e vermelho apareceu. Jlia forou mais um pouco e ento descobriu algo. Massa de modelagem. Mas seria normal haver massa de modelagem dentro do cabo de uma 
raqueta de tnis? Segurou com firmeza a tesoura, e comeou a tirar pedaos de massa. O material estava envolvendo alguma coisa. Algo que parecia com botes, ou pedras.
      Ela comeou a trabalhar furiosamente.
      Alguma coisa rolou para cima da mesa... depois toais outra. Logo havia um pequeno monte.
      Jlia deu um passo para trs, boquiaberta.
      Ficou olhando, olhando e olhando...
      Um brilho intenso, vermelho, verde, azul profundo e um branco faiscante...
      Naquele instante, Jlia cresceu. No era mais uma criana. Tornara-se uma mulher. Uma mulher olhando para jias...
      Todo tipo de pensamentos fantsticos passaram como um raio pela sua cabea. A caverna de Aladim... Marguerite e seu cofre de jias... (na semana anterior, 
elas tinham ido ao Convent Garden assistir Fausto). Pedras fatais... o diamante Hope... Romance... ela prpria num vestido de veludo preto, com um ofuscante colar 
em torno do pescoo...
      Sentou-se em xtase e sonhou...
      Segurou as pedras entre seus dedos e deixou-as rolar como uma cascata de fogo, um crrego flamejante de deslumbramento e prazer.
      E ento, alguma coisa, talvez um leve barulho, chamou-a de volta  realidade.
      Ficou pensando, tentando usar seu bom-senso, decidindo o que deveria fazer. Aquele rudo deixara-a alarmada.
      Recolheu as pedras, levou-as at o lavatrio e enfiou-as num saco plstico, colocando por cima sua esponja de banho e a escova de unha. Ento retornou  raqueta, 
forou a massa de modelar para dentro, recolocou o tampo de madeira e tentou colar o couro por cima. Porm as bordas se levantaram, mas conseguiu resolver o problema 
colando adesivo em tiras finas e calcando o couro sobre elas.
      Estava feito. A raqueta estava com a mesma aparncia e peso de antes. Ento atirou-a displicentemente em cima de uma cadeira.
      Olhou para a cama, arrumada e  sua espera. Todavia, no se despiu. Ao invs disto, ficou sentada, atenta. Aquele rudo teria sido som de passos do lado de 
fora?
      De repente e inesperadamente, ela conheceu o medo. Duas pessoas haviam sido assassinadas. Se algum soubesse o que ela encontrara, ela seria tambm assassinada.
      Havia, no quarto, uma cmoda de carvalho razoavelmente pesada. Conseguiu empurr-la para a frente da porta, desejando que fosse costume de Meadowbank terem 
chaves nas fechaduras. Foi at  janela e verificou se estava trancada. No havia por perto nenhuma rvore nem trepadeiras. Ela duvidava que fosse possvel algum 
entrar por ali mas no queria correr nenhum risco.
      Olhou seu pequeno relgio: dez e meia. Respirou fundo e apagou a luz. Ningum deveria notar nada fora do comum. Puxou um pouco a cortina. Era noite de lua 
cheia e podia ver perfeitamente a porta. Sentou-se na beira da cama. Na sua mo estava o sapato mais pesado que possua.
 Se algum tentar entrar  disse Jlia consigo mesma,  eu bato na parede o mais forte que puder. O quarto do lado era o de Mary King e o barulho a acordaria. 
E eu gritarei... com toda a fora da minha voz. E ento, se vier muita gente, direi que tive um pesadelo. Qualquer um pode ter um pesadelo depois de tudo que vem 
acontecendo por aqui.
      Permaneceu sentada e o tempo passou. Ento ela ouviu... passos leves no corredor. Escutou quando pararam do lado de fora de sua porta. Depois de uma longa 
pausa viu a maaneta girar lentamente.
      Deveria gritar? Ainda no.
      A porta foi empurrada... apenas uma fresta, mas a cmoda segurou. Aquilo deveria ter intrigado a pessoa do lado de fora.
      Outra pausa e ento uma batida, uma batida bem suave, na porta.
      Jlia reteve a respirao. Nova pausa e nova batida... mas ainda abafada e suave.
 Estou dormindo  disse Jlia para si mesma.  No ouo nada.
      Quem viria bater na sua poria no meio da noite? Se fosse algum com direito de faz-lo, chamaria por seu nome, faria rudo com a maaneta, faria barulho. Esta 
pessoa, entretanto, no podia se permitir fazer barulho...
      Jlia ficou sentada por muito tempo. A batida no foi repetida, a maaneta permaneceu imvel. Ela nunca soube quanto tempo se passou antes que o sono a dominasse. 
O sino do colgio finalmente a acordou, deitada na beira da cama, num monte amassado e desconfortvel.
      
      
II
      
      Depois do caf da manh, as garotas costumavam subir e fazer suas camas e, em seguida, desciam para as oraes no grande hall e, finalmente, dispersavam-se 
para as vrias salas de aulas.
      Foi durante esta ltima prtica, quando as meninas estavam andando apressadamente em diferentes direes, que Jlia entrou numa das classes, saiu por uma porta, 
juntou-se a um grupo apressado do lado de fora, embrenhou-se por entre os rododendros, fez mais uma srie de movimentos estratgicos e finalmente chegou perto do 
muro do jardim, onde havia uma rvore cujos galhos grossos iam quase at o cho. Jlia subiu nela com facilidade. Durante toda sua vida subira em rvores. Completamente 
escondida por trs dos galhos, olhava de vez em quando o relgio. Estava bastante segura que, por algum tempo, sua falta no seria notada. As coisas andavam desorganizadas, 
faltavam duas professoras e mais da metade das alunas havia ido para casa. Isto significava que todas as classes teriam que ser reorganizadas. Sendo assim, era provvel 
que ningum percebesse a ausncia de Jlia Upjohn at a hora do almoo, e at l...
      Jlia tornou a olhar o relgio. Com facilidade, desceu da arvore para o muro e da pulou para o outro lado. A uns cem metros havia uma parada onde um nibus 
deveria chegar em poucos minutos. Veio pontualmente. Jlia fez sinal e embarcou. A esta altura j havia tirado um chapu de feltro de dentro de seu vestido de algodo 
e colocado sobre seu cabelo ligeiramente desalinhado. Desceu na estao e tomou um trem para Londres
      Em seu quarto, apoiado sobre o lavatrio, deixara um bilhete endereado  Srta. Bulstrode.
      CARA SRTA. BULSTRODE:
      No fui raptada e nem fugi, por isso no se preocupe. Volto assim que puder.
      JLIA UPJOHN
      
      
      
III
      
      Na Whitehouse Mansions, 228, George, o mordomo impecvel de Hercule Poirot, abriu a porta e contemplou com alguma surpresa uma colegial com o rosto um tanto 
sujo.
       Por favor, posso falar com o Sr. Hercule Poirot? 
      George levou apenas uma frao de segundo a mais do que o usual para responder. Ele achou aquela presena inesperada.
 O Sr. Poirot no recebe ningum sem hora marcada  informou.
 Receio que no tenha tempo para esperar por isso. Eu realmente preciso v-lo agora.  muito urgente.  a respeito de uns assassinatos e um roubo, e coisas 
deste tipo.
       Vou certificar-me se o Sr. Poirot poder atend-la. 
      Deixou-a no hall e retirou-se para consultar seu patro.
       Est a uma jovem que deseja v-lo com urgncia.
 Ora vejam s!  disse Hercule Poirot.  Entretanto as coisas no se arranjam assim com tanta facilidade.
       Foi isso que disse a ela, senhor.
       Que tipo de jovem ?
       Bem, senhor,  quase uma menina.
 Uma menina, ou uma jovem? O que voc quer dizer. George? Na realidade no  a mesma coisa.
 Bem, ela , digamos, uma menina... na idade escolar. Mas embora sua roupa esteja rasgada e suja  essencialmente uma pessoa educada. E deseja v-lo para 
falar a respeito de roubos e assassinatos.
      Poirot levantou as sobrancelhas.
       Assassinatos e roubos.  original. Faa a jovem entrar. 
      Jlia entrou na sala com apenas um leve trao de hesitao. Falou educadamente e com bastante naturalidade.
 Como vai, Sr. Poirot? Sou Jlia Upjohn. Acho que conhece uma grande amiga de minha me, Sra. Summerhayes. Passamos o ltimo vero em sua casa e ela nos falou 
um bocado a seu respeito.
 Sra. Summerhayes...  O pensamento de Poirot voltou-se para uma aldeia na encosta de um morro e para uma casa no topo deste. Recordou-se de um encantador 
rosto sardento, de um sof de molas quebradas, de um grande nmero de cachorros e de outras coisas agradveis e desagradveis.
       Maureen Summerhayes  disse ele.  Ah, sim.
 Eu a chamo de tia Maureen, mas na verdade ela no  minha tia. Contou-nos como o senhor havia sido maravilhoso salvando um homem que estava preso por assassinato, 
e ento, quando eu no conseguia saber o que fazer e a quem recorrer, lembrei-me do senhor.
       Sinto-me honrado  disse Poirot, srio. 
      Puxou uma cadeira para ela sentar.
 Agora fale. George, meu criado, informou-me que voc desejava me consultar a respeito de um roubo e alguns assassinatos... mais de um assassinato, ento?
 Sim  respondeu Jlia.  A Srta. Springer e a Srta. Vansittart. ,  claro, h tambm um caso de rapto, mas no creio que isto me diga respeito.
 Voc me deixa atordoado  disse Poirot.  Onde ocorreram todos estes excitantes acontecimentos?
       No meu colgio, Meadowbank.
 Meadowbank!  exclamou Poirot.  Ah!  Estendeu a mo para o seu lado onde os jornais estavam cuidadosamente dobrados. Abriu um deles e deu uma olhada, na 
primeira pgina, balanando a cabea.
 Comeo a entender. Agora, conte-me, Jlia, conte-me tudo desde o incio.
      Jlia contou. Era uma histria bastante comprida e complicada, porm relatou-a com clareza... com uma parada ocasional, quando voltava a alguma coisa que esquecera.
      Contou a histria at o momento em que ela examinara a raqueta de tnis em seu quarto na noite anterior.
 O senhor entende, achei que era exatamente igual ao Aladim... lmpadas novas por velhas... e que deveria haver algo com aquela raqueta.
       E havia?
       Sim.
      Sem nenhuma falsa modstia, Jlia levantou a saia at quase a altura de sua coxa e exps o que parecia com um emplastro preso por um adesivo.
      Arrancou as tiras, proferindo um ai! angustiado ao faz-lo e soltou o emplastro, que Poirot agora percebia tratar-se de um pacote dentro de um saco de plstico 
cinza.
      Jlia o desembrulhou e, sem avisar, derramou sobre a mesa um monte de pedras cintilantes.
 Nom dun nom dun nom!  disse Poirot num murmrio de admirao.
      Apanhou-as, deixando-as rolar entre os dedos.
       Nom dun nom dun nom! Mas so verdadeiras. Verdadeiras!
      Jlia concordou com a cabea.
 Acho que devem ser. Ningum chegaria ao ponto de matar se assim no fosse, no acha? Porm posso compreender que se cometa um crime por causa disto.
      E, de repente, como acontecera na noite anterior, um olhar de mulher apareceu naqueles olhos de criana.
      Poirot olhou-a penetrantemente e balanou a cabea.
 Sim... voc compreende... voc sente o feitio. Elas no podem ser pra voc apenas pedras coloridas... e isto  que  uma pena.
       So jias!  disse Jlia extasiada.
       E voc as encontrou, como disse, na raqueta de tnis? 
      Jlia terminou a narrativa. 
       J me contou tudo?
 Acho que sim. Devo ter exagerado um pouco aqui e ali. Costumo fazer isso algumas vezes. J a Jennifer, minha grande amiga,  o oposto, ela consegue fazer 
com que as coisas mais excitantes paream cansativas.  Tornou a olhar o pequeno monte cintilante.
       Sr. Poirot, a quem elas pertencem realmente?
 Provavelmente ser muito difcil de se saber. Todavia no pertencem nem a voc, nem a mim. Agora precisamos decidir-nos o que fazer em seguida.
      Jlia olhou-o em expectativa.
       Ento voc entrega o caso em minhas mos? timo. 
      Hercule Poirot fechou os olhos.
      De repente abriu-os e falou vivamente.
 Parece que esta  uma ocasio em que no posso, como normalmente prefiro, permanecer na minha cadeira.  preciso haver ordem e mtodo. Entretanto, na histria 
que voc me contou no h nem ordem nem mtodo. Isto porque neste caso existem muitos caminhos. Contudo, todos convergem e se encontram num s lugar: Meadowbank. 
Pessoas diferentes, com intenes diferentes, representando diferentes interesses... todas convergindo para Meadowbank. Ento eu tambm irei para Meadowbank. E quanto 
a voc, onde est a sua me?
       Mame est num nibus em Anatlia.
 Ah, sua me est num nibus em Anatlia... Il ne manquait que a! Agora posso compreender bem que ela seja amiga da Sra. Summerhayes. Diga-me, voc gostou 
da sua estada com a Sra. Summerhayes?
       Oh, sim, foi muito divertido. Ela tem uns cachorros lindos.
       Os cachorros, oh, sim, lembro-me bem.
       Eles entram e saem por todas as janelas... como uma pontomima.
       Voc falou muito bem! E a comida? Voc gostou?
       Bem, algumas vezes era um pouco esquisita  admitiu Jlia.
       , tem razo.
       Mas tia Maureen faz omeletas deliciosas.
 Ela faz omeletas deliciosas.  A voz de Poirot estava feliz. Suspirou.
 Ento Hercule Poirot no viveu em vo  disse ele.  Fui eu quem ensinei  sua tia Maureen fazer omeletas. Tirou o fone do gancho.
 Agora vamos tranqilizar sua boa diretora quanto  sua segurana e anunciar a nossa chegada a Meadowbank.
 Ela sabe que eu estou bem. Deixei um bilhete dizendo que no fui raptada.
       Mesmo assim, ela agradecer maiores esclarecimentos. 
      Em pouco tempo a ligao fora completada e ele foi informado de que a Srta. Bulstrode estava na linha.
 Srta. Bulstrode? Meu nome  Hercule Poirot. Sua aluna, Jlia Upjohn, est aqui a meu lado. Proponho-me a lev-la de carro comigo imediatamente. E para a 
informao do policial encarregado do caso, um certo pacote de algum valor foi depositado em segurana num banco.
      Desligou e olhou para Jlia.
       Gostaria de tomar um refresco?  sugeriu ele.
       Refresco de qu?  perguntou Jlia.
       De morango, de laranja, de groselha. 
      Jlia decidiu-se pelo de groselha.
       Mas as pedras no esto num banco  observou ela.
 Estaro em pouco tempo  garantiu Poirot.  Mas para o bem de algum em Meadowbank que tenha escutado o que eu disse, mesmo por acaso, ou ento que venha 
a saber,  melhor que pense que esto num banco, e no mais em seu poder. Retirar pedras preciosas de um banco requer tempo e organizao. E eu ficaria muito aborrecido 
se algo lhe acontecesse, minha filha. Confesso que formei um alto conceito quanto  sua coragem e talento.

CAPTULO 18
TROCA DE IDIAS
HERCULE POIROT havia se preparado para derrubar qualquer preconceito que a diretora pudesse ter contra estrangeiros idosos com sapatos pontudos e grandes bigodes. 
Todavia, estava agradavelmente surpreendido. A Srta. Bulstrode cumprimentou-o com uma desenvoltura cosmopolita. Tambm ela, para sua satisfao, sabia tudo a respeito 
dele.
 Foi muita gentileza sua, Sr. Poirot  disse ela,  telefonar-me para atenuar minha ansiedade. Embora esta mal tivesse comeado. Sabe, Jlia, no demos por 
sua falta na hora do almoo  acrescentou ela, virando-se para a garota.  Tantas garotas haviam sido levadas esta manh e haviam tantos lugares vagos  mesa, que 
eu creio que metade do colgio poderia estar ausente sem causar nenhuma apreenso. Estamos atravessando uma situao incomum  disse ela, dirigindo-se a Poirot. 
 Asseguro-lhe que normalmente no seramos to descuidadas. Quando recebi o seu telefonema, fui ao quarto de Jlia e encontrei o bilhete que ela deixara.
 No queria que pensasse que eu havia sido raptada, Srta. Bulstrode  explicou Jlia.
 Aprecio, porm acho, Jlia, que voc poderia ter-me contado o que planejava fazer.
 Achei melhor no  disse Jlia, e acrescentou inesperadamente:  les oreilles ennemies nous coutent.
      Mademoiselle Blanche parece no ter conseguido melhorar muito sua pronncia  observou a Srta. Bulstrode, vivamente. Entretanto, no a estou repreendendo, 
Jlia.  Desviou seu olhar para Poirot.
       Agora, por favor, gostaria de saber exatamente o que aconteceu.
 Com sua licena  disse Hercule Poirot. Atravessou a sala, abriu a porta e olhou para fora. Exagerou no gesto de fech-la. Voltou sorridente.
 Estamos sozinhos  disse ele misteriosamente.  Podemos prosseguir.
      A Srta. Bulstrode olhou para Poirot, depois para a porta e, em seguida, tornou a olhar para ele. Levantou as sobrancelhas. Ele, calmamente, devolveu-lhe o 
olhar. A Srta. Bulstrode inclinou a cabea devagar. Retomando sua maneira vivaz, falou:  Agora, Jlia, vamos ouvir o que voc tem para contar.
      Jlia iniciou sua narrao. A troca das raquetas de tnis, a mulher misteriosa e, finalmente, a descoberta do contedo da raqueta. A Srta. Bulstrode virou-se 
para Poirot. Ele balanou a cabea.
 Mademoiselle Jlia relatou tudo corretamente  afirmou ele.  Tomei a meu cargo o que ela me levou. Est guardado em segurana num banco. Assim sendo, acho 
que a senhora no precisa mais ter receio de um outro acontecimento desagradvel.
 Entendo  disse a Srta. Bulstrode.  Sim, entendo...  Ficou calada por uns instantes e depois perguntou:  O senhor acha aconselhvel Jlia permanecer no
colgio? No seria melhor que ela fosse para a casa de sua tia em Londres?
       Oh, por favor, deixe-me ficar!  pediu Jlia.
       Ento sente-se feliz aqui?  perguntou a Srta. Bulstrode.
 Sim, eu adoro  respondeu Jlia.  E, alm do mais, tem acontecido tanta coisa excitante!
 Este no , de forma alguma, o quadro normal de Meadowbank  disse a Srta. Bulstrode secamente.
 Acho que agora Jlia no corre nenhum perigo aqui  comentou Hercule Poirot. Olhou novamente em direo  porta,
       Creio que compreendo  falou a Srta. Bulstrode.
 Mas  preciso que haja discrio  afirmou Poirot.  Ser que voc consegue ser discreta?  acrescentou ele olhando para Jlia.
 O Sr. Poirot est querendo dizer  explicou a Srta. Bulstrode que ele gostaria que voc no comentasse nada a respeito do que encontrou. No deve falar 
sobre este assunto com as outras garotas. Acha que conseguir ficar calada?
       Sim  respondeu Jlia.
  uma histria muito boa para contar s suas amigas  observou Poirot.  A respeito do que voc encontrou dentro de uma raqueta de tnis na calada da noite. 
Contudo, por vrios motivos importantes, seria aconselhvel que a histria permanecesse ignorada.
       Entendo  disse Jlia.
       Posso confiar em voc, Jlia?  indagou a Srta. Bulstrode.
       Pode sim  assegurou Jlia.  Juro!
      A Srta. Bulstrode sorriu.  Espero que sua me no demore muito a voltar da viagem.
       Mame? Oh, eu tambm espero.
 Soube pelo Inspetor Kelsey  falou a Srta. Bulstrode  que todo o esforo foi feito na tentativa de se entrar em contato com ela. Infelizmente, os nibus 
de Anatlia esto sujeitos a atrasos inesperados e nem sempre cumprem o horrio.
       Posso contar  mame, no posso?  perguntou Jlia.
  lgico. Bem, Jlia, est tudo resolvido.  melhor voc ir agora.
      Jlia retirou-se. Fechou a porta atrs de si. A Srta. Bulstrode olhou firme para Poirot.
 Creio que entendi bem o seu intuito  disse ela.  Ainda h pouco, o senhor fez uma grande encenao ao fechar aquela porta. Mas, na verdade, o senhor deliberadamente 
deixou-a entreaberta.
      Poirot concordou com a cabea.
       De modo que o que falamos pudesse ser ouvido?
 Sim... no caso de haver algum interessado em ouvir. Foi uma medida de precauo para proteger a menina. Deve-se espalhar a notcia de que o que ela encontrou 
est guardado no banco e no mais em seu poder.
      A Srta. Bulstrode olhou-o por um momento e ento contraiu os lbios sria.
        preciso pr um ponto final nisto tudo  disse ela.
      
      
      
II
      
 Nosso propsito  comeou o delegado   tentarmos juntar nossas idias e informaes. Estamos muito satisfeitos de t-lo conosco, Sr. Poirot  acrescentou. 
 O Inspetor Kelsey lembra-se perfeitamente bem do senhor.
 Foi h muitos anos atrs  disse o Inspetor Kelsey.  O Inspetor-chefe era o encarregado do caso. Eu era um simples sargento, conhecedor do meu lugar.
 O cavalheiro, para nossa convenincia, chamado de Sr. Adam Goodman, no  conhecido seu, Sr. Poirot, mas acredito que conhea o seu... seu... seu... chefe. 
Do Departamento Especial.
 Coronel Pikeaway  disse Hercule Poirot pensativo. Ah, sim, no o vejo a bastante tempo. Continua sonolento?  perguntou ele a Adam.
      Adam riu.  Vejo que o senhor o conhece bem, Sr. Poirot. Jamais cheguei a v-lo completamente desperto. Quando isto acontecer, pela primeira vez, no estar 
prestando ateno ao que se passa.
       Voc observou bem, meu amigo.  exatamente isto.
 Agora  disse o delegado  vamos ao assunto. No vou me colocar em primeiro plano nem impor minhas opinies. Estou aqui para ouvir o que os cavalheiros que 
esto trabalhando no caso sabem e pensam. Esta histria tem vrios aspectos e antes de mais nada h uma coisa que eu quero mencionar. Digo isto em conseqncia de 
recomendaes que me foram feitas por escales mais altos.  Olhou para Poirot.  Digamos  disse ele  que uma menina... uma estudante... tenha lhe procurado com 
uma linda histria a respeito de algo que encontrou no cabo de uma raqueta de tnis. Muito excitante para ela. Uma coleo, digamos, de pedras coloridas, uma boa 
imitao... algo deste tipo... ou at mesmo pedras semi-preciosas que, muitas vezes, so to atraentes quanto as verdadeiras. Digamos que, de qualquer maneira, era 
algo que uma criana ficaria excitada em encontrar. Ela poderia at chegar a ter idias exageradas quanto ao seu valor. Isto  bem possvel, no acha?  Olhou de 
modo penetrante para Hercule Poirot.
       Parece-me perfeitamente possvel  respondeu Poirot.
 timo  disse o delegado.  J que a pessoa que trouxe estas... er... pedras coloridas para dentro do pas o fez sem saber e inocentemente, no queremos 
que surja nenhuma averiguao sobre contrabando ilcito.
 H tambm a questo da nossa poltica externa  prosseguiu.  A situao, creio eu, est um tanto... delicada no momento. Quando se trata de interesses de 
petrleo, reservas minerais, todo este tipo de coisa, temos que nos entender com qualquer que seja o governo no poder. No queremos que surja nenhuma pergunta embaraosa. 
No se pode manter assassinatos fora dos jornais e realmente foi o que aconteceu. Porm, nada foi mencionado a respeito de jias ligado ao crime. De qualquer modo, 
no momento, no h necessidade de ser.
 Concordo  disse Poirot.  Deve-se sempre levar em conta possveis complicaes internacionais.
 Exatamente  falou o delegado.  Acho que estou certo em afirmar que o falecido governante de Ramat era considerado um amigo da Inglaterra e acreditamos 
que fosse seu desejo que nosso governo cuidasse de seus interesses neste pas. A quanto isto monta, acho que ningum sabe. Se o novo governo de Ramat est reclamando 
certos bens que alegam ser de sua propriedade, ser muito melhor para ns se no tivermos conhecimento a respeito de tais bens estarem neste pas. Uma recusa direta 
seria desastrosa. 
 No se pode fazer recusas diretas em diplomacia  observou Hercule Poirot.  Ao invs, o melhor  dizer-se que tal assunto receber a mais alta ateno, 
mas que no momento no se sabe nada de definitivo a respeito de nenhuma pequena... economia particular, digamos, que o falecido governante de Ramat por acaso possusse. 
Pode ainda estar em Ramat, pode estar sob os cuidados de algum fiel do falecido Prncipe Ali Yusuf, pode ter sido levada para fora do pas por uma meia dzia de 
pessoas diferentes, pode estar escondida em algum lugar na prpria cidade de Ramat.  Ele encolheu os ombros.  Simplesmente no se sabe.
      O delegado soltou um suspiro.  Obrigado  agradeceu.   exatamente isto que eu queria dizer.  Ele continuou:  Sr. Poirot, o senhor tem amigos em altos 
cargos neste pas. Eles confiam muito no senhor. Extra-oficialmente; eles gostariam, caso no se oponha, de deixar em seu poder uma certa mercadoria.
 Eu no me oponho  garantiu Poirot.  Deixamos como est. Temos coisas mais srias a considerar, no temos?  Olhou para o rosto de todos.  Ou quem sabe 
os senhores talvez no sejam desta opinio? Mas, afinal de contas, o que representam trs quartos de um milho ou uma soma parecida em comparao com uma vida humana?
       Tem razo, Sr. Poirot  concordou o delegado.
 O senhor tem sempre razo  reforou o Inspetor Kelsey.  O que queremos  o assassino. Ficaremos satisfeitos em ter a sua opinio, Sr. Poirot, porque  
muito mais uma questo de adivinhao. E seu palpite pode ser to bom quanto o dos outros, ou at mesmo melhor. O negcio todo  como um emaranhado de um novelo 
de l.
 Esta  uma excelente colocao  disse Poirot.   preciso apanhar este emaranhado de l e puxar a cor que procuramos, a cor do assassino. No  isto?
       Exato.
 Ento, se no for muito cansativo para os senhores, contem-me tudo que sabem at o momento. 
      Preparou-se para ouvir. 
      Ouviu o Inspetor Kelsey, ouviu Adam Goodman. Ouviu o breve resumo do delegado. E ento, recostando-se para trs, fechando os olhos, balanou a cabea devagar.
 Dois assassinatos  disse.  Ambos cometidos no mesmo local e, mais ou menos, nas mesmas circunstncias. Um rapto. O rapto de uma garota que pode ser a figura 
central da trama. Vamos indagar-nos, em primeiro lugar, por que ela foi raptada.
       Posso lhe repetir o que ela prpria disse  falou Adam.
      Ele contou e Poirot escutou.
       No faz sentido  reclamou ele.
 Foi isto que pensei na ocasio. Alis, achei que ela estava apenas querendo se fazer de importante...
       Mas resta o fato de que ela foi raptada. Por qu?
 Houve pedidos de resgate  informou Kelsey.  Mas...  fez uma pausa.
 Mas falsos.  esta a sua opinio, no ? Feitos somente para sustentar a teoria do rapto?
       Exato. Os encontros no foram mantidos.
       Shaista, ento, foi raptada por algum outro motivo. Qual?
 Para que pudessem for-la a dizer onde as... er... pedras estavam escondidas  sugeriu Adam, na dvida.
      Poirot balanou a cabea.  Ela no sabia onde estavam  acentuou ele.  Isto, pelo menos, est claro. No; deve haver alguma outra coisa...
      Sua voz sumiu. Ficou calado, a expresso carregada, por um ou dois minutos. A, endireitou-se na cadeira e fez uma pergunta.
       Os joelhos  disse ele.  Voc reparou nos joelhos dela?
      Adam olhou-o, atnito.
       No!  respondeu.  Por que eu deveria?
 Existem vrias razes para um homem olhar para os joelhos de uma jovem  disse Poirot severamente.  Infelizmente, voc no reparou.
 Havia algo estranho a respeito dos joelhos dela? Uma cicatriz? Alguma coisa deste tipo? Eu no saberia dizer. Todas elas usam meias a maior parte do tempo
e suas saias cobrem os joelhos.
       Na piscina, talvez?  sugeriu Poirot esperanoso.
 Jamais a vi na piscina  disse Adam.  Creio que era muito frio para ela. Est acostumada com o clima quente. Onde o senhor est querendo chegar? Uma cicatriz? 
Algo desse gnero?
       No, no  nada disso. Ah, bem,  uma pena. 
      Dirigiu-se ao delegado.
 Com sua permisso, vou comunicar-me com um velho amigo, o Prefeito de Genebra. Creio que ele poder ajudar-nos.
 A respeito de alguma coisa que tenha acontecido quando ela estudava l?
 Sim,  possvel. O senhor permite? timo. Trata-se apenas de uma idia que eu tive.  Fez uma pausa e ento prosseguiu:  A propsito, no saiu nada nos 
jornais a respeito do rapto?
 O Emir Ibrahim tomou vrias precaues para que tal no acontecesse.
 Notei, entretanto, um pequeno comentrio na coluna de mexericos. Falando de uma certa jovem estrangeira que saiu do colgio muito repentinamente. Um romance 
de adolescente, foi o que o colunista sugeriu. E que deveria ser cortado pela raiz.
 Isto foi idia minha  disse Adam.  Pareceu um bom caminho para se tomar.
 Admirvel! Agora passemos do rapto para algo mais srio. Assassinato. Dois assassinatos em Meadowbank.

CAPTULO 19
A TROCA DE IDIAS CONTINUA
 Dois ASSASSINATOS EM MEADOWBANK  repetiu Poirot pensativo.
 Apresentamos-lhe os fatos  disse Kelsey.  Se o senhor tiver alguma idia...
 Por que o Pavilho de Esportes?  disse Poirot.  Esta era a sua pergunta, no era?  falou dirigindo-se a Adam.  Bem, agora temos a resposta. Porque no 
Pavilho havia uma raqueta de tnis contendo uma fortuna em pedras preciosas. Algum sabia deste fato. Quem? Poderia ter sido a prpria Srta. Springer. Ela era, 
de acordo com o que os senhores disseram, um tanto estranha em relao ao Pavilho de Esportes. No gostava que as pessoas fossem l... pessoas sem autorizao, 
devo acrescentar. Parecia suspeitar dos motivos alheios. Isto acontecia especialmente no caso de Mademoiselle Blanche.
       Mademoiselle Blanche...  repetiu Kelsey pensativo. 
      Hercule Poirot tornou a se dirigir a Adam.
 O senhor mesmo achou estranho o jeito dela no que se refere ao Pavilho de Esportes.
 Ela me deu muitas explicaes, explicaes demais  comentou Adam.  Eu jamais me teria questionado quanto ao seu direito de estar l se ela no tivesse 
tanto trabalho de se explicar.
      Poirot balanou a cabea.
 Exato. Isto certamente faz com que a pessoa pare para pensar. Porm tudo que sabemos  que a Srta. Springer foi assassinada no Pavilho de Esportes  uma 
hora da madrugada quando no tinha nada que estar l.
      Virou-se para Adam.
       Onde se encontrava a Srta. Springer antes de vir para Meadowbank?
 No sabemos  respondeu o inspetor.  Ela deixou o seu ltimo local de trabalho  ele mencionou um colgio famoso  no vero passado. Onde esteve desde ento, 
no sabemos.  Acrescentou secamente:  No houve ocasio de se fazer a pergunta antes de ela morrer. No tinha parentes prximos e nem, que se saiba, amigos chegados.
 Ento poderia ter estado em Ramat  observou Poirot pensativo.
 Creio que, na ocasio da revoluo, havia um grupo de professoras l. Comentou Adam.
 Digamos, ento, que ela estava l e que de alguma forma ficou sabendo a respeito da raqueta de tnis. Digamos que, depois de esperar um curto perodo at 
familiarizar-se com a rotina de Meadowbank, foi, naquela noite, at o Pavilho de Esportes. Apanhou a raqueta e estava prestes a retirar as pedras preciosas do lugar 
onde estavam escondidas, quando...  ele fez uma pausa...  quando algum a interrompeu. Algum que a estava espionando? Seguindo-a? Fosse quem fosse, tinha uma 
pistola... e atirou nela... porm no teve tempo de apanhar as pedras, ou mesmo levar a raqueta, porque pessoas alertadas pelo tiro aproximavam-se do Pavilho de 
Esportes.
      Ele parou.
 O senhor acha que foi isto que aconteceu?  perguntou o delegado.
 No sei  respondeu Poirot.   uma possibilidade. A outra  a de que esta pessoa com a pistola estava l antes e foi surpreendida pela Srta. Springer. Algum 
de quem a Srta. Springer j suspeitava. Ela era, conforme os senhores disseram, este tipo de mulher. Uma bisbilhoteira.
       E quanto  outra vtima?  perguntou Adam. 
      Poirot olhou para ele. Ento, lentamente, desviou seu olhar em direo dos outros dois homens.
 Eu no sei  disse.  E os senhores tambm no sabem. Pode ter sido algum de fora...
      Em sua voz havia uma semi-indagao.
      Kelsey balanou a cabea.
 No creio. Investigamos as redondezas com todo cuidado. Especialmente,  lgico, no caso de estranhos. Havia uma tal de Madame Kolinsky hospedada perto daqui... 
isto  do conhecimento de Adam. Entretanto, ela no podia estar envolvida em nenhum dos dois crimes.
 Ento voltamos a Meadowbank. E existe apenas um meio de se chegar  verdade... por eliminao.
      Kelsey suspirou.
 Sim  concordou ele.  Acho que  o nico meio. No caso do primeiro assassinato, h um campo bastante amplo. Quase todo mundo poderia ter matado a Srta. 
Springer. As excees so as Srtas. Johnson e Chadwick... e a menina com dor de ouvido. Todavia, o segundo assassinato reduz o nmero de suspeitas. A Srta. Rich, 
a Srta. Blake e a Srta. Shapland esto fora. A Srta. Rich estava hospedada no Hotel Morton Marsh, a vinte milhas de distncia. A Srta. Blake estava em Littleport. 
A Srta. Shapland, numa boate, o Nid Sauvage, com o Sr. Dennis Rathbone.
       E, pelo o que sei, a Srta. Bulstrode tambm estava ausente.
      Adam sorriu. O inspetor e o delegado pareciam chocados.
 A Srta. Bulstrode  disse o inspetor severamente  estava na casa da Duquesa de Welsham.
 Ento isto tambm elimina a Srta. Bulstrode  disse Poirot, srio.  E nos deixa... o qu?
 Duas empregadas que dormem no colgio, a Sra. Gibbons e uma jovem chamada Doris Hogg. Mas no posso, seriamente, suspeitar de nenhuma das duas. Com isto, 
resta apenas a Srta. Rowan e Mademoiselle Blanche.
       E as alunas,  claro.
      Kelsey olhou-o, atnito. 
       Certamente o senhor no suspeita delas?
       Para falar a verdade, no. Mas precisamos pensar em tudo.
      Kelsey no se impressionou com aquilo. Prosseguiu falando.
 A Srta. Rowan trabalha aqui h mais de um ano. Tem uma ficha boa. No sabemos de nada contra ela.
 Ento chegamos a Mademoiselle Blanche. E  a que a trilha acaba.
      Houve silncio.
 No h evidncias  disse Kelsey.  Suas credenciais parecem verdadeiras.
       Teriam que ser  observou Poirot.
 Ela costuma bisbilhotar  disse Adam.  Porm isto no  prova de crime.
 Espere um minuto  disse Kelsey.  Houve algo sobre uma chave. Na nossa primeira entrevista com ela... vou verificar... ela falou algo a respeito de a chave 
do Pavilho ter cado da porta e de ela t-la apanhado e esquecido de recoloc-la no lugar. E depois ter sado levando a chave, o que fez com que a Srta. Springer 
a repreendesse.
 A pessoa que quisesse ir at l  noite e procurar pela raqueta, precisaria ter uma chave para poder entrar  afirmou Poirot.  Para isto, teria sido necessrio 
tirar o molde da chave.
 Mas  claro que neste caso ela jamais teria mencionado o incidente da chave para o senhor  disse Adam.
 No  bem assim  retrucou Kelsey.  Springer poderia ter feito algum comentrio sobre o ocorrido. Sendo assim, talvez ela tenha achado melhor mencionar 
o fato de maneira casual.
        um ponto a ser lembrado  disse Poirot.
       No nos leva muito longe  disse Kelsey. 
      Olhou desanimado para Poirot.
 Parece que h  disse Poirot  (isto , se fui informado corretamente) uma possibilidade. Soube que a me de Jlia Upjohn reconheceu algum aqui no dia do 
incio das aulas. Algum que ela ficou surpresa em ver. Pelo que foi dito, parece provvel tratar-se de algum ligado  espionagem internacional. Se a Sra. Upjohn 
indicar Mademoiselle como a pessoa que ela reconheceu, ento creio que poderemos agir com alguma segurana.
 Mais fcil dizer do que fazer  afirmou Kelsey.  Temos tentado entrar em contato com a Sra. Upjohn, mas tem sido uma verdadeira dor de cabea. Quando a 
menina mencionou um nibus, pensei que se referia a uma excurso normal, formada por um grupo de turistas, seguindo uma programao. Mas no  nada disso! Parece 
que ela est tomando nibus comum para qualquer lugar que lhe d na cabea. Ela no est viajando pela Cook, ou qualquer outra agncia de viagens conhecida. Est 
por conta prpria, indo para onde bem entender. O que se pode fazer com uma mulher assim? Ela pode estar em qualquer lugar. H muito para ser visto em Anatlia!...
       Sim, isto torna tudo muito difcil  concordou Poirot.
 H uma enorme quantidade de excelentes excurses de nibus  disse o inspetor numa voz contrariada.  Tudo preparado para facilitar a sua viagem... onde 
parar, o que ver, e cuidadosamente programado para se saber exatamente onde se est.
 Todavia,  evidente que este tipo de viagem no atrai a Sra. Upjohn.
 E enquanto isso, aqui estamos ns  prosseguiu Kelsey.  Atados. Aquela mulher francesa pode, no momento que quiser, ir embora. Nada podemos fazer para ret-la 
aqui.
      Poirot balanou a cabea.
       Ela no far isso.
       O senhor no pode ter certeza.
 Mas eu tenho. Se algum comete um assassinato, no vai querer fazer nada fora do comum, que possa chamar a ateno para si. Mademoiselle Blanche permanecer 
aqui no colgio, quieta, at o final do semestre.
       Espero que tenha razo.
 Estou certo que sim. E lembre-se: a pessoa que a Sra. Upjohn viu, no sabe que foi vista. A surpresa, quando vier, ser completa.
      Kelsey suspirou. 
       Se isto  tudo que temos em que nos apoiar.
       Existem outras coisas. Conversao, por exemplo.
       Conversao?
 , costuma funcionar. Mais cedo ou mais tarde, se a pessoa tiver alguma coisa a esconder, acaba falando demais.
       Trair-se?  O delegado parecia ctico.
 No, no  to simples assim. A pessoa fica em guarda a respeito do que est tentando esconder. Muitas vezes, porm, fala demais sobre outros assuntos. E 
h tambm outras maneiras de se utilizar a conversao. Existe o caso de pessoas inocentes que tm conhecimento de alguma coisa, mas que nem de longe suspeitam da 
importncia do que sabem. E isto me lembra...
      Ps-se de p.
 Com licena. Preciso perguntar  Srta. Bulstrode se h algum aqui que saiba desenhar.
       Desenhar?
       Exato.
 Bem  disse Adam assim que Poirot se retirou  primeiro joelhos de garotas e agora a arte de desenhar. O que vir em seguida?
      
II
      
      A Srta. Bulstrode respondeu s perguntas de Poirot sem demonstrar qualquer surpresa.
 A Srta. Laurie  a nossa professora de desenho  falou ela vivamente.  Entretanto, ela no est aqui hoje. O que o senhor deseja que ela desenhe?  acrescentou 
de um modo gentil, como se falasse a uma criana.
       Rostos  disse Poirot.
 A Srta. Rich  boa em desenhar pessoas. Tem habilidade em conseguir semelhana.
        exatamente disto que preciso. 
      A Srta. Bulstrode, ele notou com satisfao, no fez nenhuma pergunta quanto aos motivos. Simplesmente retirou-se da sala e voltou com a Srta. Rich.
      Depois das apresentaes. Poirot disse:
       A senhorita sabe desenhar rostos? Com rapidez? 
      Eileen Rich balanou a cabea.
       Fao-o com freqncia. Como distrao.
       timo. Ento, por favor, desenhe a falecida Srta. Springer.
       Isto  difcil. Conheci-a por to pouco tempo! Vou tentar.
      Apertou os olhos e em seguida comeou a desenhar com agilidade.
 Bien  disse Poirot, apanhando o desenho.  E agora, por favor, a Srta. Bulstrode, a Srta. Rowan, Mademoiselle Blanche e, sim... o jardineiro Adam.
      Eileen Rich olhou-o em dvida e, em seguida, comeou a trabalhar. Poirot verificou o resultado e balanou a cabea satisfeito.
 A senhorita  boa nisto, muito boa. To poucos traos e, mesmo assim, a semelhana est a. Agora vou pedir para fazer algo mais difcil. D, por exemplo, 
 Srta. Bulstrode um novo penteado. Mude a forma de suas sobrancelhas.
      Eileen encarou-o como se o achasse maluco.
 No, no sou maluco. Estou apenas fazendo uma experincia,  s isso. Por favor, faa o que pedi.
      Depois de um ou dois minutos ela disse:  Aqui est.
 Excelente. Agora faa o mesmo com Mademoiselle Blanche e a Srta. Rowan.
      Quando ela terminou, ele colocou os trs desenhos um ao lado do outro.
 Agora vou-lhe mostrar algo  disse ele.  A Srta. Bulstrode, apesar das mudanas que a senhorita fez, continua sendo, indiscutivelmente, a Srta. Bulstrode. 
Entretanto, repare nas outras duas. Por no possurem feies marcantes e nem a personalidade da Srta. Bulstrode, parecem quase que pessoas diferentes, no parecem?
       Entendo o que quer dizer  falou Eileen Rich.
      Ela o olhou enquanto ele dobrava cuidadosamente os desenhos.
       O que vai fazer com eles?  perguntou ela.
       Us-los  respondeu Poirot.
      

CAPTULO 20
CONVERSAO
 BEM... NO SEI o QUE DIZER  falou a Sra. Sutcliffe.  Realmente no sei o que dizer...
      Ela olhou para Hercule Poirot com evidente desprazer.
       Henry no est em casa  informou ela.
      O significado deste pronunciamento era ligeiramente obscuro, porm Hercule Poirot achava que entendia o que se passava em sua mente. Henry, pensava ela, seria 
capaz de lidar com este tipo de coisa. Henry tinha tantas conexes internacionais! Estava sempre viajando para o Oriente Mdio, para Ghana, para a Amrica do Sul, 
Genebra e at mesmo ocasionalmente, mas no com tanta freqncia, a Paris.
 Tudo  comentou a Sra. Sutcliffe  foi extremamente lamentvel. Fiquei satisfeita em ter Jennifer aqui de volta em segurana. Embora deva confessar  acrescentou 
ela, com um trao de irritao  que Jennifer tem sido muito cansativa. Depois de ter-nos exasperado quanto ao fato de ir para Meadowbank, afirmando que no iria 
gostar de l, dizendo que era o tipo do colgio esnobe, e no o gnero de lugar para onde ela desejaria ir, agora fica o dia todo mal-humorada porque a tiramos de 
l.  mesmo um problema.
      Meadowbank , indiscutivelmente, um colgio muito bom  disse Hercule Poirot.  Muitas pessoas afirmam que  o melhor da Inglaterra.
       Eu diria que foi  observou a Sra. Sutcliffe.
       E vai voltar a ser  afirmou Hercule Poirot.
 O senhor acha?  a Sra. Sutcliffe olhou-o em dvida. Sua maneira simptica estava gradualmente derrubando a sua resistncia. No existe nada que alivie mais 
a carga de uma me do que lhe permitirem descarregar as duas dificuldades, seus pequenos fracassos e frustraes, que encontram ao lidar com os filhos. A lealdade 
muitas vezes obrigava-a a suportar os problemas em silncio. Contudo, no que dizia respeito a um estrangeiro como Hercule Poirot, a Sra. Sutcliffe sentia que esta 
lealdade no era necessria. No era como falar com a me de uma outra garota.
 Meadowbank  observou Poirot  est apenas atravessando uma fase infeliz.
      No momento era a melhor coisa que ele conseguia pensar para dizer. Ele percebeu que no se expressara bem e a Sra. Sutcliffe, imediatamente, revidou-o.
 Bem mais do que infeliz, eu diria  exclamou ela.  Dois assassinatos! E uma garota raptada. No se pode mandar uma filha para um colgio onde as professoras 
so assassinadas a toda hora.
      Parecia um ponto de vista altamente sensato.
 Se descobrirem que os assassinatos  falou Poirot  so obra de uma s pessoa e se esta for capturada, isto muda tudo, no?
 Bem, suponho que sim  respondeu a Sra. Sutcliffe, incerta.  Quero dizer... o senhor quer dizer... oh, entendo, como Jack o Estripador, ou aquele outro 
homem... quem era mesmo? Algo a ver com Devoshire. Cream? Neil Cream. Que saa por a matando um tipo infeliz de mulher. Suponho que este assassino de agora saia 
por a matando professoras. Espero que, uma vez que o tenham prendido, o enforquem. Oh, sim, se ele for apanhado, ento suponho que isto tornaria tudo diferente. 
 lgico que no pode existir muitas pessoas assim, no  mesmo?
       Certamente espera-se que no  disse Poirot.
 Mas h tambm o caso deste rapto  acentuou a Sra. Sutcliffe.  No se deseja mandar uma filha para um colgio onde ela possa vir a ser raptada, no ?
  claro que no, Madame. Vejo que a senhora conseguiu analisar tudo com muita clareza. Est absolutamente certa em tudo que diz. 
      A Sra. Sutcliffe pareceu satisfeita. J fazia algum tempo que ningum dizia nada parecido. Henry simplesmente falava coisas como:  Afinal de contas, no sei 
por que motivo voc quis mand-la para Meadowbank?  e Jennifer ficava o dia inteiro amuada, recusando-se a conversar.
 Tenho pensado muito a este respeito  disse ela.  Pensado bastante.
 Ento no deixarei que o caso do rapto a preocupe, Madame.  Entre nous, falando confidencialmente, a Princesa Shaista... no foi exatamente raptada... suspeita-se 
de um romance...
 Quer dizer que a garota levada simplesmente fugiu para se casar com algum?! 
 Meus lbios esto selados  disse Hercule Poirot.  A senhora compreende que se pretenda evitar um escndalo. Este  um segredo entre nous. Estou certo de 
que a senhora nada dir.
  claro que no  afirmou a Sra. Sutcliffe. Olhou a carta que Poirot trouxera do delegado.  No entendo bem quem  o senhor, er... er... Poirot.  o que 
nos romances chamam de... de detetive?
       Sou um consultor  respondeu Hercule Poirot imponente.
      Este saber de Harley Street encorajou a Sra. Sutcliffe.
 A respeito de que o senhor deseja falar com Jennifer?  perguntou ela.
 Apenas para obter suas impresses  respondeu Poirot.  Ela  uma menina observadora?
 Infelizmente eu diria que no  respondeu a Sra. Sutcliffe,  Ela no , de forma alguma, o que eu chamaria de uma criana que repara nas coisas, Quero dizer, 
ela  sempre muito distrada.
  melhor do que inventar coisas que jamais aconteceram  opinou Poirot.
 Oh, Jennifer nunca faria isto  afirmou a Sra. Sutcliffe, com segurana. Levantou-se, foi at  janela e chamou:  Jennifer!
 Gostaria  disse ela a Poirot, quando voltou  que o senhor tentasse colocar na cabea de Jennifer que seu pai e eu estamos apenas fazendo o que  melhor 
para ela.
      Jennifer entrou na sala com um ar mal-humorado, olhando com profunda desconfiana para Hercule Poirot.
 Como vai?  cumprimentou Poirot.  Sou um velho amigo de Jlia Upjohn. Ela foi a Londres me procurar.
 Jlia foi a Londres?  disse Jennifer ligeiramente surpresa.  Por qu?
       Para pedir um conselho  explicou Poirot. 
      Jennifer olhou-o incrdula.
 Pude aconselh-la  comentou Poirot.  Ela agora est de volta a Meadowbank  acrescentou.
 Ento sua tia Isabel no a tirou de l  disse Jennifer, lanando um olhar irritado para a me.
      Poirot olhou para a Sra. Sutcliffe, que por algum motivo, talvez por ter sido interrompida em alguma tarefa domstica quando Poirot chegou, ou talvez por causa 
de algum rompante inexplicvel, se levantou e deixou a sala.
  um tanto duro  disse Jennifer  estar de fora de tudo que est acontecendo por l. Todo este alvoroo. Eu disse a mame que era tolice. Afinal de contas, 
nenhuma das alunas foi assassinada.
 Voc tem alguma idia prpria a respeito dos assassinatos?  Indagou Poirot.
      Jennifer balanou a cabea.  Algum maluco?  sugeriu ela. E acrescentou pensativa:  Suponho que agora a Srta. Bulstrode ter que arrumar novas professoras.
  possvel  disse Poirot.  Ele prosseguiu:  Estou interessado, Mademoiselle Jennifer, na mulher que apareceu lhe oferecendo uma nova raqueta em troca 
da sua antiga. Est lembrada?
 Estou  respondeu Jennifer.  At hoje, no descobri quem a mandou realmente. No foi tia Gina, de forma alguma.
       Que aparncia tinha esta mulher?  perguntou Poirot.
 A que trouxe a raqueta?  Jennifer semicerrou os olhos como se pensasse.  Bem, eu no sei. Estava com um vestido azul enfeitado com uma espcie de capa, 
acho eu. E um chapu de abas cadas.
 Sim. Mas estou mais interessado em seu rosto do que em suas roupas.
 Acho que estava com um bocado de maquiagem  disse Jennifer vagamente.  Um pouco demais para o campo, quero dizer. Tinha cabelo louro. Parecia americana.
       Voc j a tinha visto antes? perguntou Poirot.
 Oh, no. No creio que ela morasse por aqui. Ela disse que tinha vindo para um almoo, um coquetel, ou algo assim.
      Poirot olhou-a pensativo. Ele estava interessado na total receptividade de Jennifer em relao a tudo que ele lhe dizia. Ele disse gentilmente:  Mas ela poderia 
no estar falando a verdade.
       Oh, no, suponho que no.
 Est bem certa de que no a tinha visto antes? Ela poderia ser, por exemplo, uma das meninas disfarada? Ou uma das professoras?
       Disfarada?  Jennifer parecia intrigada.
      Poirot pousou  sua frente o desenho que Eileen Rich havia feito de Mademoiselle Blanche.
       No era esta a mulher, era? 
      Jennifer olhou incerta.
       Parece um pouco com ela... mas no, acho que no  ela.
      Poirot balanou a cabea pensativo. No havia sinal de que Jennifer tivesse percebido que, na realidade, aquele era um retrato de Mademoiselle Blanche.
 Sabe  disse Jennifer  para dizer a verdade, no olhei muito para ela. Era uma americana e uma estranha e, ento, ela me falou da raqueta...
      Depois disso, era evidente, Jennifer no teria tido olhos Para nada mais alm de sua nova aquisio.
 Entendo  disse Poirot. Ele prosseguiu:  Voc, alguma vez, encontrou em Meadowbank algum que tivesse visto em Ramat?
 Em Ramat?  Jennifer refletiu.  Oh, no, pelo menos acho que no.
      Poirot agarrou-se  sua ligeira dvida.  Porm voc no tem certeza, no  mesmo, Mademoiselle Jennifer?
 Bem...  Jennifer coou a testa com uma expresso preocupada.  Quero dizer, a gente est sempre vendo pessoas que lembram algum. E no se consegue saber 
bem com quem elas parecem. Algumas vezes voc v pessoas que j encontrou antes, mas no se lembra quem elas so. E elas dizem:  Voc no se lembra de mim?  e 
ento  tremendamente embaraoso porque realmente voc no se recorda. Quero dizer, voc sabe que o rosto  familiar, porm no consegue lembrar-se do nome, ou de 
onde a viu antes.
 Isto  bem verdade  comentou Poirot.  Sim,  verdade.  comum ter-se esta experincia.  Fez uma curta pausa e ento continuou, pressionando gentilmente.
 A Princesa Shaista, por exemplo, voc provavelmente a reconheceu quando a viu, porque voc deve t-la encontrado em Ramat.
       Oh, ela estava em Ramat?
  muito provvel  disse Poirot.  Afinal de contas, ela era aparentada com a antiga famlia reinante. Voc poderia t-la visto por l.
 Acho que no  disse Jennifer franzindo a testa.  De qualquer modo, ela no andaria por l com o rosto  mostra, no  mesmo? Quero dizer, todas elas usam 
vus ou alguma coisa neste gnero. Embora, acho eu, que elas o tiram em Paris e no Cairo. E em Londres,  lgico  acrescentou.
 De qualquer forma, voc no teve a sensao de ter visto algum em Meadowbank que j tivesse encontrado anteriormente?
 No, tenho certeza que no.  claro que a maioria das pessoas sempre tm alguma coisa em comum, dando a impresso de que j as vimos antes.  somente quando 
 um rosto estranho como o da Srta. Rich que se presta ateno.
       Voc acha que j a tinha visto em algum lugar antes?
 Na realidade, no. Deve ter sido algum parecido com ela. Entretanto, era uma pessoa muito mais gorda.
       Mais gorda  repetiu Poirot pensativo.
 No se consegue imaginar a Srta. Rich gorda  disse Jennifer com um rizinho.  Ela  impressionantemente magra. E, de qualquer jeito, ela no poderia ter 
estado em Ramat, porque no ltimo semestre estava afastada, doente.
       E as outras meninas? Voc j havia visto alguma antes?
 Apenas as que eu j conhecia  respondeu Jennifer.  Conhecia uma ou duas delas. Afinal de contas, o senhor sabe, fiquei l apenas trs semanas e na realidade 
no cheguei a conhecer nem a metade das pessoas, nem ao menos de vista. No reconheceria a maioria delas se as encontrasse amanh.
 Voc deveria prestar mais ateno s coisas  disse Poirot com firmeza.
 No se pode notar tudo  protestou Jennifer. Continuou:  Se. Meadowbank continuar funcionando, eu gostaria de voltar para l. Veja se consegue alguma coisa 
com a mame. Embora eu ache que o cabea-dura  o papai.  horrvel aqui no campo. No tenho oportunidade de melhorar meu tnis.
       Asseguro-lhe que vou fazer o possvel  prometeu Poirot.

CAPTULO 21
APERTANDO O PASSO
 QUERO FALAR COM VOC, Eileen  disse a Srta. Bulstrode.
      Eileen Rich acompanhou a Srta. Bulstrode at a sala. Meadowbank estava estranhamente quieto. Cerca de vinte e cinco alunas ainda continuavam l. Alunas cujos 
pais haviam achado difcil, ou indesejvel, tir-las.
      O alvoroo causado pelo pnico tinha-se acalmado, como esperara a Srta. Bulstrode, devido  sua ttica de ao. Havia uma sensao generalizada de que at 
o prximo semestre tudo estaria esclarecido e resolvido. Havia sido sensato da parte da Srta. Bulstrode fechar o colgio,  o que pensavam.
      Nenhuma das professoras havia partido. A Srta. Johnson aborrecia-se com o excesso de tempo livre  sua disposio. Um dia no qual quase no havia o que fazer, 
no a agradava nem um pouco. A Srta. Chadwick, parecendo velha e infeliz, vagava de um lado para outro num estado lamentvel. Dava a impresso de ter sido atingida 
muito mais profundamente do que a Srta. Bulstrode. Esta, na verdade, conseguia, aparentemente sem dificuldade, continuar a ser ela mesma, imperturbvel e sem nenhum 
sinal de tenso ou abatimento. As duas professoras mais jovens nada tinham contra o descanso extra. Tomavam banho de piscina, escreviam longas cartas para amigos, 
parentes e estudavam folhetos de excurses. Ann Shapland dispunha de um bocado de tempo livre e no parecia ressentir-se por isso. Passava grande parte no jardim 
dedicando-se  jardinagem com eficincia inesperada. Que ela preferisse ser instruda no trabalho por Adam, ao invs do velho Briggs, talvez no fosse um fenmeno 
de se estranhar.
       Sim, Srta. Bulstrode  disse Eillen Rich.
 Tenho querido falar com voc  disse a Srta. Bulstrode.  Se este colgio vai continuar ou no, eu no sei. A reao das pessoas  sempre imprevisvel, porque 
cada uma reage de forma diferente. O resultado, entretanto, ser que a reao mais forte terminar convertendo os demais. Sendo assim, ou Meadowbank acabar...
 No  falou a Srta. Rich, interrompendo.  No acabar  ela quase bateu com o p e seu cabelo comeou imediatamente a se soltar.  A senhora no deve permitir 
isso. Seria um pecado... um crime!
       Voc fala de modo muito forte  comentou a Srta. Bulstrode.
  assim que eu sinto. Existem tantas coisas que, na realidade, no tm nenhuma importncia! Meadowbank, porm,  uma obra que vale a pena. Senti isso desde 
o primeiro momento em que aqui cheguei.
 Voc  uma lutadora  observou a Srta. Bulstrode.  Administro pessoas assim e asseguro-lhe que no pretendo me entregar docilmente. De certa forma, vou 
gostar da briga. Voc sabe que, quando tudo isto e as coisas correm bem demais, a pessoa se torna... no sei a palavra exata para o que eu quero dizer... acomodada? 
Enfastiada? Uma espcie de mistura das duas. Mas agora no me sinto enfastiada nem acomodada e vou lutar com todas as minhas foras e tambm com cada centavo que 
possuo. O que eu quero lhe dizer  o seguinte: se Meadowbank continuar, voc gostaria de ser minha scia?
       Eu?  Eillen arregalou os olhos.  Eu?
       Sim, minha cara  confirmou a Srta. Bulstrode.  Voc.
 Eu no poderia  disse Eileen Rich.  No sei o bastante. Sou muito jovem. Ora, eu no tenho a experincia, o conhecimento que a senhora desejaria.
 Eu sei o que quero. Note bem, no presente momento, esta no  uma boa oferta. Voc provavelmente estaria melhor em outro lugar. Contudo, quero lhe dizer 
uma coisa e  preciso que voc acredite em mim. Antes da morte lamentvel da Srta. Vansittart, eu j havia decidido que voc era a pessoa indicada para continuar 
 frente deste colgio.
 A senhora j pensava assim antes?  Eillen Rich olhou-a surpresa.  Mas eu pensei... ns pensamos... que a Srta. Vansittart...
 No havia nenhum acordo feito com a Srta. Vansittart  disse Bulstrode.  Confesso que eu a tinha em mente durante estes dois ltimos anos. Mas sempre alguma 
coisa me impedia de ter uma conversa definitiva com ela a este respeito. Atrevo-me a dizer que todo mundo pensava que seria ela a minha sucessora. Ela prpria pode 
ter pensado assim. Tambm eu, at recentemente, tinha esta idia. E ento cheguei  concluso de que ela no era bem o que eu queria.
 Mas ela parecia to qualificada para o cargo  comentou Eileen Rich.  Ela teria dado continuidade ao seu trabalho, seguindo fielmente as suas idias e mtodos.
 Sim, e o erro estaria justamente a. No se pode ficar presa ao passado. Uma certa dose de tradio  bom, mas nunca em demasia. Um colgio  para as crianas 
de hoje, e no para as crianas de cinqenta, ou mesmo de trinta anos atrs. Existem alguns colgios onde a tradio  fundamental. Entretanto, no  este o caso 
de Meadowbank. No  o colgio com uma longa tradio atrs de si.  a criao, se assim posso dizer, de uma mulher. Eu. Experimentei certas idias e levei-as adiante 
com o melhor de minha habilidade, embora ocasionalmente tivesse que modific-las quando no correspondiam s minhas perspectivas. Este no  um colgio convencional, 
mas tambm no nos podemos vangloriar do contrrio.  um colgio que tenta tirar o melhor partido dos dois mundos; o passado e o futuro, mas a verdadeira nfase 
est no presente.  assim que vai continuar, como deve continuar. Dirigido por algum com idias... idias atualizadas. Mantendo o que o passado tiver de bom e olhando 
em direo ao futuro. Voc tem a mesma idade que eu tinha quando comecei, porm voc possui o que eu no mais posso ter. Voc encontrar escrito na Bblia: Os homens 
idosos sonham sonhos e os jovens tm vises. No precisamos de sonhos aqui, precisamos de vises. Acredito que voc tenha vises e foi por este motivo que decidi 
que voc era a pessoa indicada e no Eleanor Vansittart.
 Teria sido maravilhoso  disse Eileen Rich.  Maravilhoso! A coisa que eu mais teria gostado neste mundo.
      A Srta. Bulstrode ficou surpresa com o tempo do verbo embora no o tenha demonstrado. Em vez disso, concordou imediatamente.
 Sim  disse ela  teria sido maravilhoso. Mas agora no o . Bem, creio que compreendo.
 No, no, no  isto que eu quero dizer  protestou Eileen Rich.  De forma alguma. Eu... eu no posso entrar em muitos detalhes, porm se a senhora tivesse 
me perguntado, falado comigo desta maneira, h uma semana ou h quinze dias atrs, eu teria dito de pronto que no poderia aceitar, que seria impossvel. O nico 
motivo por que... por que agora talvez seja possvel,  porque... porque  um caso de luta... de enfrentar problemas. Posso... posso pensar no assunto, Srta. Bulstrode? 
Eu no sei o que dizer agora.
  claro  respondeu a Srta. Bulstrode. Continuava surpresa. Na realidade, ningum conhece ningum, pensou ela.
      
II
      
 L vai a Rich com o seu cabelo se soltando como sempre  disse Ann Shapland ao se levantar de um canteiro.  Se ela no consegue mant-lo arrumado, no sei 
por que no o corta. Tem a cabea bem feita e ficaria melhor.
       Voc deveria dizer isto a ela  opinou Adam.
 No temos este tipo de intimidade  respondeu Ann Shapland. Continuou:  Voc acha que isto aqui vai poder continuar funcionando?
 Esta  uma pergunta difcil  disse Adam.  E quem sou eu para responder?
 Eu diria que voc sabe tanto quanto qualquer outro  falou Ann.   possvel que continue. A velha Bull, como as garotas a chamam, tem garra. Para comear, 
tem poder hipntico sobre os pais. Quanto tempo se passou desde que se iniciou o semestre... s um ms? Parece um ano. Ficarei contente quando terminar.
       No caso de o colgio continuar funcionando, voc vai voltar?
 No  respondeu Ann com nfase.  No  mesmo. J tive a minha dose de colgios para o resto da vida. E, de qualquer maneira, no fui feita para ficar presa 
com um bando de mulheres. E, francamente, no gosto de assassinatos.  o tipo de coisa que  divertido para se ler nos jornais, ou para se ler antes de dormir na 
forma de um bom livro. Entretanto, quando a coisa  verdadeira, no  to divertido. Acho que  acrescentou Ann pensativa  quando sair daqui, no final do semestre, 
vou me casar com Dennis e me acomodar.
 Dennis? Este  o tal a respeito de quem voc comentou comigo, no ? Pelo que me lembro, o trabalho dele leva-o  Birmnia, Malaia, Cingapura, Japo e lugares 
assim. No seria exatamente acomodar-se se voc se casar com ele, seria?
      Ann riu de repente.  No, suponho que no. No no sentido fsico, geogrfico.
 Acho que voc pode conseguir coisa melhor que o Dennis  observou Adam.
       Voc est-me fazendo uma proposta!  perguntou Ann.
 Certamente que no  respondeu Adam.  Voc  uma garota ambiciosa, no se casaria com um humilde jardineiro .
 Estava pensando em me casar com algum que trabalha no Departamento Central de Investigaes  disse Ann.
 No fao parte do Departamento Central de Investigaes  disse Adam.
 No, no,  claro que no  falou Ann.  Vamos manter a conversa amena. Voc no trabalha no Departamento Central de Investigaes. Shaista no foi raptada. 
Tudo neste jardim  lindo. Muito lindo!  acrescentou olhando em volta. De qualquer maneira  disse ela depois de um ou dois minutos  no consigo compreender 
o fato de Shaista aparecer em Genebra ou seja l como foi. Como ela foi parar l? Vocs devem ser muito displicentes para ter permitido que ela sasse do pas.
       Meus lbios esto selados  disse Adam.
 No creio que voc saiba alguma coisa a este respeito  disse Ann.
 Admito que temos que agradecer ao Sr. Poirot por ter tido uma idia brilhante.
 O qu? Aquele homem engraado que trouxe Jlia de volta e veio procurar a Srta. Bulstrode?
       Acho que ele  coisa do passado  opinou Ann.
 Eu no entendo o que ele est pretendendo  disse Adam.  Chegou at a ir procurar minha me... ou mandou algum de seus amigos.
       Sua me? Para qu?
 No tenho a menor idia. Ele parece ter um interesse mrbido por mes. Tambm foi ver a me de Jennifer.
       Por acaso ele procurou a me da Srta. Rich e a de Chaddy?
 Acho que a me da Srta. Rich j morreu  disse Adam.  Seno, sem dvida, ele teria ido v-la.
 A me da Srta. Chadwick mora em Cheltenham  ela me disse. Mas acho que tem cerca de oitenta anos. Pobre Srta. Chadwick, ela prpria parece ter oitenta anos. 
L vem ela falar conosco.
      Adam levantou os olhos.  Sim  disse ele  ela envelheceu muito na ltima semana.
  porque ela ama este colgio realmente  observou Ann.   a sua vida. No suporta v-lo desmoronar-se.
      A Srta. Chadwick parecia dez anos mais velha do que no dia do incio das aulas. Seus passos haviam perdido sua agilidade e energia. Ela j no caminhava apressada 
e feliz. Agora vinha em direo deles, com seus passos se arrastando um pouco.
 A Srta. Bulstrode deseja v-lo  falou para Adam.  Tem algumas instrues para lhe dar a respeito do jardim.
 Antes preciso me limpar um pouco  disse Adam. Ele pousou as suas ferramentas e se afastou em direo  estufa.
      Ann e a Srta. Chadwick caminharam juntas para o prdio do colgio.
 Tudo parece to quieto, no  mesmo?  comentou Ann, olhando em volta.  Como um teatro vazio  acrescentou pensativa  com as pessoas espalhadas habilidosamente, 
de modo a dar a impresso de casa cheia.
  terrvel  disse a Srta. Chadwick.  Terrvel! Pensar que Meadowbank chegou a este ponto. No consigo me conformar. No consigo dormir  noite. Tudo arruinado! 
Todos estes anos de trabalho, construindo-se algo realmente bom.
 Pode vir a ficar tudo bem outra vez  falou Ann alegremente  A senhora sabe que as pessoas tm memria muito fraca.
 Mas no to fraca assim  respondeu a Srta. Chadwick, sria.
      Ann ficou calada. No fundo do seu corao, ela concordava com a Srta. Chadwick.
      
III
      
      Mademoiselle Blanche saiu da sala de aula, onde estivera ensinando literatura francesa.
      Olhou seu relgio. Sim, haveria bastante tempo para fazer o que pretendia. Naqueles dias, com to poucas alunas, sempre havia tempo de sobra.
      Subiu at seu quarto e colocou um chapu. No era destas que andavam por a sem chapu. Estudou sua aparncia no espelho, satisfeita. No era um tipo para 
ser notado. Bem, poderia haver vantagens nisto. Sorriu para si mesma. Por esse motivo havia sido fcil para ela usar as credenciais de sua irm. At mesmo a fotografia 
do passaporte no fora posta em dvida. Teria sido uma enorme pena no fazer uso daquelas excelentes referncias, j que Angle morrera. Angle realmente gostara 
de lecionar. Para ela era um aborrecimento indescritvel. Todavia, o pagamento era excelente. Muito acima do que ela prpria jamais conseguira ganhar. E alm do 
mais as coisas haviam sado admiravelmente bem. O futuro ia ser bem diferente. Oh, sim, bem diferente. A inspida Mademoiselle Blanche iria transformar-se. Ela viu 
tudo diante de seus olhos. A Riviera. Ela vestida com elegncia, impecavelmente arrumada. Tudo o que a pessoa precisava neste mundo era de dinheiro. Oh, sim, tudo 
iria ser muito, muito agradvel. Valera a pena ter vindo para este detestvel colgio ingls.
      Apanhou sua bolsa, saiu do quarto e tomou o corredor. Seus olhos convergiram para a mulher ajoelhada que ali estava trabalhando. Uma nova diarista. Uma espi 
da polcia, naturalmente. Como eles eram ingnuos... achar que as pessoas no iriam perceber!...
      Com um sorriso de desdm, ela saiu do prdio e tomou o caminho at o porto principal. A parada de nibus era quase em frente. L, ela ficou esperando. O nibus 
chegaria dentro de alguns minutos.
      Havia poucas pessoas nesta sossegada estrada do interior. Um carro com um homem debruado sobre o cap. Uma bicicleta encostada numa cerca. Um outro homem 
esperando pelo nibus.
      Um dos trs, sem dvida, iria segui-la. Seria feito habilmente, de modo que no chamasse ateno. Estava perfeitamente ciente do fato e isto no a preocupava. 
Sua sombra era bem-vinda para ver aonde ela iria e o que faria.
      O nibus chegou. Ela entrou. Quinze minutos depois, desceu na rua principal da cidade. No se deu ao trabalho de olhar para trs. Atravessou para onde as vitrinas 
de uma loja mostravam sua nova coleo de vestidos. Artigos baratos, para gosto provinciano, pensou ela, com desprezo. Porm permaneceu olhando como se lhe agradasse.
      Logo depois entrou na loja, fez uma ou duas compras insignificantes e, em seguida, foi ao primeiro andar onde entrou no toalete de senhoras. L havia uma mesa, 
algumas cadeiras e uma cabina telefnica. Entrou na cabina, colocou a moeda necessria, discou o nmero que desejava, esperando para ouvir se a voz certa atendia.
      Balanou a cabea, satisfeita, apertou o boto A e falou.
 Aqui  da Maison Blanche. Voc est me compreendendo? A Maison Blanche. Preciso falar-lhe a respeito de uma conta que deve ser paga. Voc tem at amanh 
 tarde. Amanh  tarde. A quantia que eu vou lhe dizer deve ser depositada na conta da Maison Blanche, no Crdito Nacional, de Londres, na filial de Ledbury St.
      Ela especificou a soma.
 Caso o dinheiro no seja depositado, serei forada a informar ao departamento competente o que vi na noite do dia doze. Diz respeito... preste ateno... 
 Srta. Springer. Voc tem pouco mais de vinte e quatro horas.
      Desligou e saiu da cabina. Uma mulher acabara de entrar. Talvez fosse uma freguesa da loja, ou, quem sabe, talvez no. Mas se assim fosse, era tarde demais 
para ouvir qualquer coisa.
      Mademoiselle Blanche retocou a maquiagem no vestirio ao lado e, em seguida, experimentou algumas blusas, mas no as comprou. Tornou a sair para a rua, sorrindo 
para si mesma. Deu uma olhada numa livraria e depois tomou um nibus de volta para Meadowbank.
      Ainda sorria para si mesma, enquanto caminhava pela alameda. Ela ajeitara tudo muito bem. A quantia que pedira no fora grande demais... no era impossvel 
de ser levantada num curto perodo. E daria muito bem para comear. Porque,  lgico, no futuro, haveria mais exigncias...
      Sim, aquilo ia ser uma tima fonte de renda. Ela no tinha nenhum problema de conscincia. No considerava, de modo algum, dever seu informar  polcia o que 
tinha visto. Aquela tal de Springer havia sido uma mulher detestvel, rude, mal eleve. Metendo-se em assuntos que no lhe diziam respeito. Ah, bem, ela recebera 
o seu castigo.
      Mademoiselle Blanche ficou parada por algum tempo perto da piscina. Observou Eileen Rich mergulhando. Ento, Ann Shapland tambm subiu as escadas e mergulhou... 
muito bem, alis. Ouviu-se os risos e os gritinhos das garotas.
      A sineta tocou e Mademoiselle Blanche entrou para dar sua aula. As aulas eram desatentas e cansativas, porm Mademoiselle Blanche mal prestou ateno a elas. 
Breve ela estaria livre daquilo tudo para sempre.
      Subiu para seu quarto para se arrumar para o jantar. Vagamente, sem realmente notar, viu que havia jogado seu casaco em cima de uma cadeira no canto, ao invs 
de pendur-lo como de costume.
      Inclinou-se para a frente, estudando o seu rosto no espelho. Passou p-de-arroz, batom...
      O movimento foi to rpido que a apanhou completamente de surpresa. Sem o menor rudo. Profissional. O casaco sobre a cadeira pareceu mover-se, caiu no cho 
e, no mesmo instante, por trs de Mademoiselle Blanche, uma mo com um saco de areia levantou-se e, no momento em que ela abria a boca para gritar, caiu, pesada, 
sobre sua nuca.

CAPTULO 22
UM INCIDENTE EM ANATLIA
A SRA. UPJOHN estava sentada na beirada da estrada olhando a ravina. Falava metade em francs e metade por meio de gestos a uma mulher turca, grande e pesadona,
que lhe contava com o maior nmero de detalhes possvel, sob tais dificuldades de comunicao, tudo a respeito de seu ltimo aborto. Tivera nove filhos, explicara
ela. Oito deles meninos e cinco insucessos. Parecia to satisfeita com os abortos como com os partos.
 E a senhora?  ela cutucou gentilmente a Sra. Upjohn nas costelas.  Combien? Garons? Filles? Combien?  Levantou as mos pronta para mostrar nos dedos.
       Une fille  disse a Sra. Upjohn.
       Et garons?
      Percebendo que ela estava prestes a passar por uma avaliao por parte da mulher turca, a Sra. Upjohn num impulso de patriotismo preparou-se para mentir. Mostrou 
os cinco dedos de sua mo direita.
       Cinq!  disse ela.
       Cinq garons? Trs bien!
      A mulher turca balanou a cabea em sinal de aprovao e respeito.
      Acrescentou que se ao menos a sua prima que falava francs fluentemente estivesse ali, elas poderiam entender-se muito melhor. E, em seguida, retornou  histria 
do seu ltimo insucesso.
      Os outros passageiros estavam espalhados por perto, comendo do extico farnel que traziam nas cestas. O nibus, caindo aos pedaos, estava encostado junto 
a uma rocha e o motorista e um outro homem mexiam no motor. A Sra. Upjohn perdera completamente a noo do tempo. Inundaes haviam bloqueado duas estradas, tendo 
sido preciso tomar um desvio. Certa vez haviam ficado parados mais de sete horas at que o rio que transbordara diminusse o volume das guas. Ancara ficava num 
local no muito remoto, isto era tudo que sabia. Ela escutava a conversa ansiosa e incoerente de sua amiga, tentando calcular quando devia balanar a cabea em sinal 
de admirao ou quando sacudi-la em sinal de compreenso. 
      Uma voz cortou seus pensamentos, uma voz que em nada combinava com o ambiente que a cercava.
       Sra. Upjohn?  disse a voz.
      A Sra. Upjohn levantou os olhos. Um pouco adiante havia um carro parado. O homem a seu lado, indubitavelmente, sara dele. Seu rosto era, sem dvida alguma, 
o de um ingls, como tambm sua voz. Estava impecavelmente vestido, num terno de l cinza.
       Minha nossa!  exclamou a Sra. Upjohn.  Dr. Livingstone?
 , devo dar esta impresso  disse o estranho, satisfeito.  Meu nome  Atkinson. Sou do Consulado em Ancara. Estamos tentando entrar em contato com a senhora 
h dois ou trs dias, porm as estradas esto bloqueadas.
      Queriam entrar em contato comigo? Por qu  De repente, a Sra. Upjohn ficou de p. Todos os traos de uma alegre viajante haviam desaparecido. Ela era, deste 
momento em diante, toda uma me em preocupao.
       Jlia? Aconteceu alguma coisa com ela?
 No, no  tranqilizou o Sr. Atkinson.  Jlia est muito bem. No se trata disso. Aconteceram uns problemas em Meadowbank e queremos que a senhora v para 
l o mais rpido possvel. Levo-a de carro at Ancara e l a senhora poder tomar um avio imediatamente.
      A Sra. Upjohn abriu a boca tornando a fech-la em seguida. Levantou-se e disse:  o senhor ter que apanhar milha mala em cima do nibus.  a azul escura. 
 Virou-se, estendeu a mo para a sua companheira turca e falou:  Sinto muito, tenho que voltar para casa agora. Acenou para o resto do pessoal do nibus com o 
mximo de cordialidade, despediu-se com uma saudao turca, parte do seu restrito vocabulrio turco, e preparou-se para acompanhar o Sr. Atkinson, sem fazer nenhuma 
outra pergunta. Ocorreu a ele, como j ocorrera a muitas outras pessoas, que a Sra. Upjohn era uma mulher muito sensata.

CAPTULO 23
REVELAES
NUMA DAS MENORES SALAS de aula, a Srta. Bulstrode olhava para as pessoas presentes. Todos os membros de sua equipe estavam ali; a Srta. Chadwick, a Srta. Johnson, 
a Srta. Rich e as duas professoras mais jovens. Ann Shapland estava com um bloco de papel e uma caneta para o caso de a Srta. Bulstrode querer tomar alguma anotao. 
Ao lado da Srta. Bulstrode estava o Inspetor Kelsey e em frente a ele, Hercule Poirot. Adam Goodman num terreno neutro, entre as professoras, e, como ele prprio 
chamava, o corpo executivo.
      A Srta. Bulstrode levantou-se e falou com uma voz firme e experiente.
 Acho que  um direito  comeou ela  da minha equipe e das interessadas no destino deste colgio saber exatamente a que ponto chegaram as investigaes. 
Fui informada pelo Inspetor Kelsey de vrios fatos. O Sr. Hercule Poirot, que possui ligaes internacionais, obteve valiosa contribuio na Sua, e ele prprio 
ir falar a respeito deste assunto em especial. Lamento dizer que ainda no chegamos ao final das averiguaes, porm certos assuntos de menor importncia foram 
esclarecidos e achei que seria um alvio para todas vocs saber em que p esto os acontecimentos.  A Srta. Bulstrode olhou para o Inspetor Kelsey. Ele se levantou.
 Oficialmente  iniciou ele  no me encontro numa posio de poder revelar tudo que sei. Posso apenas tranqiliz-las dizendo que estamos obtendo progressos 
e comeando a ter uma idia de quem possa ser o responsvel pelos trs crimes cometidos neste local. Mais do que isso no posso adiantar. Meu amigo, Hercule Poirot, 
que no est preso a segredos oficiais e que tem inteira liberdade de apresentar-lhes suas prprias idias, ir revelar-lhes certas informaes que ele prprio obteve. 
Estou seguro de que todas as senhoras so leais a Meadowbank e  Srta. Bulstrode, e que guardaro para si mesmas os fatos que o Sr. Poirot ir relatar e que so 
de interesse pblico. Quanto menos comentrios, melhor; sendo assim, peo-lhes que mantenham segredo do que iro ouvir hoje aqui. Est entendido?
  claro  disse a Srta. Chadwick, falando em primeiro lugar e com nfase.   lgico que todos somos leais a Meadowbank, assim eu espero.
       Naturalmente  falou a Srta. Johnson.
       Oh, sim!  exclamaram as duas professoras mais jovens.
       Eu concordo  disse Eillen Rich. 
       Ento, por favor, Sr. Poirot.
      Hercule Poirot levantou-se, fez uma reverncia  audincia e cuidadosamente cofiou o bigode. As duas jovens professoras tiveram um sbito desejo de rir e, 
apertando os lbios, desviaram o olhar uma da outra.
 Tem sido uma poca difcil e angustiante para todas as senhoras  comeou ele.  Desejo, em primeiro lugar, dizer-lhes o quanto lamento. Naturalmente que 
tem sido pior para a Srta. Bulstrode; entretanto, as senhoras todas sofreram. Sofreram, em primeiro lugar, a perda de trs colegas, uma delas que estava aqui h 
bastante tempo. Refiro-me  Srta. Vansittart. A Srta. Springer e Mademoiselle Blanche eram,  bvio, novatas, contudo no tenho dvidas de que a morte delas foi 
um grande choque para todas e um acontecimento lamentvel. As senhoras devem tambm ter passado por uma grande dose de apreenso por ter-lhes parecido que fosse 
um ato de algum louco dirigido s professoras de Meadowbank. Posso assegurar-lhes que no se trata de nada disso e o Inspetor Kelsey poder confirmar minhas palavras. 
Meadowbank, por uma srie de coincidncias, tornou-se o centro de atenes de vrios interesses indesejveis. Existe, eu diria, um gato entre os pombos. Houve trs 
assassinatos e um rapto. Tratarei em primeiro lugar do rapto, pois nesta histria toda a dificuldade tem sido esclarecer-se os fatos de menor importncia, embora 
criminosos, que obscurecem, as pistas mais importantes... as pistas que levam a um assassino cruel e impiedoso agindo entre as senhoras.
      Apanhou uma fotografia em seu bolso.
       Quero mostrar-lhes esta foto.
      Kelsey apanhou-a, entregando-a  Srta. Bulstrode que, por sua vez, passou-a  equipe. Foi devolvida a Poirot. Ele olhou para seus rostos que estavam inexpressivos.
       Pergunto-lhes se reconhecem a jovem desta foto. 
      Todas balanaram a cabea em negativa.
 Pois deveriam  disse Poirot.  J que  a fotografia que obtive em Genebra da Princesa Shaista.
 Mas esta no  a Princesa Shaista!  exclamou a Srta. Chadwick.
 Exato  falou Poirot.  O fio da meada comea em Ramat onde, como sabem, houve uma revoluo h cerca de trs meses atrs. O ento governante, Prncipe Ali 
Yusuf, conseguiu fugir, levado pelo seu piloto particular. O avio, entretanto, caiu nas montanhas ao norte de Ramat e s foi descoberto mais tarde. Um certo artigo, 
de grande valor, que o Prncipe Ali Yusuf sempre carregava consigo, sumiu. No foi encontrado entre os destroos do avio e espalharam-se boatos de que tivesse sido 
trazido para este pas. Vrios grupos de pessoas estavam ansiosas para se apossarem destes valores. Um dos caminhos para isto era a nica parenta viva do Prncipe 
Ali Yusuf, sua prima, uma jovem que, na ocasio, estudava na Sua. Parecia provvel que, se o precioso artigo tivesse sido levado para fora de Ramat em segurana, 
deveria ser entregue  Princesa Shaista, seus parentes ou guardies. Certos agentes foram destacados para vigiarem a prpria Princesa. Era sabido que ela deveria 
vir para este colgio, Meadowbank. Sendo assim, seria apenas natural que algum fosse designado para conseguir emprego aqui e observar atentamente se alguma pessoa 
se aproximava da Princesa, sua correspondncia e qualquer chamada telefnica. Todavia surgiu uma idia mais simples e mais eficaz, a de raptar Shaista e mandar algum 
do grupo para o colgio no lugar da verdadeira princesa. Isto poderia ser feito com sucesso j que o Emir Ibrahim encontrava-se no Egito e s pretendia visitar a 
Inglaterra no final do vero. A Srta. Bulstrode no conhecia a garota pessoalmente. Todos os contatos que fizeram a respeito de sua vinda havia sido atravs da Embaixada 
de Londres.
 Este plano era simples ao extremo. A verdadeira Shaista deixou a Sua acompanhada por um representante da embaixada de Londres. Ou era o que se supunha. 
Na realidade, a Embaixada de Londres foi informada de que um representante do colgio suo acompanharia a jovem a Londres. Shaista foi levada para um agradvel 
chal na Sua, onde est desde ento, e uma garota completamente diferente chegou a Londres, sendo recebida por um representante da embaixada e em seguida trazida 
para este colgio. Esta substituta,  lgico, era necessariamente muito mais velha do que a verdadeira Shaista. Todavia isto dificilmente chamaria ateno j que 
as garotas orientais costumam parecer muito mais velhas do que a sua verdadeira idade. Uma jovem atriz, cuja especialidade  representar papis de colegiais, foi 
a agente escolhida.
 Eu perguntei  disse Poirot, num tom pensativo  se algum reparara os joelhos de Shaista. Os joelhos so um indicativo de idade. Os joelhos de uma mulher
de vinte e trs ou vinte e quatro anos nunca podem ser tomados por joelhos de uma menina de quatorze ou quinze anos. Ningum, infelizmente, notara os joelhos.
      O plano no foi o sucesso que eles haviam esperado. Ningum tentou entrar em contato com Shaista, nenhuma carta ou chamada telefnica de importncia chegou 
para ela e com o passar do tempo a ansiedade aumentava cada vez mais. O Emir Ibrahim poderia chegar  Inglaterra antes do esperado. No  um homem de anunciar seus 
planos com antecedncia. Tem o costume, pelo que eu soube, de dizer, sem mais nem menos  Amanh vou para Londres  e embarcar logo aps.
 A falsa Shaista estava, ento, ciente de que, a qualquer momento, algum que conhecia a verdadeira Shaista poderia chegar, especialmente depois do assassinato, 
e por este motivo ela comeou a preparar o caminho para o rapto, falando a este respeito com o Inspetor Kelsey.  bvio que o verdadeiro rapto j havia ocorrido. 
Assim que ela soube que seu tio viria busc-la na manh seguinte, enviou uma rpida mensagem pelo telefone e, meia hora antes de o carro certo chegar, um carro vistoso 
com uma placa falsa do CD apareceu e Shaista foi oficialmente raptada. Na realidade, ela foi deixada na primeira cidade, onde, imediatamente, retomou sua prpria 
personalidade. Uma nota de resgate foi enviada para manter a fico.
      Hercule Poirot fez uma pausa e ento disse:  Foi, como podem ver, apenas um truque teatral para desviar a ateno. A pessoa focaliza um rapto aqui e no ocorre 
a ningum que o rapto realmente aconteceu h trs semanas antes, na Sua.
      O que Poirot queria dizer na verdade, porm era educado demais para faz-lo,  que no ocorrera a ningum a no ser a ele mesmo.
 Passaremos agora  continuou ele  a algo muito mais srio que rapto... assassinatos.
 A falsa Shaista poderia,  evidente, ter matado a Srta. Springer, mas no poderia ter matado a Srta. Vansittart nem Mademoiselle Blanche e, no teria motivo 
para faz-lo, nem tal coisa havia sido exigido dela. Seu papel era simplesmente o de receber um valioso pacote se, como parecia provvel, fosse entregue a ela, ou 
ento receber notcias dele.
 Voltemos para Ramat onde tudo comeou. Foi espalhado por toda Ramat o boato de que o Prncipe Ali Yusuf havia entregue este valioso pacote a Bob Rawlinson, 
seu piloto particular, e que Bob Rawlinson foi ao hotel principal de Ramat onde sua irm a Sra. Sutcliffe e sua filha Jennifer estavam hospedadas. Elas haviam sado, 
porm Bob subiu at o quarto onde permaneceu pelo menos vinte minutos.  um tempo bastante longo sob as circunstncias. Ele poderia,  claro, ter estado escrevendo 
uma longa carta para sua irm. Contudo no foi assim. Deixou somente um pequeno bilhete que poderia ter sido escrito em dois minutos.
 Foi uma suposio vlida, feita por diferentes grupos interessados, a de que, durante o tempo que Bob permaneceu naquele quarto, colocara estes valores entre 
os pertences de sua irm e que ela os trouxera para a Inglaterra. Agora chegamos ao que eu poderia chamar a diviso de caminhos. Um grupo de interessados (ou talvez 
mais de um) presumiu que a Sra. Sutcliffe tivesse trazido estes bens para a Inglaterra e, em conseqncia disto, sua casa foi assaltada e uma busca minuciosa foi 
feita. Isto mostra que quem estava procurando no sabia onde exatamente o que procurava estava escondido. Somente suspeitava que fosse provvel que estivesse entre 
os pertences da Sra. Sutcliffe.
 Entretanto, havia algum que sabia com certeza absoluta onde estava, e acho que a esta altura no causar nenhum problema revelar-lhe onde, na realidade, 
Bob Rawlinson o escondera: no cabo de uma raqueta de tnis, cavando ali um buraco e em seguida juntando as peas novamente com tanta habilidade que seria difcil 
notar-se o que fora feito.
 A raqueta de tnis pertencia no  sua irm, mas sim a Jennifer. Algum que sabia exatamente o lugar do esconderijo foi ao Pavilho de Esportes certa noite, 
tendo, previamente, tirado o molde e mandado fazer uma chave. quela hora da noite, todos deveriam estar dormindo. Mas no foi o que aconteceu. Do prdio do colgio, 
a Srta. Springer viu uma luz de lanterna no Pavilho de Esportes e saiu para investigar. Era uma jovem mulher forte e valente e no tinha dvida quanto  sua prpria 
capacidade de enfrentar qualquer perigo que encontrasse. A pessoa em questo provavelmente estava mexendo nas raquetas para ver se encontrava o que procurava. Sendo 
descoberta e reconhecida pela Srta. Springer, no hesitou... O invasor era o assassino e atirou, matando a Srta. Springer. Depois, entretanto, o criminoso teve que 
agir depressa. O tiro fora ouvido e pessoas se aproximavam. A todo custo, precisava sair do Pavilho de Esportes sem ser visto. Por enquanto, a raqueta teria que 
ficar onde estava...
 Poucos dias depois, um novo mtodo foi tentado. Uma mulher estranha, com um falso sotaque americano, ficou na emboscada, esperando Jennifer, quando esta 
saa da quadra de tnis Contou-lhe uma histria plausvel sobre uma parenta sua ter-lhe mandado ali, com uma nova raqueta de tnis. Jennifer, sem nada suspeitar, 
aceitou a histria e, com satisfao, trocou a raqueta que carregava pela nova, que a estranha trouxera. Mas havia acontecido algo que a mulher ignorava. Poucos 
dias antes, Jennifer Sutcliffe e Jlia Upjohn haviam trocado de raquetas. Deste modo, a que a estranha levou era, na realidade, a velha raqueta de Jlia Upjohn, 
embora o adesivo trouxesse o nome de Jennifer.
 Chegamos agora  segunda tragdia. A Srta. Vansittart, por alguma razo que desconhecemos, mas possivelmente ligada ao rapto de Shaista que tivera lugar 
naquela tarde, apanhou uma lanterna e foi at o Pavilho depois de todos terem ido se deitar. Algum que a seguira at l golpeou-a com um cacete ou um saco de areia, 
enquanto ela estava abaixada em frente do armrio de Shaista. Mais uma vez o crime foi descoberto quase que imediatamente. A Srta. Chadwick viu uma luz no Pavilho 
e foi rapidamente para l.
 A polcia, outra vez, interditou o Pavilho de Esportes. E o assassino fora impedido de procurar e examinar as raquetas de tnis. Porm, a esta altura, Jlia 
Upjohn, uma menina inteligente, havia pensado no assunto e chegara  concluso lgica de que a raqueta que estava em seu poder e que originalmente pertencera a Jennifer 
era, de algum modo, importante. Investigando por conta prpria, descobriu que estava certa em sua suposio, levando para mim o que encontrou na raqueta.
 Que est agora  disse Poirot  guardado em segurana, e quanto a isto no nos precisamos preocupar mais.  Fez uma pausa e ento prosseguiu:  resta analisar 
a terceira tragdia.
 O que Mademoiselle Blanche sabia ou suspeitava, jamais saberemos. Ela pode ter visto algum saindo do prdio do colgio na noite do assassinato da Srta. 
Springer. Seja l o que for, ela conhecia a identidade do criminoso. E guardou este segredo para si mesma. Planejava obter dinheiro em troca de seu silncio.
 No h nada  afirmou Hercule Poirot com veemncia  mais perigoso do que chantagear uma pessoa que talvez j tenha matado duas vezes. Mademoiselle Blanche 
pode ter tomado suas precaues, porm foram inadequadas. Marcou um encontro com o assassino e foi assassinada.
      Fez uma nova pausa.
 A est, ento  disse ele olhando para os presentes,  o relato de todo o caso.
      Todos o encaravam. Seus rostos, onde a princpio estava refletido interesse, surpresa, agitao, pareciam agora congelados numa calma uniforme. Era como se 
estivessem apavorados de demonstrar qualquer emoo. Hercule Poirot balanou a cabea.
 Sim  disse ele,  entendo como se sentem. Tudo se passando muito prximo.  por isto que eu, o Inspetor Kelsey e o Sr. Adam Goodman estivemos fazendo investigaes. 
Precisamos saber se ainda h um gato entre os pombos. Entendem o que eu quero dizer? Se ainda existe algum aqui que se est escondendo sob um falso colorido.
      Ouviu-se um leve murmurar entre os que o escutavam. Um ligeiro, quase furtivo, olhar disfarado, como se desejassem olhar um para o outro, mas no ousassem 
faz-lo.
 Fico feliz em poder tranqilizar-lhes  disse Poirot.  Todas as senhoras so exatamente quem alegam ser. A Srta. Chadwick, por exemplo  a Srta. Chadwick... 
quanto a isto certamente no havia dvida, j que ela est aqui h tanto tempo quanto o prprio Meadowbank. A Srta. Johnson tambm , indubitavelmente, a Srta. Johnson. 
A Srta. Rich  a Srta. Rich. A Srta. Shapland  a Srta. Shapland. A Srta. Rowan e a Srta. Blake so a Srta. Rowan e a Srta. Blake. Para ir mais longe  falou Poirot, 
virando a cabea,  Adam Goodman, que trabalha aqui como jardineiro, se no  precisamente Adam Goodman,  de qualquer modo a pessoa cujo nome est em suas credenciais. 
Sendo assim ento, em que ponto ficamos? Precisamos procurar no por algum que se esteja escondendo sob uma falsa identidade, mas por algum que, sob sua verdadeira 
identidade,  um assassino.
      A sala, agora, estava completamente silenciosa. Havia uma ameaa no ar.
      Poirot prosseguiu:
 Procuramos, em primeiro lugar, algum que estava em Ramat h trs meses atrs. O conhecimento de que os bens estavam escondidos na raqueta de tnis s poderia 
ter sido obtido de uma maneira. Algum deve ter visto Bob Rawlinson coloc-los ali. Isto  bvio. Quem ento, de todas vocs aqui presentes, estava em Ramat h trs 
meses atrs? A Srta. Chawick estava aqui. A Srta. Johnson estava aqui.  Dirigiu seu olhar para as duas jovens professoras.  A Srta. Rowan e a Srta. Blake tambm 
estavam aqui.
      Seu dedo continuou apontando.
 Mas a Srta. Rich... a Srta. Rich no estava aqui no ltimo semestre, estava?
 Eu... no. Eu estava doente. Falou apressada:  Estive fora por um semestre.
 Isto ns no sabamos at h poucos dias atrs, quando algum mencionou o fato casualmente  comentou Poirot.  Quando interrogada pela polcia, a senhorita 
declarou que trabalhava em Meadowbank h um ano e meio. Isto em si  verdade. Entretanto, a senhorita esteve ausente no ltimo semestre. Poderia ter estado em Ramat... 
acho que esteve em Ramat. Tome cuidado. Pode ser verificado, como sabe, pelo seu passaporte.
      Houve um momento de silncio e ento Eileen Rich ergueu os olhos.
       Sim  disse calmamente.  Estive em Ramat. Por que no?
       Por que motivo foi para Ramat, Srta. Rich?
 O senhor j sabe, eu estava doente. Fui aconselhada a descansar... a fazer uma viagem. Escrevi para a Srta. Bulstrode explicando que precisava me ausentar 
durante um semestre. Ela entendeu perfeitamente.
  verdade  confirmou a Srta. Bulstrode.  Junto havia um atestado mdico que dizia ser desaconselhvel para a Srta. Rich prosseguir com seu trabalho no 
perodo seguinte.
       Ento a senhorita foi para Ramat  disse Hercule Poirot.
 Por que eu no deveria ir para l? , falou Eileen Rich. Sua voz tremia ligeiramente.  Oferecem tarifas baratas a professoras. Eu precisava descansar. Queria 
sol. Fui para Ramat. Passei dois meses l. Por que no. Por que no, pergunto eu?
 A senhorita nunca mencionou que estivera em Ramat na poca da revoluo.
 Por que deveria eu? O que isto tem a ver com as pessoas aqui? No matei ningum, posso-lhe garantir. No matei ningum.
 A senhorita foi reconhecida, sabia?  disse Poirot. No com exatido. Jennifer foi muito vaga. Disse que achava que a tinha visto em Ramat, porm concluiu 
que no poderia ser, porque a pessoa que ela vira era gorda, no magra. Ele se inclinou para a frente, seus olhos fixos no rosto de Eileen Rich.
       O que tem a declarar, Srta. Rich? 
      Ela revidou:
 Estou sabendo o que o senhor est tentando fazer!  gritou ela.  Est tentando provar que no foi um agente secreto ou algo deste tipo quem cometeu estes 
assassinatos. Que foi algum que simplesmente estava aqui, algum que viu este tesouro ser escondido numa raqueta de tnis. Algum que sabia que a garota vinha para 
Meadowbank e que ento teria a oportunidade de apanhar o que estava escondido. Mas eu lhe digo que no  verdade.
 Acho que foi exatamente isto que aconteceu. Sim  falou Poirot. Algum viu as pedras serem escondidas e esqueceu-se de todas as suas obrigaes e interesses 
no propsito de possu-las.
       No  verdade, eu lhe digo. Eu no vi nada...
       Inspetor Kelsey  Poirot virou o rosto.
      O Inspetor Kelsey balanou a cabea foi at  porta, abriu-a e a Sra. Upjohn entrou na sala.
      
II
      
 Como vai, Srta. Bulstrode?  cumprimentou a Sra. Upjohn, parecendo um pouco embaraada.  Desculpe-me por estar um tanto desarrumada, porm eu ontem me encontrava 
em algum lugar perto de Ancara e acabo de chegar de avio. Estou com uma aparncia terrvel, mas realmente no tive tempo de me ajeitar ou de fazer nada.
 Isto no tem importncia  garantiu Hercule Poirot.  Queremos perguntar-lhe algo.
 Sra. Upjohn  falou Kelsey,  quando a senhora veio trazer sua filha para este colgio e estava na sala da Srta. Bulstrode, a senhora olhou pela janela... 
a janela que d para o ptio da frente... e soltou uma exclamao como se reconhecesse algum que tivesse visto ali. Estou certo?
      A Sra. Upjohn encarou-o surpresa.  Quando eu estava na sala da Srta. Bulstrode? Olhei... oh, sim,  claro. Sim, eu vi algum.
       Algum que a senhora ficou surpresa em ver?
       Bem, um tanto... Sabe, havia sido h tantos anos atrs.
 Refere-se ao tempo em que a senhora trabalhava para o Servio Secreto, na poca da guerra?
 Sim, h cerca de quinze anos atrs.  lgico que ela parecia bem mais velha, entretanto eu a reconheci de imediato. E fiquei imaginando o que ela estaria 
fazendo aqui.
 Sra. Upjohn, poderia olhar e dizer se esta pessoa se encontra nesta sala?
 Sim,  claro  disse a Sra. Upjohn.  Eu a vi assim que entrei.  ela.
      Apontou com o dedo. O Inspetor Kelsey foi rpido, como tambm o foi Adam; porm no foram rpidos o bastante. Ann Shapland levantara-se num pulo. Em sua mo 
havia uma pequena pistola automtica, apontando diretamente para a Sra. Upjohn. A Srta. Bulstrode, mais ligeira do que os dois homens, avanou. Entretanto, mais 
rpida ainda fora a Srta. Chadwick. No era a Sra. Upjohn que ela tentava proteger, era a mulher que estava entre Ann Shapland e a Sra. Upjohn.
 No, no faa isto  gritou Chaddy, atirando-se na frente da Srta. Bulstrode no momento em que a pistola disparava.
      A Srta. Chadwick cambaleou e caiu. A Srta. Johnson correu at ela. A esta altura, Adam e Kelsey haviam segurado Ann Shapland. Ela se debatia como um gato selvagem, 
porm eles conseguiram arrancar a automtica de sua mo.
      A Sra. Upjohn falou ofegante:
 Na ocasio diziam que ela era uma assassina. Embora fosse to jovem. Um dos agentes mais perigosos que eles tinham. Anglica, este era seu nome de cdigo.
 Sua cadela mentirosa!  Ann Shapland gritou as palavras com todas as letras.
      Hercule Poirot disse:
 Ela no est mentindo. Voc  mesmo perigosa. Sempre levou uma vida perigosa. At agora nunca suspeitaram de voc sob a sua verdadeira identidade. Todos 
os empregos que voc teve usando seu prprio nome foram empregos perfeitamente legtimos, realizados com eficincia... mas todos com um propsito, e este propsito 
tem sido a obteno de informaes. Voc trabalhou para uma Companhia de Petrleo; para um arquelogo, cujo trabalho o levava para uma determinada parte do globo; 
para uma atriz, cujo protetor era um eminente poltico. Desde que tinha dezessete anos voc tem trabalhado como agente... embora para diferentes patres. Seu trabalho 
 para quem der mais e sempre regiamente pago. Voc tem desempenhado um duplo papel. A maior parte de suas tarefas foi executada sob o seu nome verdadeiro, contudo 
havia certos servios para os quais voc assumia identidades diferentes. Era, nestas ocasies, que voc ostensivamente tinha que ir para casa, ficar com sua me.
 Porm tenho forte suspeita, Srta. Shapland, que aquela senhora idosa que eu visitei e que mora numa pequena vila com uma outra senhora, que  ao mesmo tempo 
enfermeira e dama de companhia, e que  nitidamente uma doente mental, no  de forma alguma sua me. Ela tem sido a sua desculpa para se afastar do seu crculo 
de amigos e de seus empregos. Os trs meses deste inverno que passou com sua me que tivera uma de suas crises, encobre o tempo que esteve em Ramat. No como Ann 
Shapland, mas como Anglica de Toledo, uma danarina de cabar espanhola, ou quase espanhola. Voc ocupou, no hotel, o quarto vizinho ao da Sra. Sutcliffe e, de 
alguma maneira, conseguiu ver Bob Rawlinson esconder as pedras preciosas na raqueta. Naquela ocasio voc no teve oportunidade de apanhar a raqueta, pois houve 
uma repentina evacuao de todos os cidados britnicos, porm voc leu a etiqueta na bagagem e foi fcil descobrir alguma coisa a respeito de sua dona. Obter um 
posto de secretria aqui, no foi difcil. Fiz algumas investigaes. Voc pagou uma soma substancial  antiga secretria da Srta. Bulstrode para que ela deixasse 
seu emprego alegando um esgotamento nervoso. E voc tinha uma histria bastante convincente. Fora incumbida de escrever uma srie de artigos a respeito de um famoso 
colgio de moas visto por dentro.
 Tudo parecia muito simples, no parecia?  continuou Poirot.  Se dessem por falta de uma raqueta de tnis de uma das alunas, que importncia teria? Mais 
fcil ainda seria ir  noite ao Pavilho de Esportes e retirar as pedras. Todavia voc no contava com a Srta. Springer. Talvez ela j tivesse visto voc examinando 
as raquetas. Ou talvez, por um acaso, houvesse acordado naquela noite. Ela a seguiu at l e voc a matou. Mais tarde, Mademoiselle Blanche tentou chantage-la e 
voc tambm a matou. Para voc, matar  uma coisa simples, no ?
      Ele se calou. Falando num tom oficial, o Inspetor Kelsey deu voz de priso.
      Ela no deu ateno. Virando-se para Hercule Poirot, explodiu em insultos grosseiros que deixou a todos estarrecidos.
 Cus!  exclamou Adam, quando Kelsey a levou.  E eu que pensava que ela fosse uma boa moa!
      A Srta. Johnson estivera o tempo todo ajoelhada ao lado da Srta. Chadwick.
 Receio que esteja gravemente ferida  disse ela.   melhor no remov-la at que o mdico chegue.

CAPTULO 24
POIROT EXPLICA
A SRA. UPJOHN, percorrendo os corredores de Meadowbank, esqueceu a cena excitante que acabara de presenciar. No momento ela era apenas uma me procurando por sua 
filha. Encontrou-a numa sala de aula deserta. Jlia estava curvada sobre uma carteira, mordendo a lngua, absorta nas agonias de uma composio.
      Ela levantou a cabea e arregalou os olhos. Correu e abraou a me.
       Mame!
      Ento, com a autocrtica prpria da sua idade, envergonhada da sua emoo incontida, soltou-se e falou num tom propositalmente casual... na verdade, quase 
acusador:  Voc no voltou um tanto cedo, mame?
 Vim de avio  respondeu a Sra. Upjohn, quase se desculpando.  De Ancara.
 Oh!  exclamou Jlia.  Bem, estou contente que esteja aqui.
 Sim  disse a Sra. Upjohn.  Eu tambm estou muito contente.
      Olharam-se embaraadas.  O que est fazendo?  perguntou a Sra. Upjohn, aproximando-se um pouco mais.
 Estou escrevendo uma composio para a Srta. Rich  explicou Jlia.  Ela realmente escolhe os assuntos mais interessantes.
 Qual  este?  indagou a Sra. Upjohn, inclinando-se para olhar.
      O tema estava escrito no alto da pgina. Abaixo havia umas nove ou dez linhas escritas com a caligrafia incerta e esparramada de Jlia: Analise as atitudes 
de Macbeth e de Lady Macbeth em relao a assassinatos.
 Bem  falou ela incerta,  voc no pode dizer que o assunto no seja atual.
      Leu o comeo da dissertao de sua filha.
      Macbeth [escrevera Jlia] gostou da idia de matar e estivera pensando bastante sobre isto, porm precisava um empurro inicial. No momento em que comeou, 
ele sentiu prazer em assassinar as pessoas e no teve mais escrpulos nem medo. Lady Macbeth era apenas gananciosa e ambiciosa. Ela achou que no iria se importar 
com o que ela fizesse para conseguir o que queria. Porm quando o fez, descobriu que, na verdade, no gostava daquilo.
 A sua linguagem no  muito elegante  observou a Sra. Upjohn.  Acho que voc ter que melhorar um pouco, mas sem dvida tem a um bom ponto de partida.
      
II
      
      O Inspetor Kelsey falava num tom levemente queixoso.
 Est tudo muito bem, Poirot  disse ele.  Voc pode dizer e fazer uma poro de coisas que ns no podemos e admito que o negcio todo foi muito bem engendrado. 
Deix-la desprevenida, faz-la pensar que estvamos atrs da Rich e, ento, a sbita apario da Sra. Upjohn fazendo com que ela perdesse a cabea. Graas a Deus 
ela guardou a sua pistola depois de matar a Springer. Se a bala combinar...
       Vai combinar, mon ami, vai combinar  afirmou Poirot.
 Ento podemos prend-la pela morte de Springer. E acho que a Srta. Chadwick encontra-se em pssimo estado. Mas olhe aqui, Poirot, eu ainda no consegui entender 
como ela poderia ter matado a Srta. Vansittart.  fisicamente impossvel. Ela tem um libi fortssimo... a no ser que o jovem Rathbone e todos os empregados do 
Nid Sauvage sejam seus cmplices. 
      Poirot balanou a cabea.  Oh, no. Seu libi  verdadeiro. Ela matou a Srta. Springer e Mademoiselle Blanche. Porm a Srta. Vansittart... -ele hesitou por 
um momento, seu olhar indo at onde a Srta. Bulstrode estava sentada, escutando-os. A Srta. Vansittart foi assassinada pela Srta. Chadwick.
 A Srta. Chadwick?!  exclamaram a Srta. Bulstrode e Kelsey ao mesmo tempo.
      Poirot balanou a cabea.  Tenho certeza absoluta.
       Mas... por qu?
 Acho  disse Poirot  que a Srta. Chadwick amava demais Meadowbank...  Seu olhar encontrou o da Srta. Bulstrode.
 Entendo  disse ela.  Sim, sim, entendo... eu deveria ter sabido.  Fez uma pausa.  O senhor quer dizer que ela...
 Quero dizer que ela comeou aqui com a senhora e que o tempo todo ela encarou Meadowbank como uma realizao de ambas.
       O que de certa forma  verdade  falou a Srta. Bulstrode.
 Exato  disse Poirot.  Porm este era apenas o aspecto financeiro. Quando a senhora comeou a falar em aposentar-se, ela achou que seria sua substituta.
       Mas ela  muito idosa  objetou Bulstrode.
 Sim  concordou Poirot.  Ela  muito idosa e no  adequada para ser uma diretora. Ela, porm, no pensava assim. Tinha, como certo, que quando a senhora 
se retirasse, ela se tornaria diretora de Meadowbank. E a descobriu que no era assim. Que a senhora tinha outra pessoa em mente, que voltara seu interesse para 
Eleanor Vansittart. E ela amava Meadowbank. Amava o colgio e no gostava de Eleanor Vansittart. Acho que no final ela a detestava.
  possvel  disse a Srta. Bulstrode.  Sim, Eleanor Vansittart era... como vou explicar? Era sempre muito segura de si mesma, muito superior em relao 
a tudo. Isto  difcil de se suportar se a pessoa sente cimes.  isto que o senhor quer dizer, no ? Chaddy sentia cimes.
 Sim  confirmou Poirot.  Tinha cimes de Meadowbank e de Eleanor Vansittart. No podia suportar a idia do colgio e da Srta. Vansittart juntos. E depois 
talvez alguma coisa em sua atitude a tenha levado a pensar que a senhora estava fraquejando.
 Est certo, mas no do modo como talvez Chaddy tenha pensado. Na realidade, eu pensei em algum mais jovem, mais jovem ainda que a Srta. Vansittart. Refleti 
melhor e ento disse:  No, ela  jovem demais...  lembro-me que naquele momento Chaddy estava comigo.
 E ela pensou  disse Poirot  que a senhora estava se referindo  Srta. Vansittart. Que estava dizendo que a Srta. Vansittart era jovem demais. Ela concordava 
com isto inteiramente. Achava que a experincia e a sabedoria que ela possua eram fatores muito mais importantes. Mas ento, apesar de tudo, a senhora voltou  
sua deciso original. Escolheu Eleanor Vansittart como a pessoa certa para deixar, naquele fim de semana, na direo do colgio.
      Acho que foi o que aconteceu. Naquela noite de domingo, a Srta. Chadwick estava inquieta. Levantou-se e viu luz no Pavilho de Esportes. Foi at l, exatamente 
como contou. H apenas um detalhe diferente. No foi um taco de golfe que ela levou. Ela apanhou um dos sacos de areia da pilha no hall. Saiu pronta para enfrentar 
um ladro, algum que, pela segunda vez, invadira o Pavilho. Estava com o saco de areia pronto em sua mo para se defender, caso atacada. O que encontrou ela? Encontrou 
Eleanor Vansittart ajoelhada em frente a um armrio e ela pensou,  possvel... (pois sou bom  disse Poirot num parntese  em colocar-me no lugar de outras pessoas) 
 ela pensou, que se eu fosse um assaltante, um ladro, eu me aproximaria por trs e a golpearia. E quando este pensamento surgiu em sua mente, apenas semiconsciente 
do que estava fazendo, levantou o saco de areia e deu o golpe. E l estava Eleanor Vansittart morta, fora de seu caminho. Acho que a ficou horrorizada com o que 
fizera. Isto a tem torturado desde ento, pois ela no  uma assassina nata. Ela foi impulsionada, como algumas pessoas o so, por cime e obsesso. A obsesso de 
seu amor por Meadowbank. Agora, com Eleanor Vansittart morta, ela estava bem certa de que seria sua sucessora em Meadowbank. Sendo assim, ela no confessou seu crime 
Contou  polcia a histria como realmente acontecera, exceto por um ponto vital, que fora ela quem dera o golpe. Entretanto, quando lhe perguntaram a respeito do 
taco de golfe que, provavelmente, a Srta. Vansittart levara consigo por estar nervosa depois de tudo que acontecera, a Srta. Chadwick apressou-se em responder que 
fora ela quem o levara at l. No queria que pensassem, nem por um segundo, que ela carregara o saco de areia.
 Por que Ann Shapland tambm escolheu um saco de areia para matar Mademoiselle Blanche?  indagou a Srta. Bulstrode.
 Primeiro, porque ela no poderia arriscar-se com o barulho de um tiro de revlver no prdio do colgio e, segundo, porque  uma jovem muito esperta. Queria 
ligar este terceiro assassinato com o segundo, para o qual tinha um libi.
 No consigo compreender o que Eleanor Vansittart estava fazendo no Pavilho de Esportes  falou a Srta. Bulstrode.
 Acho que podemos fazer uma suposio. Ela provavelmente estava muito mais preocupada com o desaparecimento de Shaista do que se permitia demonstrar. Estava 
to inquieta quando a Srta. Chadwick. De certo modo, era pior para ela, pois a senhora a deixara encarregada do colgio e o rapto ocorrera enquanto ela era responsvel. 
Alm do mais, havia dado pouca importncia ao fato por uma relutncia em encarar de frente fatos desagradveis.
 Ento havia fraqueza por trs daquela fachada  comentou a Srta. Bulstrode absorta em seus pensamentos.  Algumas vezes suspeitei disto.
 Creio que ela tambm no conseguia conciliar o sono. E acredito que foi, sorrateiramente, at o Pavilho de Esportes para dar uma busca no armrio de Shaista 
a fim de verificar se l havia alguma pista que explicasse o desaparecimento da jovem.
       O senhor parece ter explicao para tudo, Sr. Poirot.
 Esta  a sua especialidade  disse o inspetor com uma ligeira malcia.
 E o que o senhor, pretendia ao pedir que Eileen Rich lhe desenhasse o retrato de vrios membros da minha equipe?
 Desejava testar a habilidade de Jennifer em reconhecer um rosto. Logo cheguei  concluso de que Jennifer estava to absorvida em seus prprios interesses 
que dispensava aos outros, no mximo, um olhar superficial, notando apenas os detalhes externos de suas aparncias. Ela no reconheceu o retrato de Mademoiselle 
Blanche com um penteado diferente. Muito menos ainda, ela reconheceria Ann Shapland que, como sua secretria particular, raramente tinha oportunidade de ver de perto.
 O senhor acha que a mulher com a raqueta era a prpria Ann Shapland?
 Sim. Foi tudo obra de uma s mulher. A senhora est lembrada do dia em que tocou a campainha para cham-la a fim de que levasse um recado para Jlia? E no 
final, como o chamado no era atendido, mandou uma menina procurar Jlia? Ann estava habituada a usar disfarces. Uma peruca loura, sobrancelhas desenhadas de modo 
diferente, um vestido enfeitado e um chapu. Precisava se afastar de sua mquina de escrever por apenas cerca de vinte minutos. Pude ver pelos bons desenhos da Srta. 
Rich como  fcil para uma mulher alterar a sua aparncia com detalhes puramente externos.
 A Srta. Rich... ser que...  a Srta. Bulstrode parecia pensativa.
      Poirot lanou um olhar para o Inspetor Kelsey e o inspetor disse que precisava se retirar.
       A Srta. Rich...  repetiu a Srta. Bulstrode.
 Mande cham-la  aconselhou Poirot.   o melhor que tem a fazer.
       Eileen Rich apareceu. Estava plida e ligeiramente desafiante.
 A senhora quer saber  disse ela  Srta. Bulstrode  o que eu estava fazendo em Ramat?
       Acho que tenho uma idia  falou a Srta. Bulstrode.
  isso  disse Poirot.  As crianas hoje em dia conhecem todos os fatos da vida... porm seus olhos, muitas vezes, conservam a inocncia.
      Acrescentou que tambm ele precisava ir andando e se retirou apressado.
 Foi isto, no foi?  perguntou a Srta. Bulstrode. Seu tom era firme e formal. Jennifer simplesmente a descreveu como gorda. Ela no compreendeu que era uma 
mulher grvida que tinha visto.
 Sim  respondeu Eileen Rich.  Foi isto. Eu estava esperando um filho. No queria abrir mo do meu trabalho aqui. Continuei durante todo o outono, porm 
depois disto o meu estado estava comeando a se tornar evidente. Arrumei um atestado mdico que dizia que eu no estava apta a continuar trabalhando. Viajei para 
um local remoto, onde pensava no ser provvel encontrar algum que me conhecesse. Voltei para este pas e a criana nasceu... morta. Este semestre retornei ao colgio 
na esperana de que ningum viesse a saber... Mas compreende agora, no compreende, por que eu disse que teria que recusar a sua proposta de sociedade se a senhora 
a tivesse feito? Somente agora, que o colgio se encontra em tal estado de calamidade, achei que poderia aceitar. 
      Fez uma pausa e falou num tom natural:
 A senhora quer que eu v embora imediatamente? Ou prefere que eu espere at o final do semestre?
 Voc ficar at o final  respondeu a Srta. Bulstrode  e se houver um outro semestre aqui, o que eu espero que acontea, voc vai voltar.
 Voltar?  disse Eileen Rich.  Quer dizer que a senhora ainda me quer?
  claro que sim. Voc no matou ningum, matou? Ou ficou maluca por causa de algumas jias e planejou um crime para obt-las? Eu direi o que voc fez. Voc 
provavelmente negou seus instintos por muito tempo. Apareceu um homem, voc se apaixonou por ele, teve um filho. Suponho que no podiam se casar.
 Nunca houve planos de casamento  explicou Eileen.  Eu estava ciente disto. Ele no  culpado.
 Muito bem, ento  disse Bulstrode  voc teve um caso de amor e uma criana. Voc queria este filho?
       Sim  respondeu Eileen Rich.  Sim, eu o queria.
 O que passou, passou. Agora vou-lhe dizer algo. Acredito que, apesar desse seu romance, sua verdadeira vocao na vida  ensinar. Acho que a sua profisso 
significa mais para voc do que a vida normal de uma mulher com marido e filhos poderia significar.
 Oh, sim  concordou Eileen Rich.  Estou certa disto. Sempre soube disto.  o que eu realmente quero fazer.  a verdadeira paixo de minha vida.
 Ento no seja tola  disse Bulstrode.  Estou-lhe fazendo uma boa oferta. Se tudo der certo,  claro. Passaremos dois ou trs anos juntas, colocando Meadowbank 
de volta  sua posio. Nossas idias sero diferentes de como isto dever ser feito. Ouvirei as suas idias. Talvez eu at aceite algumas delas. Suponho que voc 
deseje fazer algumas modificaes em Meadowbank.
 Em alguns aspectos, sim  respondeu Eileen Rich.  No vou fingir, gostaria de ter neste colgio um nmero maior de garotas bem dotadas.
       Ah, entendo.  o elemento esnobe que lhe desagrada, no ?
 Sim  respondeu Eileen,  d-me a impresso que  um desperdcio.
 O que voc no entende  explicou a Srta. Bulstrode   que para conseguir o tipo de garota que voc deseja  necessrio ter-se este elemento esnobe. E voc 
sabe que  um nmero bem reduzido. Algumas garotas da nobreza estrangeira, alguns sobrenomes ilustres, e todo mundo, todos os pais espalhados por este pas e pelo 
mundo querem que suas filhas venham para Meadowbank. Fazem o possvel para que suas filhas sejam admitidas em Meadowbank. Qual o resultado? Uma enorme lista de espera, 
e ento eu vejo as garotas, estudo-as as seleciono. Eu escolho as alunas, percebe? Seleciono-as cuidadosamente, algumas por sua personalidade, outras pela inteligncia 
e algumas pelo preparo que j possuem. Algumas porque acho que no tiveram uma oportunidade ainda, mas que poderiam vir a ser pessoas interessantes. Voc  jovem, 
Eileen. Est cheia de idias... voc d valor ao ensino e  sua parte tica. Seus pontos de vista esto certos. O que importa  o material humano, porm, voc sabe, 
se quiser transformar algo em sucesso,  preciso tambm ser uma boa comerciante. Idias so como tudo mais. Precisam ser negociadas. No futuro teremos que fazer 
um trabalho bastante engenhoso para dar continuidade a Meadowbank. Terei que agarrar algumas pessoas, antigas alunas, argumentar com elas, procurar convenc-las 
at conseguir que mandem suas filhas para c. E ento as outras viro. Deixe-me usar minhas artimanhas e depois voc far as coisas a seu jeito. Meadowbank continuar 
funcionando e ser um timo colgio.
 Ser o melhor colgio da Inglaterra!  afirmou Eileen Rich com entusiasmo.
 Assim  que se fala  disse a Srta. Bulstrode.  E, Eileen, se eu fosse voc daria um bom corte no cabelo. Voc no parece conseguir se ajeitar com este 
coque. E agora  falou ela, mudando sua voz  devo ir ver Chaddy.
      Entrou no quarto e aproximou-se da cama. A Srta. Chadwick estava deitada muito quieta e plida. Todo o sangue sumira de seu rosto e parecia que a vida lhe 
fugia. Um policial com um bloco de notas estava sentado por perto e a Srta. Johnson no outro lado da cama. Olhou para a Srta. Bulstrode e balanou a cabea levemente.
 Ol, Chaddy  disse a Srta. Bulstrode. Ela tomou a mo fraca entre as suas. A Srta. Chadwick abriu os olhos.
       Quero lhe contar  falou ela.  Eleanor... fui eu, fui eu.
       Sim, querida, eu sei  disse a Srta. Bulstrode. 
       Cimes  disse Chaddy.  Eu queria...
       Eu j sei  disse a Srta. Bulstrode.
      Lgrimas rolaram lentamente na face da Srta. Chadwick.   horrvel... Eu no pretendia... no sei como pude fazer tal coisa.
       No pense mais nisto  pediu a Srta. Bulstrode.
       Mas no consigo... voc nunca... eu nunca me perdoarei...
      A Srta. Bulstrode apertou sua mo com um pouco mais de fora.
 Oua, minha querida  disse ela,  voc salvou a minha vida. A minha vida e a daquela boa mulher, a Sra. Upjohn. Isto vale alguma coisa, no  mesmo?
 Eu s queria  disse a Srta. Chadwick  que eu tivesse dado a minha vida pela de vocs duas. Isto me teria redimido ...
      A Srta. Bulstrode olhou-a com pesar. A Srta. Chadwick respirou fundo, sorriu e ento, movendo levemente a cabea para um lado, morreu...
 Voc deu a sua vida, minha querida  falou a Srta. Bulstrode suavemente.  Espero que compreenda isto... agora.
      

CAPTULO 25
LEGADO
EST A um senhor chamado Sr. Robinson que deseja v-lo.
 Ah!  exclamou Hercule Poirot. Estendeu a mo e apanhou uma carta na mesa  sua frente. Olhou-a, pensativo.
      Falou:  Mande-o entrar, George.
      A carta constava de umas poucas linhas.
      CARO POIROT:
      Um Sr. Robinson deve procur-lo em futuro prximo.  possvel que o senhor j tenha ouvido alguma coisa a respeito dele.  uma figura bastante proeminente 
em certos meios. No nosso mundo moderno h uma grande demanda por homens deste tipo. Creio que, se assim posso dizer, neste assunto em particular ele est do lado 
dos anjos. Isto  apenas uma recomendao, caso esteja em dvida.  lgico que o senhor no tem a menor idia do assunto a respeito do qual ele deseja conversar...
                                          Cordialmente,
      EPHRAIM PIKEAWAY
      Poirot pousou a carta e levantou-se quando o Sr. Robinson entrou na sala. Fez uma reverncia, estendeu a mo e indicou-lhe uma cadeira.
      O Sr. Robinson sentou-se, apanhou um leno e enxugou seu grande rosto amarelo. Comentou que estava um dia quente.
       Espero que o senhor no tenha vindo a p neste calor. 
      Poirot parecia horrorizado s em pensar nisto. Por uma simples associao de idias, seus dedos seguraram seu bigode. Ele estava tranqilo. No havia hesitao.
      O Sr. Robinson parecia igualmente horrorizado.
 No, no. Vim no meu Rolls Royce. Mas estes engarrafamentos!... Algumas vezes fica-se parado durante meia hora.
      Poirot balanou a cabea em sinal de compreenso. 
      Houve uma pausa... a pausa que se sucede  primeira parte da conversa, antes de se entrar no assunto.
 Fiquei interessado ao saber que...  claro que se ouve tanta coisa... maioria mentirosa... o senhor estava se ocupando com os acontecimentos de um colgio 
de moas.
       Ah!  exclamou Poirot.  Aquilo. 
      Recostou-se em sua cadeira.
 Meadowbank  disse o Sr. Robinson pensativo.  Um dos melhores colgios da Inglaterra.
        um timo colgio.
        ou era?
       Espero que ainda seja.
 Eu tambm espero  disse o Sr. Robinson.  Fao votos para que seja uma crise passageira. Ah, bem,  preciso fazer o que for possvel... Uma pequena ajuda 
financeira para vencer um inevitvel perodo de depresso; algumas alunas novas cuidadosamente escolhidas. Tenho alguma influncia em vrios crculos europeus.
 Eu tambm usei de persuaso em certos meios. Se, como o senhor diz, pudermos contornar a situao. Felizmente, a memria  fraca.
 Isto  o que se deseja. Todavia  preciso admitir que os acontecimentos que tiveram lugar em Meadowbank podem perfeitamente abalar os nervos de mames cuidadosas... 
e de papais dedicados.  professora de Ginstica, a professora de Francs e ainda uma outra professora... todas assassinadas.
        como o senhor diz.
 Ouvi falar  disse o Sr. Robinson  (ouve-se tanta coisa) que a infeliz jovem responsvel pelos crimes vem sofrendo de uma fobia a respeito de professores 
desde a sua juventude. Uma infncia infeliz no colgio. Os psiquiatras tiraro partido disto. Tentaro pelo menos uma atenuante, alegando que ela no  responsvel 
por seus atos.
 Esta parece ser a melhor linha a ser seguida  disse Poirot.  O senhor vai-me desculpar por dizer que espero que no obtenham sucesso.
 Concordo inteiramente com o senhor.  uma assassina impiedosa. Iro, porm, ressaltar seu excelente carter, seu trabalho como secretria de vrias pessoas 
famosas, sua ficha de guerra... bastante significativa, creio eu... contra-espionagem ...
      Emitiu as ltimas palavras de um modo sugestivo... com um qu de interrogao em sua voz.
 Creio que ela era muito boa neste servio  disse ele vivamente.  To jovem, porm brilhante, de grande utilidade... para ambos os lados. Este era o seu 
mtier... ela deveria ter continuado nele. Porm, posso compreender a tentao... dar uma nica cartada e ganhar o grande prmio.  Ele acrescentou suavemente:  
Um prmio vultoso.
      Poirot balanou a cabea.
      O Sr. Robinson inclinou-se para a frente.
       Onde esto, Sr. Poirot?
       Acho que o senhor sabe onde esto.
 Bem, francamente, sim. Os bancos so uma instituio to til, no  mesmo?
      Poirot sorriu.
 No precisamos usar de rodeios, precisamos, meu caro? O que vai fazer com elas?
       Tenho estado esperando.
       Esperando por qu?
       Digamos... por sugestes.
       Sim, entendo.
 O senhor sabe que elas no me pertencem. Gostaria de entreg-las ao verdadeiro dono. Mas isto, se entendo a situao corretamente, no  to simples assim.
 Os Governos se encontram numa posio muito difcil  disse o Sr. Robinson.  Vulnerveis, por assim dizer. S para falar em petrleo, ao, urnio, cobalto 
e similares, relaes diplomticas so assunto da maior sutileza. O mais conveniente seria poder dizer que o Governo de Sua Majestade, etc., etc., no possui nenhuma 
informao sobre o assunto.
 Contudo no posso manter este importante depsito no banco indefinidamente. 
 Correto!  Por isso vim-lhe propor que o senhor as entregue para mim. 
       Ah!  exclamou Poirot.  Por qu?
 Posso-lhe dar alguns motivos excelentes. Estas pedras preciosas... felizmente podemos chamar as coisas pelo seu nome certo... eram, indiscutivelmente, propriedade 
pessoal do falecido Prncipe Ali Yusuf.
        o que eu soube.
 Sua Alteza entregou-as ao Comandante Robert Rawlinson com certas instrues. Deveriam ser levadas para fora de Ramat e entregues a mim.
       O senhor tem prova disto?
       Certamente.
 O Sr. Robinson tirou um envelope comprido do seu bolso; dele retirou vrios papis. Colocou-os na mesa diante de Poirot.
      Poirot curvou-se sobre eles e estudou-os cuidadosamente.
       Parece ser como o senhor disse.
       Bem, e ento?
       Incomoda-se se eu lhe fizer uma pergunta?
       De forma alguma.
       O que o senhor, pessoalmente, ganha com isto? 
      O Sr. Robinson pareceu surpreso.
       Meu caro! Dinheiro,  lgico. Um bocado de dinheiro! 
      Poirot olhou-o pensativo.
  um negcio muito antigo  explicou o Sr. Robinson.  E bastante lucrativo. H muitos de ns, numa rede espalhada pelo mundo inteiro. Somos, como direi, 
os que trabalham nos bastidores. Para os Reis, os Presidentes, os polticos, para todos aqueles, digamos, que esto em foco. Trabalhamos em conjunto e lembre-se 
disso: somos leais. Nosso lucro  grande, mas somos honestos. Nossos servios so dispendiosos... porm os executamos com perfeio.
 Entendo  disse Poirot. Eh, bien. Concordo com o que o senhor me pediu.
 Asseguro-lhe que esta deciso agradar a todos  os olhos do Sr. Robinson pousaram, apenas por um momento, na carta do Coronel Pikeaway que estava na mo 
direita de Poirot.
 Mas espere s um instante. Sou humano. Tenho curiosidade. O que o senhor vai fazer com as pedras?
      O Sr. Robinson olhou para ele; ento seu grande rosto amarelo enrugou-se num sorriso. Inclinou-se para a frente.
       Vou lhe contar.
      E lhe contou.
      
II
      
      De um lado e do outro da rua, crianas brincavam. Seus gritos roucos enchiam o ar. O Sr. Robinson, que desceu pesadamente de seu Rolls Royce, foi atropelado 
violentamente por uma das crianas. Afastou-a com delicadeza e procurou o nmero da casa. Nmero quinze. Estava correto. Abriu o porto e subiu os trs degraus que 
davam para a porta de entrada. Notou que, na janela, havia cortinas brancas e limpas e que a maaneta da porta estava bem polida. Era uma pequena casa insignificante, 
numa rua insignificante de um bairro insignificante de Londres, porm bem tratada. Tinha dignidade.
      A porta se abriu. Uma jovem de cerca de vinte e cinco anos, com aparncia agradvel e beleza de carto postal, recebeu-o com um sorriso.
       Sr. Robinson? Entre.
      Ela o encaminhou para a pequena sala de visitas. Um televisor, estofados simples, um piano encostado  parede. Vestia uma saia escura e um casaco cinza.
       O senhor toma ch? Acabei de colocar a chaleira no fogo.
 No, obrigado. No tomo ch. E s vou-me demorar pouco tempo. Vim apenas trazer-lhe aquilo sobre o qual lhe escrevi.
       Da parte de Ali? 
       Sim. 
 No h... no pode haver... nenhuma esperana? Quero dizer,  mesmo verdade... que ele est morto? No poderia haver algum engano?
 Receio que no haja nenhum engano  disse o Sr. Robinson suavemente.
 No, suponho que no. De qualquer modo, eu nunca esperei... Quando ele voltou para seu pas, eu realmente achei que jamais tornaria a v-lo. No quero dizer 
que pensei que ele seria assassinado, ou que haveria uma revoluo. Apenas achei, bem, o senhor sabe, que ele teria que permanecer l, cumprir o seu papel... aquilo 
que era esperado dele. Casar-se com algum de sua prpria raa... coisas assim.
      O Sr. Robinson apanhou um pacote e pousou-o sobre a mesa.
       Abra-o, por favor.
      Seus dedos atrapalharam-se quando rasgou o papel e, por fim, desfez o embrulho.
      Ela reteve a respirao.
      Vermelhas, azuis, verdes, brancas, todas brilhando como fogo, vivas, transformando a pequena sala sombria na caverna de Aladim.
      O Sr. Robinson a observou. Ele j havia visto muitas mulheres olharem para jias...
      Finalmente ela falou numa voz ofegante.
       So... no podem ser... verdadeiras?
       So verdadeiras.
       Mas elas devem valer... devem valer...
      Sua imaginao falhou.
      O Sr. Robinson balanou a cabea.
 Se desejar desfazer-se delas, pode conseguir, pelo menos, meio milho de libras.
       No, no  possvel.
      De repente, ela juntou as pedras em suas mos e embrulhou-as com os dedos trmulos.
 Estou com medo  falou ela  assustam-me. O que devo fazer com elas?
      A porta abriu-se bruscamente e um menino entrou.
       Mame, o Billy me emprestou um caminho maravilhoso. Ele...
      Ele parou, olhando para o Sr. Robinson.
      Era um garoto moreno de olhos escuros.
      Sua me disse:
 V para a cozinha, Allen, seu ch est pronto. Leite, biscoitos e um pedao de bolo de chocolate.
       Oh, que bom!  Ele saiu alvoroado.
       O nome dele  Allen?  perguntou o Sr. Robinson.
      Ela enrubesceu.
 Era o nome mais parecido com Ali. No podia cham-lo de Ali... difcil demais para ele, para os vizinhos.
      Ela prosseguiu, com seu rosto tornando-se sombrio mais uma vez:
       O que eu devo fazer?
 Em primeiro lugar, a senhora tem a sua certido de casamento? Preciso ter certeza que  realmente quem diz ser.
      Ela o encarou por um momento e, em seguida, foi at uma pequena escrivaninha. De uma das gavetas retirou um envelope de onde tirou uma folha de papel e entregou 
a ele.
 Hum... sim... Registro de Edmonstow... Ali Yusuf, estudante... Alice Calder, solteira... Sim, est tudo em ordem.
 Oh, sim,  tudo legalizado. Quanto a isto no h dvida. E ningum jamais se preocupou com quem ele era. Havia tantos destes estudantes muulmanos, entende? 
Sabamos que, na verdade, isto no representava muito. Ele era muulmano e poderia ter mais de uma esposa e sabamos que teria que voltar para seu pas e fazer exatamente 
isto. Conversamos a este respeito. Porm Allen estava a caminho, compreende, e ele disse que isto resolveria o problema da criana... casaramos pelas leis deste 
pas e Allen seria filho legtimo. Era o melhor que ele poderia fazer por mim. Sabe, ele realmente me amava. Amava de verdade.
       Sim  concordou o Sr. Robinson.  Estou certo que sim.
      Ela continuou animadamente:
 Agora, suponhamos que a senhora deixe tudo a meu cargo. Providenciarei a venda das pedras. Dar-lhe-ei o endereo de um timo advogado, digno de confiana. 
Ir aconselh-la, espero, a aplicar a maioria do dinheiro num Fundo de Investimento. E havero outras coisas a serem tratadas; a educao de seu filho e um novo 
modo de vida para a senhora. A senhora vai desejar uma orientao para o seu comportamento na sociedade. Ser uma mulher muito rica e todos os gavies e vigaristas 
estaro no seu encalo. Sua vida no ser fcil, exceto no aspecto puramente material. Posso-lhe garantir que as pessoas ricas no tm muita paz de esprito... conheci 
muitas delas para no ter esta iluso. Entretanto, a senhora tem carter. Acho que se sair bem. E seu filho poder vir a ser um homem mais feliz do que seu pai 
jamais foi.
      Ele se calou.  Concorda?
 Sim. Leve-as.  Empurrou-as na direo dele e ento, subitamente, falou:  Aquela estudante, a que encontrou as pedras... gostaria que ela ficasse com uma. 
Que cor o senhor acha que ela preferiria?
      O Sr. Robinson refletiu.  Acho que uma esmeralda... verde de mistrio. Boa idia a sua. Ela achar muito excitante. Ele se levantou.
 Cobrarei pelos servios prestados, a senhora sabe  falou o Sr. Robinson.  E meu preo  bastante alto. Porm pode confiar em mim.
      Ela lhe lanou um olhar firme.
 Sim, creio que posso. E eu preciso de algum que entenda de negcios, porque eu no entendo nada.
 A senhora parece ser uma mulher muito sensata, se me permite diz-lo. Ento, devo lev-las? No quer ficar com... digamos... ao menos com uma?
      Ele a observou com curiosidade. A sbita centelha de excitao, o olhar de cobia... e ento, a centelha morreu.
 No  respondeu Alice.  No vou ficar nem mesmo com uma. Ela corou. Devo dizer que isto lhe parece uma tolice... no ficar nem ao menos com um rubi ou 
uma esmeralda... apenas como lembrana. Mas, sabe, ele e eu... ele era muulmano, entretanto deixava-me ler, vez ou outra, trechos da Bblia. E lemos juntos este 
trecho... o da mulher cujo preo estava acima de rubis. E assim... no quero nenhuma jia. Prefiro no...
 Uma mulher rara  disse o Sr. Robinson para si mesmo, enquanto se afastava da casa em direo ao seu Rolls Royce que o aguardava.
      E repetiu:
       Uma mulher rara... 

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